Muitos dirão que é um poeta de sucesso: tem apenas 40 anos, estreou-se aos 22 na Assírio & Alvim, quando a editora era dirigida pelo mítico Manuel Hermínio Monteiro e andavam por ali Herberto Helder, Mário Cesariny ou António Franco Alexandre. Nesses dias não era qualquer um que chegava aquela chancela portanto, aqueles que “passavam pelo buraco da agulha” tinham sobre si todos os bons presságios e todas as garras da crítica.  Ainda assim Vasco não se deixou impressionar e, tal como deixou duas licenciaturas, deixou a Assírio foi para as Quasi de Jorge Reis-Sá e daí para a frente somam-se tquase duas décadas a publicar em pequenas editoras independentes. Em 2016, com quase todos os 12 livros esgotados aceitou reunir na IN_CM toda a sua poesia e chamou-lhe ironicamente: Contra Mim Falo.

No final de 2018 apresentou o seu novo livro que resulta de um projeto com o fotografo Vitorino Coragem, que junta a palavra e a imagem fotográfica num noturno melancólico sobre a ruína do humano. A ruína não enquanto finitude mas enquanto potência criadora. “Um Passo na Terra” onde mostra que está empenhado num destino incerto, na busca de impossibilidades e ruturas, sombras onde as formas e os relevos se diluem numa escuridão quase informe. Este é um livro de paisagens como texturas que guardam ainda vestígios da travessia humana pelo quotidiano; corpos, gestos, mãos e dedos…

Vasco Gato, 40 anos e 13 livros de poesia depois ©Vitorino-Coragem

Encontrámo-lo num dia de chuva à porta da pastelaria Versailles, em Lisboa, e conversámos sobre isso de saber que há caminhos que já não se querem caminhados.

Treze livros e quase duas décadas de poesia. Isso significa que muita coisa mudou entre os 20 e os 40 anos.
No início tinha uma aproximação, uma linguagem, uma relação com a poesia que se foi modificando ao longo do tempo. Hoje é-me difícil encarar aquela espontaneidade e ingenuidade. A única coisa que se mantém é a possibilidade da palavra redentora. Este livro novo vai de novo em busca dessa intensidade.

Essa possibilidade de a palavra redimir é o que motiva a escrita?
É dessa luta com as palavras que nasce a minha poesia e o meu interesse em escrever. Cada livro é uma ferida que vai ser infetada e só assim dá origem a outro livro. Não há fios condutores ou prolongamentos de livro para livro. É antes essa ideia de doença, infeção e contágio de palavras por palavras. Espero mesmo que cada livro seja um desvio em relação ao anterior. A satisfação que possa ter com um livro é passageira e não gosto nada de me reler. Quando fazia leituras públicas dos meus poemas era difícil porque tinha que encontrar em cada livro algo que ainda me fosse suportável. Agora, olhando para esses 20 anos, não há muitos poemas nos quais eu tenha vontade de me demorar.

Mas publicou recentemente uma antologia na INCM e teve que se confrontar com todos esses poemas deixados…
Os meus livros estavam praticamente todos esgotados e isto era uma boa forma de os recuperar e torná-los disponíveis. Portanto, só dei uma aparadela aqui e ali, mas mais tarde espero poder esquartejá-los todos…(risos)

E a “máquina de cortar” ia ser implacável como a do Cardoso Pires que inventou esta expressão e dizia que era a mais importante ferramenta de um escritor?
Sim, ao fazer esta antologia tive vontade de espatifar aquilo tudo. Isto tem que ver com uma certa aceitação da nossa vida. Se pudesse tiraria poemas inteiros e tentaria fazer um apuramento do que hoje ainda faz ou não sentido. Mas desfazer tudo como o Joaquim Manuel Magalhães, não faria. Tenho que viver com as minhas derrotas.

Um Passo sobre a Terra, Vasco Gato e Vitorino Coragem, Língua Morta, 10 euros

Este Um Passo Sobre a Terra é uma espécie de noturno, um desencanto resiliente que as fotografias de Vitorino Coragem parecem corroborar.
O livro tem como epígrafe um pequeno enigma: “Our lives may be no more than dewdrops on a summer morning: But surely, it is better that we sparkle while we are here” do qual omiti propositadamente o nome do autor para que isso não condicione a interpretação de cada um. Gosto da ideia da evasão, da fuga e da transitoriedade que contrabalançam o tédio dos dias e dão algum sentido à vida. Há momentos como a paixão ou o nascimento de um filho que são essa abertura e essa possibilidade de fuga. É uma rutura interior com a realidade que eu procuro para ver surgir qualquer coisa nova. Talvez a idade torne mais presente a ideia da transitoriedade da vida e mais urgente a busca dessa evasão. Embora eu saiba que essa rutura chegue insidiosamente, não se anuncia. Um dia está na nossa frente e nós temos que agarrá-la. O livro é (também) sobre isto. No livro em que ando a trabalhar agora escrevi qualquer coisa como isto: “Vai ser de repente e tu vais deixar de perguntar o que é a vida para passares a dizer: já não sei viver.”

