Marcelo Rebelo de Sousa

Autoras de novo livro sobre Presidente defendem que “Marcelo não tem margem para ir embora no final do primeiro mandato”

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Na véspera do terceiro aniversário da tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa, o livro "Presidente todos os dias" analisa 3 anos de mandato e defende que Marcelo tem a obrigação de se recandidatar

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

 

Era dia de Sporting-Benfica, o jogo estava prestes a começar e dava-se o caso de Ferro Rodrigues estar na sala de recobro. Tinha sido submetido a uma segunda intervenção cirúrgica e o enfermeiro nunca mais aparecia para o levar para o quarto. Ora, se não há enfermeiro, há Marcelo. O Presidente da República tinha aparecido para uma visita e acabou a tomar nas próprias mãos a solução do problema da segunda figura do Estado: “Foi ele a transportar a maca pelos corredores, em alta velocidade, mas conduzindo perfeitamente bem, com os outros enfermeiros e doentes completamente perplexos com aquela cena fantástica”, conta Ferro Rodrigues numa passagem do livro “Marcelo – Presidente Todos os Dias”, da autoria da investigadora na área dos media Felisbela Lopes e da grande repórter do jornal Público Leonete Botelho.

O Livro “Marcelo- Presidente todos os dias” foi apresentado esta quinta-feira, na véspera do terceiro aniversário da tomada de posse

O episódio é apenas um dos muitos retratados quer por figuras de primeiro plano da política nacional, quer por jornalistas que cobrem diariamente a frenética agenda do Presidente da República. “Quisemos retratar este Presidente da República a partir dos relatos que dele fazem as pessoas que o acompanham de forma próxima. Quisemos, sobretudo, um olhar de análise“, explica Felisbela Lopes ao Observador. O resultado é um trabalho dividido em três partes que fala de um Presidente que é “do povo”, “que expande fronteiras” e que é “interventivo na política interna”. Nesse capítulo, intitulado “Cumplicidade e Vigilância”, “o livro retrata-o como uma espécie de coração que pulsa e que bombeia informação, que integra esse sistema circulatório de informação e de influência“, diz Leonete Botelho. Uma atividade a que Marcelo se dedica com frequência, mas que comporta riscos: “Quando o Presidente da República liga para um líder partidário ou para um jornalista para dar a sua opinião sobre um determinado assunto, ele está a influenciar. Isto tem vantagens e tem riscos. Se por um lado consegue dirimir conflitos, por exemplo, por outro lado pode parecer que está a pressionar”.

A relação entre Belém e São Bento é um dos focos da análise das autoras que defendem que esta coabitação não seria a mesma se o primeiro-ministro fosse Pedro Passos Coelho, por exemplo. “Marcelo iria ter muitos problemas”, se fosse esse o caso, defende Felisbela Lopes. E as vantagens são recíprocas: “Esta solução de governo precisa de um Presidente de direita para falar ao centro. E o próprio Presidente precisa deste governo de esquerda para também puxar ao centro e não ficar acantonado à direita”.

O livro para o qual PCP e BE recusaram participar

Por opção das autoras, nem Marcelo Rebelo de Sousa, nem António Costa foram entrevistados para o livro, ao contrário de outros protagonistas políticos, que falaram em on e em off. Recusas, tiveram duas: PCP e Bloco de Esquerda não quiseram colaborar com o seu ponto de vista sobre estes três anos. Ainda assim, diz Felisbela Lopes, “Francisco Louçã aceitou fazer a apresentação do livro no Porto”. Um livro que não pretende ser uma biografia, e em que as autoras dizem ter-se posicionado como “espetadoras e analistas”.

Esse propósito reforçou-se com os olhares diferentes que cada uma trouxe ao trabalho que começou em 2016. Por um lado uma académica, que olha para estas coisas com algum recuo, por outro uma jornalista que acompanha regularmente os trabalhos da Presidência. “Eu estava no terreno, trazia uma visão mais acalorada do dia-a-dia”, explica Leonete Botelho. “A Felisbela estava em Braga, e trouxe um terceiro e um quarto níveis de leitura, o rigor académico. Não tenho memória de uma coligação improvável deste tipo que tenha sido tão bem sucedida”, diz.

