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Spielberg vs. Netflix: a batalha da tradição contra o “amor pelo cinema”

O realizador estará a tentar convencer a Academia a tornar mais difícil que os filmes do Netflix recebam prémios. O serviço de streaming diz que "ama o cinema" e que isso não destrói a arte.

Steven Spielberg como júri no Festival de Cinema de Cannes em 2013

Pascal Le Segretain/Getty Images

A incursão do Netflix pela produção cinematográfica atingiu o maior reconhecimento institucional de sempre nos últimos Óscares: “Roma”, de Alfonso Cuarón, levou para casa a estatueta de Melhor Fotografia, Melhor Realizador e Melhor Filme Estrangeiro. A longa-metragem foi nomeada para Melhor Filme (e outras seis categorias), mas não foi desta que a plataforma de streaming conquistou o maior galardão da Academia (“Green Book”, realizado Peter Farrelly, foi o filme que recebeu o Óscar). Ainda assim, nunca esteve tão perto.

O histórico realizador Steven Spielberg, que já ganhou três prémios da Academia (dois de Melhor Realizador e um de Melhor Filme), quererá garantir que o Netflix nunca venha a receber o prémio, nem volte a ter um filme considerado para os Óscares. Como avança o Indie Wire, o homem responsável por filmes como “A Lista de Schindler”, “Parque Jurássico”, “Indiana Jones” ou “O Resgate do Soldado Ryan” quererá propor à Academia uma série de novas limitações à inscrição de filmes na corrida aos Óscares.

Steven Spielberg é o representante dos realizadores na Academia. Na próxima reunião de representantes, em abril, deve sublinhar o que considera ser a concorrência injusta do Netflix aos estúdios tradicionais. Um representante da produtora cinematográfica de Spielberg, a Amblin, admitiu o desejo do cineasta de ver as regras mais apertadas: “O Steven [Spielberg] sente que há uma grande diferença entre os modelos de streaming e a distribuição através de salas de cinema“. A questão, confirmou o representante, será discutida pela Academia.

Spielberg quer os filmes de streaming a concorrer a prémios de televisão

De forma ainda mais radical, já em 2018 Spielberg tinha afirmado que o Netflix nem devia estar a concorrer a prémios de cinema: “Se estás a produzir para um formato de televisão, é um filme de televisão. E se fores um bom filme de televisão mereces um Emmy, não um Óscar“. Na mesma entrevista, o realizador queixou-se de que os serviços de streaming estão a roubar as pequenas produções de cinema, mais experimentais, aos estúdios. O Netflix investiu 10,65 mil milhões de euros em conteúdos originais em 2018.

Representantes da Academia admitiram desconforto ao Indiewire: “Há uma noção crescente de que se o Netflix se vai comportar como um estúdio, então tem de ser regulado como tal. As regras existentes foram criadas quando era impossível imaginar a situação atual“. Segundo o regulamento atual dos Óscares, de 2012, um filme não precisa de ser lançado exclusivamente nos cinemas para se qualificar, basta estar no cinema por uma semana (mesmo assim, Roma passou três semanas no cinema antes de ser lançado no Netflix). “É preciso clarificar a situação”, afirmou o mesmo representante da Academia.

Entre as regras propostas por Steven Spielberg estará uma janela de exclusividade de um mês, a obrigação de divulgar os lucros de bilheteira (o que o Netflix não faz), e a desqualificação imediata de filmes que que se estreiem primeiro numa plataforma de streaming ou mesmo que essa estreia seja feita em simultâneo. O ataque é especialmente apontado ao Netflix, mas atinge outros produtores e distribuidores como o Hulu e a Amazon, e limita as tentativas de flexibilização de empresas como a Disney (que está a preparar um serviço de streaming, o Disney +).

