Em meados dos anos 70, Gil de Kermadec, então Diretor Técnico Nacional do Ténis em França e grande apaixonado pela modalidade, decidiu fazer uma série de filmes de instrução em 16mm, para divulgar o ténis e ensinar as pessoas a jogá-lo. Só que, como todos os filmes de instrução, os de Kermadec eram aborrecidos e um pouco ridículos, e em 1977 ele decidiu ir para o terreno e, de forma pioneira, captar os melhores jogadores de ténis da época em ação no torneio de Roland-Garros. A ideia era ensinar pelo exemplo. E que melhor exemplo do que o dos campeões em confronto, acompanhados por um especialista entusiástico como Kermadec a comentar, explicar e decifrar as características do tipo de jogo de cada um deles?

[Veja o “trailer” de “John McEnroe: O Domínio da Perfeição”]

Daí resultou uma série de filmes, rodados até 1985, e que foram guardados nos arquivos de desporto franceses. Muitos anos depois, o documentarista Julien Faraut descobriu-os, e ficou interessado pelo último, sobre John McEnroe, em que Gil de Kermadec se mostrava especialmente fascinado pelo estilo de jogo e pela sua relação com a personalidade volátil e conflituosa do campeão americano. Desse filme, e das imagens eliminadas na montagem, Faraut tirou, com a anuência e a colaboração de Kermadec, “John McEnroe: O Domínio da Perfeição”, que prolonga a visão deste sobre o “fenómeno John McEnroe” e acrescenta-lhe a sua. E Faraut socorre-se ainda das palavras de Jean-Luc Godard, fã de ténis, e do crítico de cinema Serge Daney, que nos anos 90 escreveu sobre a modalidade no “Libération” e daí tirou um livro de crónicas, “L’Amateur de Tennis”.

[Veja uma entrevista com o realizador Julien Faraut:]

Em vez de dar um uso passivo, utilitário, às imagens captadas por Kermadec e a sua equipa, Julien Faraut interessou-se também pela forma como elas foram feitas em  Roland-Garros, com o material e as condições de trabalho desse tempo. Daí que, além de um documentário sobre John McEnroe (narrado por Mathieu Amalric) e o seu génio e mau génio no “court” (que, tal como o original que o realizador foi “canibalizar”, transcende os lugares-comuns cansados e os mitos barbudos sobre o tenista, o seu talento superior e o seu feitio espinhudo), este seja ainda um filme sobre as implicações técnicas e físicas da rodagem de fitas desta natureza nos anos 70 e 80. E que inclui imagens inéditas do próprio McEnroe a embirrar e respigar com Kermadec e e o seu operador de câmara durante os jogos.

[Veja imagens do filme:]

Não contente com isto, Faraut revela também que, por uma espantosa coincidência, no mesmo local onde hoje se erguem as instalações de Roland-Garros, houve uma instituição na qual, no século XIX, o cientista e pioneiro da fotografia e do cinema francês Étienne-Jules Marey, estudou a decomposição do movimento de homens e de animais com o seu aparelho de cronofotografia. Quase cem anos mais tarde, exatamente no mesmo sítio, Gil de Kermadec filmaria em câmara lenta os ases do ténis do seu tempo, e muito em especial John McEnroe, para melhor analisar ao pormenor as características especiais da sua motricidade, decompor a sua maneira de jogar e expor o que o distinguia dos seus pares e tornava excecional.

[Veja imagens da final de Roland-Garros em 1984:]

“John McEnroe: O Domínio da Perfeição” mostra assim que o mau feitio de McEnroe fazia parte integrante do seu ADN de jogador e lhe servia de combustível no confronto com os adversários (e até consigo mesmo), que ele se alimentava. Psicologica e animicamente, do clima de hostilidade e de troça que criava em parte do público; e que longe de estar descontrolado, estava em perfeito domínio de todas as suas extraordinárias faculdades de atleta, sobejamente demonstradas e comentadas nas imagens do filme. Este conclui com a final de Roland-Garros de 1984, disputada entre John McEnroe e Ivan Lendl, e que o americano, num jogo a beirar a perfeição, parecia ir vencer rapida, brilhante e esmagadoramente. Mas acabou por perder, uma derrota que lhe marcou o resto da carreira e da vida.

Julien Faraut utiliza esta empolgante final de 1984 para ilustrar toda a espectacularidade, todo o suspense, toda a emoção e todo o drama que o ténis pode desencadear e expressar. Ténis esse que raramente tem sido bem usado ou servido pelo cinema, sobretudo o de ficção, mas que passa a ter, a partir de agora, em “John McEnroe: O Domínio da Perfeição”, um dos melhores, mais belos, perspicazes e inteligentes filmes sobre a modalidade, e sobre uma das suas maiores e mais coloridas lendas.