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Rep Democrática do Congo

RDCongo. Resposta à epidemia de ébola “está a falhar”

Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras, a atual resposta ao surto está "a ser tóxica". O ébola infetou até agora 907 pessoas na RDCongo e matou 569.

"O Ébola é uma doença brutal, provoca medo e o isolamento dos pacientes, famílias e pessoal de ação médica", afirma a presidente da organização Médicos Sem Fronteiras

EUGENE KABAMBI / WORLD HEALTH ORGANIZATION HANDOUT/EPA

A resposta à epidemia de Ébola na República Democrática do Congo (RDCongo) “está a falhar” o objetivo de controlar o surto e a “aprofundar o clima de desconfiança” nas comunidades afetadas, denunciou esta quinta-feira a organização Médicos Sem Fronteiras.

A atual resposta ao surto de Ébola nas regiões afetadas de Katwa e Butembo, na província congolesa do do Kivu Norte, está “a ser tóxica”, a começar pela “crescente militarização” da mesma, afirmou a presidente da organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF), Joanne Liu, numa conferência de imprensa em Genebra.

Mas um cocktail de fatores tem contribuído para esta crescente falta de confiança entre as comunidades, o que resulta na “consequência preocupante” de continuarem a surgir “novos casos de pessoas contaminadas exteriores à cadeia de transmissão”, ou seja, “o surto não está circunscrito” e o Ébola “ainda está por cima”.

“No epicentro da epidemia, em Katwa e Butembo, 43% dos pacientes nas últimas três semanas foram infetados sem que fossem conhecidas ligações a outros casos”, reforçou a médica. O Ébola infetou até agora 907 pessoas na RDCongo e matou 569, segundo a MSF.

Confrontamo-nos com uma contradição surpreendente: por um lado, temos uma resposta rápida e alargada com novas ferramentas, como vacinas e tratamentos que oferecem resultados prometedores quando as pessoas chegam em estados iniciais da doença; e, por outro lado, as pessoas com Ébola continuam a morrer nas comunidades e não confiam o suficiente na resposta de combate ao Ébola para se chegarem à frente”, afirmou Joanne Liu.

As autoridades congolesas têm que deixar de tratar o surto como “um caso de ordem pública” e devem abandonar “o aumento da força” na resposta, afirmou a ativista. “Trata-se de uma epidemia”, reforçou.

“A utilização de polícia e das forças armadas como forma de obrigar as pessoas a respeitarem as medidas de saúde contra o Ébola está a alienar a comunidade e é contraproducente em relação ao objetivo de controlo da epidemia”, afirma a MSF.

“O uso da coerção em atividades como funerais seguros, investigação de contaminações e admissão nos centros de tratamento desencoraja as pessoas de virem por vontade própria e leva-as a esconderem-se”, ilustra ainda a organização.

Há uma “grande hostilidade” entre as comunidades afetadas “contra a resposta ao Ébola” e os “mais de 30 ataques” contra o pessoal da resposta médica nas últimas semanas ilustram essa hostilidade, afirmou Joanne Liu.

Vários ingredientes estão na origem destas tensões, segundo a MSF, desde “a canalização massiva de recursos que se focam apenas no Ébola numa região negligenciada, afetada por conflitos e violência e necessidades sanitárias antigas, ao adiamento da realização de eleições justificado pelo surto do Ébola, exacerbando as suspeitas de que o Ébola está a ser usado numa conspiração política”.

A resposta à doença “terá que tomar um novo caminho”, afirmou Joanne Liu, explicando que “devem ser dadas alternativas aos pacientes e às suas famílias”.

Por outro lado, a vacinação, que ultrapassa já as 80 mil pessoas, “terá que chegar a mais população e para isso são necessárias mais vacinas”.

“Terão que ser atendidas outras necessidades sanitárias das populações e a coerção não poderá ser usada para detetar e tratar pacientes, forçar funerais seguros e descontaminar habitações”, uma e outra forma através do fogo, na maioria das vezes, segundo a ativista.

“O Ébola é uma doença brutal, provoca medo e o isolamento dos pacientes, famílias e pessoal de ação médica”, disse Joanne Liu.

“A resposta ao Ébola terá que ser centrada no paciente e na comunidade. Os pacientes têm que ser tratados como pacientes e não como uma espécie de ameaça biológica”, concluiu.

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