Reem e Rawan são irmãs e também protagonistas desta história contada pelo Time e pelo El País. Escolheram estes nomes fictícios para proteger a sua identidade, uma vez que se encontram escondidas em Hong Kong desde setembro de 2018. Mas não era essa a intenção das duas quando escaparam da Arábia Saudita: quiseram fugir de casa para não se sujeitarem mais às humilhações vindas do pai e dos irmãos mais velhos, de 24 e 25 anos. Pegaram nos cinco mil dólares (4 380,92 euros) que tinham de parte, fizeram as malas e partiram.

O mote que levou à decisão começou com uma hashtag (#StopEnslavingSaudiWomen) que representava uma campanha contra a lei da tutela masculina na Arábia Saudita, promovendo a liberdade das mulheres para tomarem as suas decisões. Reem conta em entrevista ao Time que “era deprimente sentir que não tinham um futuro na Arábia Saudita nem ter nenhuma esperança em que isso vá mudar. Os que tentaram mudar acabaram por ser presos”. As duas jovens não queriam viver numa realidade na qual estavam impedidas de sair do país, casar, alugar um apartamento, fazer cirurgias ou até abrir uma conta bancária sem a permissão de um “mahram”, um tutor do sexo masculino, ou do próprio pai.

Quando se decidiu a abandonar a Arábia Saudita, Reem falou com a irmã mais nova, Rawan, e começaram a poupar dinheiro e a preparar a sua saída. O planeamento era feito à noite, através da troca de mensagens via WhatsApp, para os pais não desconfiarem que planeavam alguma coisa. Quando já tinham tudo preparado, há cerca de seis meses, foi altura de avançar. Mas nem tudo correu como previsto.

Estão escondidas em Hong Kong desde setembro de 2018, quando estavam a caminho da Austrália, momento em que foram retidas na cidade por membros do consulado saudita que as levou a entrar na cidade como visitantes. Era uma escala para durar duas horas, mas entretanto já se passaram seis meses. Desde então, as duas irmãs vivem todos os dias com o medo de serem sequestradas, receio que tem vindo a aumentar depois do caso de Khashoggi, o jornalista saudita assassinado na embaixada da Arábia Saudita em Istambul.

Reem e Rawan são as últimas mulheres sauditas a ficar isoladas numa cidade desconhecida e agora imploram por ajuda à comunidade internacional. Já mudaram 13 vezes de hotel e os homens da família já viajaram até Hong Kong para as irem buscar, mas Reem e Rawan recusaram encontrar-se com os familiares porque temem correr risco de morte caso o façam.

“Não consigo respirar”, repetiu Khashoggi antes de ser assassinado

Este não é o primeiro caso que remete para uma tentativa de fuga da Arábia Saudita. Em janeiro, uma outra jovem saudita, Rahaf Mohammed al-Qunun, fugiu da família que estava de férias no Kuwait. Ficou retida na Tailândia onde se barricou num quarto de hotel e também perdeu o direito a viajar para a Austrália, mas conseguiu asilo no Canadá.