Em 2005, o São Paulo teve uma das épocas mais bem sucedidas de um clube brasileiro nas últimas duas décadas. À conquista do Paulistão, os tricolores acrescentaram a vitória na Libertadores, derrotando o Atl. Paranaense na final, e ainda o Mundial de Clubes, batendo o Liverpool campeão europeu com um golo solitário de Mineiro. Dessa equipa, que começou a época orientada por Émerson Leão, teve Milton Cruz enquanto interino e acabou a temporada com Paulo Autuori no comando técnico, faziam parte vários jogadores que acabaram por saltar para o futebol internacional — um deles até com passagem por Portugal. O lateral direito era Cicinho, que mais tarde representou o Real Madrid; um dos centrais era Edcarlos, que em 2007 foi contratado pelo Benfica; outro dos centrais era o internacional uruguaio Diego Lugano, que passou pelo PSG; e o já veterano guarda-redes era Rogério Ceni, principal figura modelo de Renan, atual guardião do Sporting.

E Flávio Donizete. Na altura com 21 anos, o defesa central tinha completado toda a formação no São Paulo e concretizava um sonho ao conquistar três grandes troféus numa única temporada. Tal como Cicinho, que chamou à atenção dos merengues, Edcarlos, que recebeu o interesse dos encarnados, ou Lugano, que do Brasil foi para o Fenerbahçe, Donizete era encarado como um dos grandes produtos dos anos mais recentes de formação paulista e era apenas uma questão de tempo até um clube europeu dar conta do central de 1,83 metros e forte capacidade física. A vida, porém, intrometeu-se do destino de Donizete e o jogador nunca chegou à Europa. Aquele ano de 2005, há 14 anos, foi o último e único digno de sucesso na carreira do brasileiro. Tudo porque em 2009, depois de períodos emprestado à Portuguesa, ao América e ao Atl. Alagoinhas, o contrato com o São Paulo acabou. E Flávio Donizete decidiu tirar uma espécie de férias antes de voltar a procurar clube.

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As festas sucederam-se e o excessivo consumo de álcool deu lugar ao consumo de drogas. “Uma noite, os meus amigos falaram: ‘Cheira!’. Eu cheirei e na hora o efeito da bebida passou. ‘Que negócio é esse?’. Toda a vez que eu saía, eu falava: ‘Hoje eu posso beber até à hora que eu quiser porque, quando eu usar cocaína, vai passar o efeito. Vamos lá buscar!’. Eu não parava dentro de casa, era só balada, só gandaia, só bebidas alcoólicas. Houve épocas em que eu não ficava um dia sem usar cocaína”, revelou Donizete numa longa entrevista ao UOL, a primeira que deu depois de sair do centro de reabilitação onde passou os últimos meses de 2018. O consumo de drogas, por motivos óbvios, atrapalhou a carreira no futebol e o central chegou até a rejeitar propostas aliciantes por receio de ser apanhado nos controlos antidoping. A decisão de deixar de jogar, mais do que por motivos físicos, foi tomada para ter menos uma preocupação.

“Preocupava-me a punição e a minha imagem, se fosse apanhado. Iria repercutir a nível mundial. Comecei a engordar por causa da bebida, machuquei o joelho e não conseguia correr. Tudo junto com a cocaína. Aí eu falei: ‘Sabe uma coisa? Larguei de vez'”, explica. Tudo somado, foram oito anos de consumo regular e excessivo de cocaína: um vício que Donizete nunca escondeu da mulher e eu terminou com um estilo de vida folgado e dispendioso que a família, em conjunto com as duas filhas, tinha até então. O futebol deu lugar a pequenos biscates, enquanto pedreiro ou pintor, mas todo o dinheiro que daí saísse servia para alimentar o vício e não para colocar comida na mesa. “Era droga todo o dia. Quando estava sozinho, tentava manipular, enganar e roubar, omitir. Eu fazia de tudo para conseguir a substância. A qualquer preço. Independentemente se ia prejudicar alguém ou não. Eu queria droga, eu ia e conseguia a droga. Se eu conseguisse 15 reais e não tivesse nada para comer, eu não pensava em trazer para dentro de casa. A primeira coisa era a cocaína. Às vezes, as minhas filhas ficavam sem comer. Eu conseguia uns 20 reais, comprava cinco em ovo e gastava 15 em cocaína. Às vezes nem trazia o ovo”, conta o brasileiro, hoje com 35 anos.