Nas entrevistas que fizeram, a Felisbela Lopes coube falar com os jornalistas e a investigadora conta que sentiu “necessidade de perguntar pelo grau de construção de Marcelo Rebelo de Sousa. É um Presidente muito intenso e sempre muito presente que está consciente da repercussão mediática de cada gesto seu. Sabe o que os jornalistas procuram”. A esta dimensão, Felisbela Lopes acrescenta o lado genuíno de Marcelo: “Nem Mário Soares podia ter como bandeira os sem-abrigo, visitá-los com frequência, sentar-se no chão e conversar com eles. E uns metros à frente, ficar a falar com outro em alemão sobre medicamentos. Ele sabe que isto é um bom “boneco”. Mas ele também é assim. A personagem é a pessoa, e a pessoa é a personagem“.

Mas isso não significa, nas palavras de Leonete Botelho, que os jornalistas sejam “iludidos”. “Os jornalistas que acompanham Marcelo Rebelo de Sousa sabem que ele é extraordinário no sentido de não ser normal, mas também sabem os riscos que correm e conhecem os truques usados do outro lado”.

Uma apreciação que não foi partilhada na apresentação do livro em Lisboa. Pacheco Pereira, que lá esteve com Jorge Coelho, Lobo Xavier e Carlos Andrade, queixou-se do “enorme défice de escrutínio ao Presidente da República”, nomeadamente por parte da comunicação social. E deu como exemplo o facto de o número de notícias hostis a Marcelo “poder ser contado pelos dedos de uma mão”.

Se Jorge Coelho classificou Marcelo como “um extraordinário Presidente da República” e admitiu mesmo votar nele numa eventual recandidatura, Pacheco Pereira lembrou o passado do chefe de Estado como um “político cínico durante 30 anos” que agora é o Presidente “dos afetos”.

“O modelo dos afetos está a esgotar-se”

A dimensão dos afetos era uma área de análise inevitável e as autoras fazem-no sob duas perspetivas. Por um lado, pelo poder que isso traz ao Presidente: “Marcelo está consciente de que pode ser o Presidente da República que quiser se tiver o povo ao seu lado. Ele, aliás, não deixa de dar conta disso quando faz discursos em datas importantes e refere sempre o povo, dizendo que o povo é melhor que as elites”, defende Felisbela Lopes que explica que “também por isso, Marcelo precisa de outra coisa que ele não negligencia, os media. Ele não terá verdadeiramente o povo a seu lado se os media não forem o eco dessa proximidade”.

De acordo com as autoras, esta ligação acaba também por limitar a margem de manobra de Marcelo Rebelo de Sousa quanto à decisão sobre uma recandidatura: “De certa forma, pelo pacto emocional que forjou com os portugueses, ele tem essa obrigação de se recandidatar”, diz a investigadora. Mas a fazê-lo terá de reconfigurar a sua Presidência, repensar como quer estar nos palcos mediáticos, como quer estar com as pessoas e como quer estar com os outros poderes. “O modelo dos afetos está a esgotar-se”, defende Felisbela Lopes para quem os temas que marcaram o mandato até agora foram essencialmente o sistema bancário, os incêndios, o caso de Tancos e a nomeação da Procuradora-Geral da República. Em tudo isto, “Marcelo reagiu, mas não foi ele quem pôs os temas na agenda. Ele precisa de erguer novas bandeiras”.

E num livro que foi “completamente escrito a quatro mãos, mesmo que a 300 quilómetros de distância”, Leonete Botelho partilha  desta visão: “Ele tem todas as condições para ser mais e para fazer diferente. A questão é saber como é que ele quer ficar na história. Quer ser só o Presidente do afetos, ou quer introduzir alterações na sociedade? Prefere ir na linha dos anteriores presidentes que fizeram segundos mandatos mais disruptivos, pelo protagonismo político? Ele pode ainda mudar o rumo da sua própria história”, diz a autora ao Observador. Ambas acreditam que numa provável recandidatura Marcelo ambiciona ser reeleito com o maior número de votos de sempre, e terminam o livro com a dúvida sobre se sobre estará ele “preparado para ser Presidente em tempos de combate”.

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