Quando assumiu o comando técnico do Real Madrid, em 2016, e para substituir o espanhol Rafael Benítez, Zidane explicou que Cristiano Ronaldo não tinha de jogar todos os jogos dos merengues e deveria ser poupado para os encontros mais importantes se quisesse não só ser permanentemente decisivo como também estender a carreira para lá dos 40 anos. A gestão do jogador português, que não era propriamente colocada em prática, começou a ser executada pela mão de Zidane e Ronaldo chegou aos 33 anos num pico de forma admirável que só foi possível devido à escolha dos jogos certos, da preparação certa e do repouso certo.

Zidane saiu do Real Madrid no verão passado e o mesmo fez Ronaldo, que rumou à Juventus, onde esta gestão tem sido seguida à risca. Massimiliano Allegri não se tem coibido de não convocar o português ou de o retirar do onze inicial em jogos das competições internas que aconteçam na antecâmara de um encontro importante na Europa e o mesmo acontecerá esta sexta-feira. Na receção à Udinese e numa altura em que a Juventus tem 16 pontos de vantagem face ao Nápoles, que é segundo, Allegri garantiu de antemão que Ronaldo começaria o jogo no banco de suplentes — já que terça-feira, em Turim, a equipa italiana vai tentar anular uma vantagem de dois golos que o Atl. Madrid conquistou na primeira mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões. Com Real Madrid e PSG fora da corrida, a Juventus vê como objetivo real a conquista da Champions que escapa desde 1996.

Mas além de Cristiano Ronaldo, Allegri poupava também Mandzukic, Dybala, Chiellini e Bonucci: Rugani e Barzagli formavam a dupla titular no eixo da defesa, Bernardeschi e Matuidi completavam o tridente ofensivo inédito que tinha o jovem Moise Kean como elemento mais adiantado. Face a este 4x3x3 que era muitas vezes um 4x4x2, já que Matuidi recuava de forma mais frequente para fortalecer o meio-campo e abria espaço para Bernardeschi se aproximar mais de Kean, a Udinese respondia com um 5x3x2 que tentava encaixar na formação montada por Allegri (e que contava com o ex-Rio Ave e Sporting Marvin Zeegelaar) e entregava por completo a iniciativa à equipa adversária, com o objetivo de defender, blindar e não sofrer golos.

A Juventus só precisou de 11 minutos para marcar e fê-lo logo na primeira grande ocasião de golo que criou. Alex Sandro, com o corredor esquerdo totalmente por sua conta, antecipou-se ao lateral direito da Udinese e cruzou a rasgar toda a defesa adversária; Moise Kean, o miúdo italiano de 19 anos que em novembro de 2016 se tornou o mais novo a jogar nas principais ligas europeias, surgiu entre os dois centrais e desviou de primeira para inaugurar o marcador, estreando-se a marcar na Serie A e no estádio da Juventus. O avançado nascido em 2000 voltou a fazer o que havia feito em janeiro, quando num compromisso a contar para a Taça de Itália também rendeu Ronaldo, Mandzukic e Dybala e marcou o segundo dos dois golos da vitória por 2-0 imposta ao Bolonha.

A Juventus não precisou propriamente de acelerar muito para chegar ao segundo golo, já que a Udinese optou por um jogo “sem balizas” e nunca alongou a partida para além dos 30/40 metros. Rugani poderia ter marcado no seguimento de um pontapé de canto (17′), Bonucci teve de entrar para render um lesionado Barzagli e Kean voltou a fazer das suas. Depois de recuperar uma bola na ala esquerda e numa altura em que, sem ângulo, se esperava que assistisse Matuidi, que surgia no corredor central, o jovem italiano optou por simular e rematar meio de bico meio de trivela para junto do poste da baliza da Udinese. 39 minutos, dois para Moise Kean, zero para a Udinese: e até Cristiano Ronaldo se levantou para aplaudir o avançado.

A Juventus não precisou de acelerar muito na segunda parte para segurar e avolumar a vantagem. Face a uma Udinese apática e quase inofensiva, Moise Kean voltou ser decisivo e conquistou uma grande penalidade que permitiu ao turco Emre Can levar o resultado para 3-0 (67′). Quatro minutos depois, foi a vez de Matuidi responder com um cabeceamento de cima para baixo a um cruzamento de Bentancur e aumentar a vantagem para quatro golos. Já nos últimos dez minutos, a Udinese ainda conseguiu chegar ao golo de honra através do único remate enquadrado que fez durante os 90 minutos, num lance de bonito efeito concretizado por Lasagna.

A equipa de Cristiano Ronaldo goleou de forma inequívoca sem precisar da intervenção do avançado português (que, pela primeira vez, não somou minutos num jogo da Serie A) e descansou os principais titulares do plantel já a pensar no jogo de remontada que terá de fazer na terça-feira contra um Atl. Madrid com dois golos de vantagem. Moise Kean, mais uma vez, voltou a segurar as pontas e deixa Massimiliano Allegri cada vez mais tranquilo sempre que precisar de refrescar e poupar.