O que é que quer dizer com “já não sei viver”?
O que antes era o impulso da caça pelo significado perdeu-se, já não tenho esse impulso, mas também não é um resignação. É algo ainda estranho mas sinto que a vias que experimentei lá atrás já não são a viagem que eu quero fazer. Penso; que viagens ainda me apetece fazer, ou melhor, que viagens ainda me são possíveis.

Isso é pessimismo?
Não, nada. Não tenho em mim qualquer vertigem auto-destrutiva. Mas quando o encadeamento das coisas, do quotidiano, da maneira de pensar e sentir, já está muito cosido e é difícil desmanchar.

E na poesia também já não se sente um caçador?
Houve o tempo da busca e de um certo atrevimento na relação com o mundo. Hoje o tempo é mais de observação, de tomar o peso das coisas.

E como é que isso se reflete na poesia?
Escrevo cada vez menos. Já não tenho aquela visitação das coisas. Porque a vida tornou-se mais complicada ou simplesmente eu já não quero ir por aí.

“Já não tenho a mesma visitação das coisas”. Fale-nos disso, dessa visitação.
É uma coisa anterior à escrita, anterior à formação das palavras. Antes parecia que as palavras se cavalgavam uma às outras na minha cabeça. Era mais esmagador. Agora há pequenas ressonâncias que eu vou tentar desenrolar.

Que passo é este que dá agora sobre a terra?
A minha respiração preferida é a noite. Este título vem de um poema do livro que, de novo, é sobre a efemeridade da nossa passagem pela terra. Mas é, de cerra forma, um livro fragmentário, cujos pedaços são unidos pelas fotografias.  Eu e o [fotografo] Vitorino Coragem tínhamos um projeto em conjunto e desse projeto de fotografia/poesia nasceu depois a colaboração dele neste livro. A nossa ideia é procurar os lugares e as coisas onde a ruína do humano se manifesta. Há sempre a sugestão de uma ausência. A segunda parte do livro é o resultado desse trabalho do gosto que tive nesse diálogo com a ruína e a fotografia. A primeira parte do livro é mais heterogénea, são poemas que fui escrevendo, que não procuram uma coesão temática.

Se existe um continuum nesta obra é esse tom melancólico, uma certa desolação face a um mundo que vai sendo delapidado. Há aqui um forte sentimento de inexorabilidade e de impotência. Sentes que não há salvação?
Lembro-me daquele verso do Manuel Gusmão: “Contra todas as provas em contrário há alegria”. E é isso é preciso conservar: alguns lugares de alegria. E não falo de efusividade, a alegria pode ser outra coisa mais plácida, pode vir de uma aceitação da vida e da morte. É preciso compreender que a principal regra do jogo é a finitude.

Isso pode ser um repto?
Sobretudo é um repto para encontrar aqui qualquer coisa excecional que não aquela ideia que nos vendem de que o tempo é infinito e que é possível gastar a vida a trabalhar para um dia ter certas coisas. Há uma deturpação do tempo e das prioridades na vida das pessoas…

Fotografia de Vitorino Coragem, em Mais um Passo sobre a Terra

O nosso aprisionamento em ilusões várias que nos fazem perder o sentido das coisas que importam é uma das ideias que atravessa muitos dos seus livros…
O tempo de hoje é comandado pela velocidade. Mas uma velocidade que, tendo sido criada pelos seres humanos, já não é uma coisa humana. Hoje somos dominados pela finança, por exemplo. E é ela que nos impõe a sua velocidade estranha. É como se tivesses que entrar numa floresta a grande velocidade. Para manteres essa velocidade tudo o que encontras no caminho é um obstáculo. Essa ideia de que toda a alteridade é um entrave é terrível, porque parece que a nossa sobrevivência só é possível se vivermos nessa velocidade. Bastaria abrandar a velocidade para que aquilo que foi percebido como obstáculo passasse a ser uma estação, uma possibilidade de contemplação, uma coisa que não é contrária à nossa natureza. Vivemos num tempo em que o Outro nas suas várias manifestações só é visto como um entrave absoluto. Se não tivermos tempo para conhecer a floresta, para conhecer o Outro tudo será visto como um inimigo. Um exemplo disso é a rejeição dos países europeus à entrada de imigrantes. Porque é que os seres humanos passaram a ser um entrave uns para os outros? Estamos num tempo de grande pobreza humana.

O sistema em que vivemos está esgotado?
Sim, é como uma pele que insistimos em manter apesar de o nosso corpo já não caber nela. É preciso pensar para lá disso. Temos todos os instrumentos para dar ao humano qualquer coisa mais que a sobrevivência.

