A foto que acompanha este texto era a primeira que nos surgia pouco antes do início da final do triplo salto dos Europeus de Pista Coberta. No entanto, mesmo que estivesse perdida entre 1.000 imagens de Nelson Évora, seria sempre a escolhida. Porque esta é a foto que representa muito do passado, do presente e do futuro no próximo ano e meio do campeão olímpico.

As duas medalhas de ouro nos Europeus de juniores de 2003, ganhando no triplo salto e no salto em comprimento, tiveram o seu prolongamento entre 2007 e 2009, altura em que o atleta teve o seu melhor período em termos desportivos. Conquistou a quarta vitória de sempre de Portugal nos Jogos Olímpicos, conseguiu sagrar-se campeão mundial, chegou ainda a uma prata em Berlim no Campeonato do Mundo seguinte e a um bronze nos Mundiais de Pista Coberta. Depois vieram os problemas. As lesões. Graves para qualquer desportista, muito graves para alguém do atletismo, ainda mais grave por tratar-se de um saltador. Alguns arrumaram-no mas ele, mais do que ninguém, nunca desistiu e começou a saga de sete vidas que o fez aumentar o palmarés pé ante pé, passo a passo: dois bronzes em Mundiais ao Ar Livre, mais um no Mundial de Pista Coberta, a vitória no Europeu ao Ar Livre, dois ouros em Europeus de Pista Coberta. Tudo entre 2015 e 2018, a última já com 34 anos.

Por mais sombras que possam surgir, como a foto mostra, o espírito competitivo, a capacidade de sacrifício e o trabalho para ser melhor e contrariar o avançar da idade estiveram sempre presentes no dia a dia de Nelson Évora. Dentro e fora de pista, foi-se assumindo como um exemplo. “O objetivo é chegar a Tóquio na melhor forma possível e lutar pelo ouro, seja quem for o adversário, acreditem. Este ano é o mais baixo a nível de trabalho, os próximos dois serão mais fortes nos resultados. Agora há que continuar a trabalhar e acreditar”, prometeu no ano passado, após o Europeu. Prometeu e cumpriu, embora não da forma desejada. Mas este é também, por paradoxal que pareça, o início de uma nova era dentro de uma era que está a chegar ao fim.

Quando chegou no ano passado aos Europeus de Berlim, Nelson já não tinha o recorde nacional do triplo salto, estabelecido por Pedro Pablo Pichardo em Doha, na Liga Diamante, com 17,95. O luso-cubano não viu aprovada pela Associação Europeia de Atletismo a sua participação na prova e, no final, deixou uma mensagem nas histórias do Instagram que dizia muito sobre esse novo começo que estava a acontecer: “Sem a minha presença é fácil. Campeão!”. Nestes Europeus de Pista Coberta, Pichardo, que tinha a melhor marca do ano, ficou de fora mas nos Mundiais do Qatar, entre o final de setembro e o início de outubro, já estará presente. Pela primeira vez, e no meio de uma guerra mais ou menos surda consoante as circunstâncias entre Benfica e Sporting, Portugal terá dois atletas com legítimas aspirações a chegar à final e discutir as medalhas. Aí e nos Jogos de 2020.

“Tive muito boas sensações. Estava demasiado relaxado no primeiro ensaio, pois pensei que uma corrida mais suave podia dar para a marca de qualificação, mas tive de dar um pouco mais de gás para o segundo ensaio. Foi um bom salto, mas é preciso mais. Na final, vou tentar fazer o melhor e, se estiver num dia sim, o objetivo é chegar à medalha de ouro e bater o recorde pessoal”, comentou Nelson Évora após uma qualificação onde fez a melhor marca logo ao segundo salto, com 16,89, numa espécie de prolongamento de uma entrevista ao Público em agosto de 2018, dez anos depois do ouro de Pequim, onde assumiu que queria continuar a ganhar títulos e que tentaria recuperar o recorde nacional que entretanto perdera.

O concurso começou de forma muito semelhante ao que tinha acontecido no apuramento, com o azeri Nazim Babayev a bater o seu recorde pessoal na série inicial com 16,97, à frente de Nelson Évora (16,68) e do francês Kevin Luron (16.63). O alemão Max Hess, outro dos principais candidatos às medalhas, apareceu pouco depois, colocando-se na segunda posição com 16,93. E a seguir foi o outro gaulês na final, Yoann Rapinier, a chegar aos 16,72, elevando um pouco o concurso. O português arriscou um pouco mais e acabou por ter um salto nulo, terminando a segunda e terceira rondas de tentativas na quarta posição, após mais um nulo na fase intermédia da final (sendo que ninguém melhorou o seu registo ao terceiro salto).

A luta pela medalha de ouro começava mais a sério a partir desse momento e com dois grandes protagonistas na corrida ao lugar mais alto do pódio. Nelson Évora conseguiu o seu melhor registo da temporada com um salto a 17,11, que valeria o topo caso Babayev não tivesse sacado um 17,29 que melhorou mais uma vez a sua melhor marca pessoal. Hess ainda ficou a um centímetro da marca do português mas a final estava mesmo circunscrita aos dois da frente, com o azeri a fazer a festa da vitória depois de mais um salto nulo do atleta do Sporting, o quarto em seis tentativas nesta final de Glasgow.