Quando o Espanyol tornou oficial a contratação de um jogador do chinês no final de janeiro, nos últimos dias do mercado de inverno, a comunicação social apressou-se a explicar que tudo não passava de uma enorme manobra de marketing: não só por parte do clube catalão, alvo de enorme atenção por ter contratado aquele que seria apenas o segundo chinês a jogar na Liga espanhola, como também do próprio Governo e futebol chinês, que viram na quase exportação do jogador uma boa campanha de promoção da candidatura que a China está a desenvolver para organizar o Mundial 2030. Wu Lei, avançado de 27 anos, parecia estar no meio de interesses instalados: mas demorou apenas cinco jogos e pouco mais de um mês a provar que por algum motivo foi o melhor marcador da Liga chinesa nas últimas cinco épocas, foi considerado o melhor jogador chinês em 2018 e é ainda o melhor marcador de sempre do Shanghai SIPG, o clube treinado por Vítor Pereira.

Avançado Wu Lei eleito o melhor futebolista chinês de 2018

Depois de se tornar apenas o segundo chinês a jogar em Espanha — Zhang Chengdong, que também passou pelo Mafra, pela U. Leiria e pelo Beira-Mar, foi o primeiro, quando esteve emprestado ao Rayo Vallecano em 2015/16 –, Wu Lei entrou este sábado para a história do futebol chinês e do futebol espanhol ao marcar o primeiro golo de um jogador daquele país asiático na La Liga. O terceiro golo da vitória caseira do Espanyol frente ao Valladolid (3-1) foi o concretizar de algo por que os adeptos do clube da Catalunha esperavam desde que Wu Lei chegou a Barcelona: afinal, e mesmo com os rumores de segundas intenções e interesses pré-estabelecidos, a verdade é que os apoiantes do Espanyol se mostraram entusiasmados com a contratação do avançado desde a primeira hora e fizeram questão de o demonstrar.

Cerca de duas semanas depois de se mudar para Espanha, Wu Lei já era o jogador do Espanyol que mais camisolas vendia. Nesse período, as lojas oficiais do clube venderam mais de 400 camisolas com o nome do jogador chinês e o número 24 e o clube aproveitou a euforia para lançar uma campanha de edição limitada que incluía 100 camisolas de Lei, Borja Iglesias e Marc Roca, os três jogadores que mais merchandising vendem, com os respetivos nomes escritos em caracteres castelhanos e chineses. O entusiasmo com a chegada do chinês de 27 anos ficou patente também através das redes sociais, onde Wu Lei já leva mais de 2 milhões de seguidores — algo insignificante face aos 76 milhões de Cristiano Ronaldo mas relevante em comparação aos 400 mil do próprio Espanyol.

Wu Lei estreou-se pelo Espanyol logo no início de fevereiro, num empate fora frente ao Villarreal. Na altura, o avançado chinês saltou do banco aos 78 minutos para substituir Vilà e deixou desde logo boas indicações, sendo novamente chamado contra o Rayo Vallecano, onde acabou por sofrer a grande penalidade que resultaria no golo da vitória dos catalães. As boas prestações enquanto substituto utilizado valeram-lhe a primeira titularidade frente ao Valencia, num jogo que terminou sem golos mas onde o chinês convenceu o treinador Rubi, que voltou a incluí-lo no onze inicial nos dois encontros seguintes, com o Huesca e o Valladolid. Depois de marcar o primeiro golo ao serviço dos catalães — muito festejado por Wu Lei, pelos colegas de equipa e pelas bancadas do RCDE Stadium –, foi substituído aos 84 minutos e mereceu uma ovação dos adeptos do Espanyol. Sorridente e visivelmente surpreendido com a reação das bancadas, ainda teve tempo para oferecer a camisola a um jovem adepto que ficou em lágrimas.

O jovem adepto do Espanyol ficou emocionado quando Wu Lei lhe ofereceu a camisola depois de ser substituído frente ao Valladolid

Wu Lei ainda vive sozinho em Barcelona — a mulher acompanhou-o durante os primeiros dias mas regressou à China para acompanhar os filhos do casal — e faz-se acompanhar por um tradutor que é também motorista, ainda que esteja a frequentar aulas de castelhano. “A primeira coisa que aprendi a dizer em espanhol foi a expressão ‘marcar golo'”, confessou o avançado logo no dia da apresentação. Na altura, Wu Lei reconheceu que tinha outras propostas de gigantes europeus mas preferiu jogar. “Tinha propostas de clubes que jogam na Liga dos Campeões. Mas para mim o mais importante é jogar. E também tenho em consideração o estilo da Liga espanhola, o jogo tático e o sistema da minha nova equipa”, explicou aquele que é agora colega de equipa dos ex-Benfica Alfa Semedo e Facundo Ferreyra, também eles reforços de inverno do Espanyol.

O avançado, que tem como ídolo o brasileiro Ronaldo e que acabou por se estrear a marcar à equipa do antigo avançado, o Valladolid, tem sido um autêntico talismã para o Espanyol, já que o clube não perde desde que o chinês aterrou em Barcelona. Wu, como é tratado pelos colegas de equipa, explicou na antevisão do jogo onde acabou por marcar que não está no “melhor momento fisicamente” devido à lesão no ombro que teve no início da temporada e garantiu que está “surpreendido” com o próprio rendimento. “Gerou-se uma grande expectativa na China porque há muito tempo que um jogador chinês não saía para uma das melhores Ligas do mundo. Tudo isso pode criar alguma pressão mas tento convertê-lo em motivação e dar o meu melhor para não defraudar os adeptos de lá e de cá. A seleção chinesa não tem um bom ranking e o mais importante é que os jogadores chineses vão saindo para as Ligas europeias e vão aprendendo. Isso vai ajudar ao desenvolvimento do futebol na China. É bom que alguém tenha esta iniciativa. A opção que escolhi foi a mais correta”, acrescentou o avançado, que esteve na Taça Asiática ao serviço da seleção chinesa.

Com a seleção chinesa na Taça Asiática, onde foi eliminado pelo Irão nos quartos de final

A “iniciativa”, como lhe chama Wu Lei, foi de Chen Yansheng, presidente chinês do Espanyol que, por motivos óbvios, estava mais desperto para o desempenho do avançado ao serviço do Shanghai SIPG de Vítor Pereira do que os restantes responsáveis desportivos europeus. O negócio que culminou na chegada de Wu Lei a Barcelona não foi divulgado publicamente e foi fechado entre a Rastar Group, a empresa de Yansheng, o Porto de Shanghai, dono do clube onde o avançado jogava, e o próprio Governo chinês. Os valores, ainda que nunca confirmados oficialmente, terão rondado os dois milhões de euros e o contrato deve prever três anos de vínculo com mais um de opção.

A comunicação social espanhola, já convertida a Wu Lei, escreve agora que o avançado chinês se pode tornar a longo prazo o maior encaixe financeiro de sempre do Espanyol em caso de transferência. Quer aconteça ou não, a verdade é que Wu Lei é elogiado pelos colegas pela “inteligência tática”, pelo treinador pela “mobilidade e verticalidade” e já é a inspiração de cânticos dos adeptos, que entoam frequentemente “jia you, Wu Lei” — numa tradução livre, dá-lhe gás, Wu Lei. Pela primeira vez na história do futebol espanhol e europeu, um chinês é titular numa equipa do principal escalão, faz golos e é o jogador favorito dos adeptos.