“As Cinzas Brancas Mais Puras”

É também a ver cinema que podemos perceber de que forma a China mudou nos últimos anos, e como essas mudanças mexeram com a existência das pessoas e as relações entre elas. Não são só os filmes dos principais documentaristas chineses que registam essas mudanças em grande e pequena escala. São também os filmes de ficção, de realizadores como Jia Zhangke. Em “As Cinzas Brancas Mais Puras”, o autor de obras tão fundamentais como “Plataforma”, “O Mundo”, “Still Life-Natureza Morta” ou “24 City”, vai buscar material ao filme de “gangsters” e ao melodrama clássico, para mostrar mais uma vez, pela história das duas personagens principais, o ambicioso chefe de um “gang” (Fan Liao) de uma cidade do interior do país, e a sua destemida namorada (a estupenda Zhao Tan, mulher do realizador e sua atriz de eleição), as colossais e aceleradas alterações sofridas pela sociedade chinesa de alto a baixo neste século, e como elas abalam e mudam vidas particulares para sempre. E sendo invariavelmente sobre a China em transformação vertiginosa, as fitas de Jia Zhangke são também, e primeiro que tudo, sobre essas vidas e as voltas dramáticas que elas dão, por causa dessas transformações e das decisões tomadas sob o seu efeito. “As Cinzas Brancas Mais Puras” volta a ilustrá-lo de forma exemplar e contundente.

“A Portuguesa”

Se gosta daquele cinema português feito por devotos de Manoel de Oliveira, ambientado numa época histórica vaga e superficialmente recriada, laboriosamente estético e cheio de referências à pintura, feito à base de demorados e estáticos planos-sequência, onde pouco se passa e o que acontece é referido pelas personagens e quase nunca mostrado, em que praticamente não há interação e progressão dramática e as palavras pesam como chumbo, com interpretações variando entre o lânguido e o linfático, e teatral no sentido mais “récita de sociedade amadora” da palavra, então “A Portuguesa”, de Rita Azevedo Gomes, adaptado por Agustina Bessa-Luís de uma novela de Robert Musil passada no século XVI, sobre o casamento entre uma dama portuguesa e um nobre de ascendência germânica, é o filme ideal para si. Se nada disto lhe diz seja o que for, fuja a sete pés de “A Portuguesa”, uma alambicada, cerradíssima e poderosa estopada, como pensávamos que já não se faziam no cinema nacional desde os anos 80.

“Bucha e Estica”

John C. Reilly e Steve Coogan interpretam Bucha e Estica, aliás Oliver Hardy e Stan Laurel, neste filme de John S. Baird, passado durante a terceira digressão feita pela dupla na Grã-Bretanha, entre 1953 e 1954, por necessidades financeiras. O produtor Hal Roach, que os tinha juntado e para o qual haviam trabalhado durante mais de 20 anos, detinha os direitos de todos os filmes da dupla. Não pingava um centavo para eles das constantes exibições nas televisões, e o dinheiro pago pela Fox e ela MGM, para as quais tinham trabalhado após romperem com Roach, não era de molde a deixá-los em situação desafogada. Estavam longe os anos em que Bucha e Estica tinham sido popularíssimos gigantes da comédia e campeões de bilheteira, entre as décadas de 20 e 40. Entretando, dera-se a II Guerra Mundial, tinha aparecido uma nova geração de cómicos e já ninguém queria financiar os seus filmes. “Bucha e Estica” foi escolhido com filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.