Em Portugal, por exemplo, temos cada vez temos mais pessoas que trabalham e são pobres, que correm o risco de não ter sequer uma casa…É preciso que a arte comece a falar sobre isto, comece a resistir ao encapotamento desta realidade?
Essa realidade alastrou para níveis impensáveis há uns anos e é inevitável que a arte, a poesia assumam um posicionamento político embora eu não seja panfletário. O meu ato ato político pode reduzir-se à vontade de chamar à conversa o humano. Com o António Franco Alexandre aprendi que temos sistemas políticos a funcionar sem nunca nos perguntarmos seriamente o que é o Ser Humano. O que é que ele é, o que é que ele quer, o que é que é próprio do humano. Isso deveria ser o ponto de partida de qualquer sistema político. O que os meus poemas tentam fazer é focar a discussão no humano. Nesta finitude o que é que nos queremos que seja a vida.

Num mundo tão capturado pela fabricação contínua de imagens e, em muitos aspetos, tão antagónico àquilo que é a poesia, como é que imagina o futuro da poética se as palavras estão a regredir face às imagens?
Qualquer dia comunicaremos por emojis neste mundo de entretenimento infinito. Basta colocar um bebé em frente a um ecrã que ele fica siderado com aquela luz e aquele movimento das imagens. Por outro lado, eu tenho ainda uma fé nas palavras como o grande repositório da humanidade. As palavras são uma forma de resistência e resiliência face ao desaparecimento. Seremos sempre seres simbólicos, gostaremos sempre de nos evadir por via dos símbolos. São as palavras e os seus rituais que nos permitem reinventarmo-nos pela via da experiência. Só a palavra pode destruir a natureza ilusória das identidades.

Recentemente li sobre uma tribo na Namíbia em que para conter a cavalgada do ego qualquer grande feito é recebido com sarcasmo e escarnecimento. Seria importante começarmos a dar palco aos contributos e não aos contribuintes. Isto é contrário da nossa ideia de atual em que cada pessoa quer ser não menos que uma espécie de totem para os outros.

É a demanda do sucesso e o que ela gera de frustração e depressão.
As pessoas passaram a acreditar que para poderem viver tem que ter dinheiro, sucesso, fama. Esta ideia imposta passou a ser integrada pelas pessoas, que não a questionam e vivem nesta demanda desalmada. Quase sempre as pessoas só acordam, ou só têm uma iluminação quando são confrontadas com a experiência da morte. Por isso, neste livro, quis reparar noutras coisas: como a comunhão com o outro, a entrega, o fim da luta, a possibilidade de um instante em que posso descansar no outro sem defesas.

Atualmente, e apesar do culto dos autores como mais importantes que a arte que criam, parece haver uma menor intervenção dos artistas no espaço publico político. Só vemos os escritores e os poetas nas festas e não nas tribunas. O que pensas da intervenção política dos artistas?
Eu gosto de pessoas capazes de traçar linhas e dizê-lo frontalmente. Como agora o Roger Waters com a questão israelo-palestiniana. Mas isto origina perversões como a do artista que não cria coisas mas diz coisas e tornam-se fantoches de si mesmos. É preciso ter alguma vigilância sobre o nosso ego que passa pelas solicitações mundanas que aceitas, as coisas que dizes no espaço público. Se tens acesso ao Espaço Público não podes deixar que o foco deixe de ser a tua obra e passe a ser a tua pessoa. Mas não seria capaz de me tornar uma ativista ambulante.

 Já escreveu poesia, teatro, e certamente sabe que hoje em dia ninguém se afirma nas letras sem escrever um romance. Já estás a escreve o seu?
Ainda não deve ser desta que terei um romance, mas também não será poesia. Ainda está muito no início, mas tem sido um bom desafio desmontar os mecanismos da poesia que tenho interiorizados. Não sei o que vai ser dali, mas tem sido a experimentação de uma outra liberdade. A poesia obriga-nos sempre a uma certa lentidão. Agora sinto-me como um miúdo num carrinho de rolamentos numa descida.

Contra Mim Falo, poesia reunida de Vasco Gato, na coleção Plural da IN_CM

Não procura uma grande editora para se confirmar e faz até alguma questão de publicar em pequenas editoras independentes.
Temo os perigos da cristalização, do conforto. Também por isso publico quase sempre em editoras diferentes e editoras pequenas, porque gosto do desafio de chegar a outras pessoas que não as mesmas de sempre. Também persigo uma certa ideia de comunhão e partilha com um editor e tenho tido a sorte de encontrar sempre as pessoas certas no momento. Não funciono de forma calculista nem estou à procura de fazer carreira como poeta.

O que as palavras trouxeram

foi uma imprecisão

ao pensamento

e só assim foi possível

entrever

o que não estava prometido

nos pequenos circuitos

de sobrevivência (…)”

(Um Passo sobre a Terra)