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A mulher, Cibele, sempre esteve a par do problema e tinha noção de que o próprio marido lhe tirava dinheiro da carteira às escondidas para comprar droga. A dada altura, o jogador acabou mesmo por vender a medalha de vencedor do Mundial de Clubes para ter dinheiro. O ponto de viragem chegou de forma algo inesperada, uma oferta de ajuda que poderia ter sido desperdiçada devido à sinceridade mas que acabou por libertar Donizete do poço onde tinha caído. Em agosto de 2018, a TV Record convidou-o para uma entrevista e disponibilizou-se para pagar o tratamento numa clínica de reabilitação. Aceitou porque viu o convite como uma oportunidade de conseguir algum dinheiro: pediu 20 reais para cortar o cabelo, já que “não podia aparecer assim na Record”. “Em vez de ir cortar o cabelo, fui buscar droga, por isso é que o meu cabelo continuou grande”, revela agora. No dia da gravação do programa Domingo Show, onde daria a entrevista, o apresentador Geraldo Luís perguntou-lhe se tinha consumido cocaína naquele dia.

“Eu tinha um pequeno frasco com droga dentro do bolso durante a entrevista. Se eu tivesse mentido, a entrevista tinha ido por água abaixo. Mas eu fui honesto. ‘Eu usei droga hoje’. A minha vontade era tirar o frasco do bolso. Eu não chorava porque estava sob o efeito de cocaína. Se olharmos para a entrevista, a minha boca estava fechada, de lado, torta. Eu não consigo falar, fico passando a língua na boca a toda a hora”, atenta Flávio Donizete, que dias depois do programa ir para o ar foi internado numa clínica de reabilitação no interior de São Paulo, sem acesso à família ou aos amigos. “Nos primeiros dias, eu não conseguia dormir. Depois, bateu a abstinência. O corpo precisava da droga. Comecei a ter crises de enxaquecas. Às vezes vomitava, às vezes acordava de madrugada. Fiquei nesse processo um mês. Pensei em desistir. Mandaram a minha esposa lá para conversar comigo. Mas era o corpo a manipular-me por causa da droga. Eu estava morrendo de saudades dela. Mas eu estava com mais saudades da droga”, explica o brasileiro, que deixou o centro cinco meses depois de ser internado.

Poucos dias depois de voltar ao mundo real, a Portuguesa abordou-o e mostrou interesse em contratá-lo: ao contrário do que havia feito anos antes, Donizete não recuou e aceitou a proposta. Quando chegou a primeira semana de treinos, não apareceu, não avisou, não deu sinais de vida e temeu-se o pior. Mas o central explica agora que ficou em casa devido a uma “crise de abstinência tremenda”. “Não queria sair de casa porque sabia que se saísse, ia usar. Eu moro numa favela em Itapecerica da Serra. Perto da minha casa existem uns becos, era onde eu ia buscar droga. Lá o pessoal usa como se estivesse bebendo água. Eu passei na rua e vi alguns moleques que andavam comigo usando e aquilo ali já me deu uma…minha língua já dormiu, a garganta já secou”, recorda Donizete, que passou essa semana fechado em casa, apenas acompanhado pela mulher.

Ainda não se estreou pela Portuguesa e os últimos deixaram marcas, como o facto de já não conseguir beber bebidas alcoólicas porque “o corpo pede a droga” e de nunca andar com dinheiro na carteira, porque “se estiver sozinho e tiver dez reais na carteira”, não vai resistir. “A cabeça de um viciado, de um dependente químico, não pára. Estou conseguindo, mas não é fácil, não. É um leão. Dois leões. Três leões por dia. A droga causou-me tanto estrago e prejudicou-me tanto que hoje eu tenho medo de andar sozinho”, sentencia Flávio Donizete, que aos 35 anos tem ainda como objetivo voltar a representar uma equipa do principal escalão brasileiro.