Enquanto jogador , Sérgio Conceição nunca foi conhecido pelo bom feitio. Enquanto treinador, mantém a fama, tira-lhe o proveito e raramente apresenta um semblante simpático junto à linha técnica. Ainda assim, Conceição é notoriamente conhecido por ser um homem de emoções fortes, que não foge à alegria e não esconde as lágrimas: como mostrou, recentemente, no dia em que o desaparecimento de Emiliano Sala, jogador que havia orientado no Nantes, se tornou público. Esta quarta-feira, dia em que o FC Porto chegou aos quartos de final da Liga dos Campeões quatro anos depois da última vez, o treinador voltou a mostrar uma faceta que não tem qualquer pudor de revelar.

No final dos 120 minutos em que o FC Porto se bateu com a Roma — e que só terminaram mesmo na ponta final, com uma grande penalidade marcada por Alex Telles –, Sérgio Conceição entrou no relvado para festejar com os jogadores, mas rapidamente se afastou do grupo para cumprimentar a equipa de arbitragem. Depois disso, o treinador dos dragões deslocou-se até ao guarda-redes Olsen, o sueco que é dono da baliza dos italianos e que estava, inconsolável, deitado no chão. Depois de breves palavras com o guardião, acabou por levantá-lo, num ato de fair play que nem sempre se vê no topo do futebol internacional.

O treinador português, que protagonizou um momento que se tornou rapidamente viral nas redes sociais — escorregou ao tentar ir buscar uma bola –, levou o FC Porto até à sexta vitória em eliminatórias com equipas italianas, somou a terceira vitória em decisões com a Roma e venceu os primeiros quatros jogos em casa para a Liga dos Campeões pela terceira vez na história (depois de 1999/00 e 2012/13). Sérgio Conceição foi ainda um dos tópicos das declarações dos jogadores dos dragões já após o final da partida: “O Sérgio pediu para continuarmos iguais, agressivos, a fazer o que vínhamos trabalhando, que os golos iam chegar”, revelou Jesús Corona, que foi um dos melhores elementos da equipa. “Foi na raça. Foram 120 minutos, os meus companheiros estiveram 120 minutos a lutar, fico muito contente por todos”, acrescentou o mexicano.

Também Héctor Herrera, que cumpriu os 120 minutos no miolo dos dragões, comentou o que o treinador pediu no balneário. “Ele não pede só a mim, pede a todos: dedicação, raça e empenho e no dia a dia e nos treinos pede para fazermos o que ele pede. E hoje fizemos e fomos felizes”, disse o capitão do FC Porto, acrescentando ainda que sente “uma felicidade tremenda” e que a Roma “não teve hipótese”.

Já Sérgio Conceição, que garantiu que “agora é o Feirense” e que é tempo de voltar a pensar no Campeonato, explicou que o FC Porto voltou “a ser uma equipa a fazer muita pressão e com uma boa reação à perda”. “Interpretámos o jogo da melhor forma. A relação entre Otávio, Marega, Corona e Soares foi correndo bem. Foi um jogo de grandíssima qualidade. Isso deve-se aos jogadores”, acrescentou o treinador, que sobre a ausência de Brahimi no onze inicial se limitou a dizer que “no jogo passado ficaram outros de fora”.

“Foi uma prova de grande maturidade e tranquilidade. Tínhamos cometido erros em Roma, que corrigimos. Fizemos uma exibição a roçar a perfeição. Agora? Agora é o Feirense. No final do jogo queremos estar novamente em primeiro, mesmo com os rivais com um jogo a menos”, acrescentou Sérgio Conceição, que esteve a perder, recuperou a equipa, venceu e no fim ainda teve tempo de levantar os adversários.