Muito se falou sobre o clássico entre Real Madrid e Barcelona na passada quarta-feira, quando os catalães mais pragmáticos foram ao Santiago Bernabéu ganhar por 3-0 a um conjunto merengue com melhor qualidade de jogo mas que não evitou a sexta final da Taça do Rei consecutiva do rival. Mas muito é mesmo muito. Muito que foi resumido num mero par de linhas por Jorge Valdano, na habitual crónica ao sábado no El País (que sai também na edição impressa do jornal A Bola). “Quando o Barça de apoderou da beleza futebolística, o Real respondeu que o seu estilo era ganhar. Em Barcelona surgiram os apologistas do jogo, em Madrid os apologistas do resultado (…) Mas se o Real perde jogando melhor e o Barça ganha sem beleza, cada um acha o mesmo do seu feito. Porque todos gostamos de ganhar e também de jogar bem”, descreveu na perfeição o argentino.

Tudo certo mas com um pressuposto que é importante não esquecer: um jogo da Taça do Rei com 1-1 na primeira mão não é a mesma coisa do que um jogo da Liga onde se parte com uma distância de nove pontos entre as duas equipas. Era obrigatório que um tivesse uma história e outro criasse outra diferente – como aconteceria mesmo e logo desde início, também por culpa de tudo o que aconteceu quatro dias antes e que motivou reações de choque no universo dos blancos.

Na antecâmara do jogo, vários adeptos foram até à porta de Valdebebas manifestar o seu descontentamento, tendo como um dos principais alvos Kroos (embora quase ninguém tenha passado ao lado, num momento que obrigou à presença da polícia no local). E houve ainda a saída do técnico Álvaro Benito das equipas de formação do clube, por ter criticado Casemiro e Kroos em termos públicos, numa decisão que motivou também muita contestação. E também a ideia (não nova) de que Santiago Solari tem os dias contados no comando técnico, face à sucessão de desaires numa época particularmente conturbada. Por todos os motivos, o Real Madrid estava obrigado a reagir. A deixar um statement. A fazer valer um currículo que ainda recentemente foi reforçado com três triunfos consecutivos na Liga dos Campeões. E o Barcelona podia jogar com esses fatores.

Ao contrário do que tinha acontecido, os blaugrana estiveram mais próximos das suas origens. Gareth Bale, com um livre em boa posição por cima, até fez o primeiro remate do encontro antes de vigorar o controlo de jogo do conjunto de Ernesto Valverde, a alternar um futebol mais rápido e vertical com momentos de maior posse (ainda que, em alguns momentos, longe da baliza). Os visitantes chamavam o adversário para poderem depois a profundidade, como aconteceu com Messi que apareceu em boa posição nas costas da defesa para desviar ao lado da baliza de Courtois. Não foi à primeira, foi à segunda: o número 10 do Barça arrastou consigo os centrais, Sergi Roberto viu a desmarcação de rutura de Rakitic e o croata só teve de picar com muita classe por cima do gigante belga, inaugurando o marcador ainda antes da primeira hora (26′).

O Real estava em desvantagem e foi nesse momento que reagiu. Que se mostrou inconformado perante a série de jogos em que o rival levava vantagem. E que criou aproximações perigosas, apesar de muitas vezes não terem passado a barreira defensiva dos visitantes. Reguilón conseguia esticar jogo pelo flanco esquerdo, Modric agarrou no meio-campo, Vinicius começou a aparecer mais (embora tenha atirado o primeiro remate… pela linha lateral). Houve um remate ainda do lateral espanhol mas foram os catalães a acabarem o primeiro tempo com um livre direto de Messi que passou muito perto (37′) e um remate de Suárez em posição frontal para defesa de Courtois (39′). A fechar, uma das polémicas de sempre e com um suspeito do costume: Messi foi atingido por Sergio Ramos na cara, o argentino foi pedir satisfações e houve uma “pega” que podia ter valido vermelho.

No segundo tempo, o Real Madrid deu tudo. Vinicius tentou de várias maneiras chegar ao golo, Benzema foi arriscando a meia distância, os centrais procuraram todos os lances de bola parada. Com dificuldades à mistura, o Barcelona conseguiu segurar a vantagem e até podia ter arrumado a questão em definitivo mais cedo, caso alguma das saídas rápidas tivesse resultado numa verdadeira oportunidade de golo (como a que Messi teve mesmo a acabar o jogo). O golo de Rakitic acabou por fazer toda a diferença num Santiago Bernabéu que virou casa de festa para os catalães, que venceram pela quarta temporada consecutiva no campo do rival. No lado do Real, que ficou a 12 pontos do primeiro lugar, a casa ficou ainda mais a arder – e são já três desaires seguidos dos merengues em casa, naquela que é de longe a pior época da equipa nos últimos tempos. Adensada ainda por outro pormenor: os catalães passaram agora a ter mais triunfos em clássicos do que o conjunto de Madrid (96-95).