Outra queixa dos membros da Academia será o vasto orçamento do Netflix. A empresa terá investido 22 a 44 milhões de euros no marketing de “Roma” para garantir nomeações para os Óscares. Estima-se que “Green Book” tenha usado menos de 5 milhões de euros. Também a universalidade da distribuição é problemática para a indústria: os filmes do Netflix são disponibilizados em 190 países, sem custos para lá da subscrição ao serviço. As produções distribuídas de forma tradicional são mostradas de forma faseada por todo o mundo, por tempo limitado (e, naturalmente, com um custo variável de bilhete).

O Netflix respondeu afirmando o “amor à arte”

Às possíveis mudança, ataques públicos e queixas privadas, o Netflix respondeu com um tweet. “Amamos o cinema. Também amamos: O acesso [ao cinema] de pessoas que não podem pagar por, ou vivem em sítios sem, cinemas; deixar que todos desfrutem das estreias em simultâneo; dar aos criadores mais formas de partilhar a sua arte. Nenhuma destas coisas é mutuamente exclusiva“.

Sem representantes oficiais a comentar a situação, o Netflix tem apoiantes na indústria cinematográfica a assumir publicamente a defesa do streaming. A realizadora Ava DuVernay (nomeada para o Óscar de Melhor Filme com “Selma”, em 2014, e para Melhor Documentário em 2017, com “13th”) afirmou a importância do serviço para dar voz a minorias étnicas.

O produtor Neal Dodson disse à Variety que não é verdade que exista “uma crise no cinema por causa do streaming”, já que “contar uma história, é contar uma história“. Por outras palavras, um filme é um filme, esteja no Netlix ou no cinema. A atriz Julianne Moore (Óscar de Melhor Atriz Principal de 2015, em “Still Alice”) foi conciliatória: “A mudança está a acontecer constantemente e temos de nos adaptar. Acho que devemos procurar só mais oportunidades de criar coisas belas e de as celebrar”.

Um membro não identificado da Academia (a instituição responsável pelos Óscares é constituída por 7 mil profissionais) comentou com a mesma publicação que Steven Spielberg não tinha noção das consequências de um ataque ao streaming, por “não ter dificuldades em vender ou distribuir os próprios filmes”, não compreendendo os desafios com que tinham de lidar novos realizadores, atores e produtores (que também seriam afetados por uma mudança nas regras dos Óscares). “O Netflix faz imenso pelos cineastas, dando-lhe a possibilidade de criar e distribuir os filmes“, acrescentou.

A batalha repete-se com “The Irishman”

Em 2019, Martin Scorsese chega ao Netflix com “The Irishman”, um filme baseado na vida do mafioso Frank Sheeran, com Robert DeNiro e Al Pacino como estrelas principais. Martin Scorsese já conquistou um Óscar (Melhor Realizador, em 2006, com “The Departed”) e teve filmes nomeados por 11 vezes, duas para Melhor Filme. O realizador é o autor de filmes como “Taxi Driver”, “Os Cavaleiros do Asfalto” (“Mean Streets”), “Tudo Bons Rapazes” e “O Lobo de Wall Street”.

Robert DeNiro conquistou um Óscar de Melhor Ator e outro de Melhor Ator Secundário (esteve nomeado para outros cinco). Al Pacino trouxe um prémio de Melhor Ator de oito nomeações para os Óscares. O guião de “The Irishman” foi adaptado de uma biografia escrita por Steve Zaillian, autor que já conquistou um Óscar pelo guião de “A Lista de Schindler” (com, precisamente, Steven Spielberg).

[o primeiro anúncio de “The Irishman”:]

O Netflix não anunciou como vai lançar “The Irishman”, nem se planeia colocar o filme nas salas, mas a longa-metragem é a aposta clara da produtora para os próximos Óscares. O orçamento de 176 milhões de euros é expressivo. A luta agora será qualificar o filme para os Óscares, mesmo que as regras mudem. No limite, o serviço de streaming pode adotar a mesma estratégia de protesto usada com “Roma”: colocar o filme exclusivamente em cinemas independentes, alugando as salas em vez de licenciar a obra e continuando sem revelar as receitas de bilheteira.

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