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Estados Unidos da América

O negro James Hart Stern conseguiu chegar à liderança de um grupo neo-nazi para o destruir por dentro. Mas como?

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Depois de ter conseguido fazê-lo com um ramo do KKK, Stern repete o truque com um grupo neo-nazi. O anterior líder diz-se "enganado". Stern assume: "Fui mais esperto do que eles."

James Hart Stern conseguiu assumir a liderança do grupo neo-nazi NSM

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A notícia surgiu na sexta-feira: James Hart Stern, um norte-americano negro de 54 anos, tornou-se o presidente da organização neo-nazi Movimento Nacional Socialista (NSM na sigla original), com o objetivo de a destruir por dentro. A informação foi divulgada depois de a organização de monitorização de movimentos radicais Southern Poverty Law Center ter tido acesso a documentação de um tribunal que comprova que a gestão do NSM foi transferida de Jeff Schoep (46 anos, pertencente a organizações de neo-nazis desde os 19 anos) para Stern.

O norte-americano negro anunciou de imediato que pretende que a organização se declare como culpada no caso judicial em que está envolvida, por suspeitas de conspiração para cometer violentos nas manifestações de Charlottesville, e que irá alterar o site da grupo para que se torne num espaço de aprendizagem sobre o Holocausto.

Este sábado, Stern explicou ao Washington Post como conseguiu este feito: convencer um neo-nazi encartado a passar-lhe de bandeja a liderança de uma organização que o Southern Law Poverty Center classifica como tendo “retórica anti-judaica violenta e visões racistas”. “Até 2007, os membros do NSM manifestavam-se com uniformes nazis completos, agora substituídos por ‘Uniformes de Batalha’ negros”, acrescenta o órgão.

“Eu fiz a parte difícil e perigosa”, declarou ao Washington Post o próprio James Hart Stern. “Como homem negro, assumi a liderança de um grupo neo-nazi e fui mais esperto do que eles.”

Como conseguiu Stern convencer o líder do grupo a passar-lhe as rédeas da organização?

Para perceber como foi isto possível é preciso recuar alguns anos, quando Stern cumpria pena de prisão por fraude postal. Ditou o destino que o seu companheiro de cela fosse Edgar Ray Killen, ex-líder do Ku Klux Klan (KKK) condenado pelo seu papel na morte de três ativistas, cujos homicídios ficaram imortalizados no filme Mississippi em Chamas. Na prisão, Stern acabou por conseguir convencer Killen a dar-lhe poderes de procuração, acabando por utilizá-los para dissolver o braço do KKK liderado por Killen, em 2016, já em liberdade. Foi a sua primeira infiltração numa organização racista para a destruir por dentro.

Em 2014, o líder do NSM contactou Stern por ter ouvido falar da sua relação com Killen. De acordo com Stern, o líder do grupo neo-nazi ter-lhe-á dito que era o primeiro negro com quem a sua organização falava desde que tentaram contactar Malcolm X. Os dois acabaram por começar a encontrar-se com regularidade e debater uma série de assuntos onde discordavam violentamente, como o Holocausto. “Desde o início que lhe disse ‘não concordo contigo, não gosto de ti'”, conta Stern ao Washington Post. “Falava com ele porque tinha esperanças de conseguir mudá-lo.”

A relação persistiu e, no início deste ano, Schoep terá contactado Stern para pedir ajuda sobre a situação que o grupo enfrentava com o caso judicial de Charlottesville. Estava “abananado” e falava em conseguir “mudanças”. Stern explica que, embora Schoep continuasse a ter os mesmos ideais políticos, queria afastar-se do NSM por se sentir colocado à margem dos principais grupos de supremacia branca que ganharam um impulso após a eleição de Donald Trump em 2016. “Foi aí que vi uma brecha na armadura”, resume Stern ao jornal.

Ele sabia que tinha os membros mais vulneráveis e descontrolados de sempre na organização. Percebeu que alguém ia acabar por cometer um crime e ele seria responsabilizado”, resume Stern.

Foi então que o homem negro conseguiu convencer o neo-nazi a fazer o que até aí parecia impensável: dar-lhe o controlo formal da organização e do seu site.

Schoep diz-se enganado — e promete recorrer à Justiça para recuperar o controlo do NSM

Jeff Schoep reagiu entretanto, ao mesmo jornal, e diz ter sido “enganado”. “[Stern] convenceu-me de que, para proteger os nossos membros do processo em tribunal, eu deveria passar-lhe a presidência do NSM”, resume.

Apesar de admitir que é necessário “sangue novo” na organização e que o seu tempo passou, Schoep garante que o NSM será de agora em diante liderado por Burt Colucci, como “comandante”.  “Isto não nos travará”, promete o ex-líder, que garante que irá avançar com uma ação judicial. “As ações de má fé do senhor Stern não me deixam outra hipótese se não proteger os meus direitos em tribunal, já que acredito que ele me manipulou de forma fraudulenta com o objetivo de assumir o controlo do NSM e dissolvê-lo.”

Schoep aproveita ainda para deixar uma mensagem para dentro — e outra para fora: “Quero agradecer a todos os que ficaram do nosso lado durante este período difícil”, acrescentou Schoep. “Quanto aos restantes abutres, serpentes e interesses internacionais bancários e media que tentaram prejudicar o NSM e a mim, revelaram-se.”

Por agora, contudo, o líder legal do NSM é um homem negro — que promete alterar o rumo do grupo neo-nazi.

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