A raiva passou a alívio em alguns minutos. Antonis Mavropoulos, grego, queixava-se aos responsáveis do aeroporto de Addis Abeba de que ninguém lhe soubera indicar a porta de embarque para o voo ET 302 e por isso o perdera. Ao mesmo tempo, o queniano Ahmed Khalid protestava porque o voo de ligação vindo do Dubai atrasara-se o suficiente para perder a mesma viagem.

Ambos souberam minutos depois que o avião do ET 302 se despenhara logo após a descolagem. As 157 pessoas que seguiam a bordo, a caminho de Nairobi, morreram. Ahmed Khalid viu a notícia no telemóvel já sentado no voo seguinte para o mesmo destino. Antonis Mavropoulos foi avisado pelos seguranças do lounge do aeroporto.

O pai de Ahmed Khalid, Khalid Ali Abdulrahman, chegou a temer pela vida do filho. Sem saber do atraso de Ahmed no Dubai, Abdulrahman foi esperar o filho ao aeroporto de Nairobi. Os responsáveis do aeroporto informaram-no, como explicou ao The National, que o filho não ia chegar: “Pedi a um segurança que me indicasse onde eram as chegadas. Ele perguntou de onde vinha o voo. Eu disse que era o da Ethiophian Airlines e ele respondeu: ‘Desculpe, mas esse despenhou-se.’” Ahmed Khalid telefonou ao pai a tempo de o acalmar.

Antonis Mavropoulos seguia para uma conferência das Nações Unidas no Quénia. “Estava muito zangado, porque ninguém me ajudou a chegar à porta de embarque a tempo. Levaram-me para um lounge para aguardar pelo próximo voo, mas depois fui informado por dois agentes que o avião não iria partir“, explicou num post no Facebook na segunda-feira, 11 de março de 2019. Enquanto reclamava com os agentes, foi levado para a esquadra da polícia do aeroporto, onde lhe disseram “para não protestar, mas para orar”, agradecendo por estar vivo.

Os atrasos fizeram com que estes dois homens não engrossassem o número das vítimas mortais: 157, todas as que embarcaram no Boeing 737 MAX 8, com 30 nacionalidades. 32 são do Quénia, 18 do Canadá, nove da Etiópia, oito da China, oito de Itália, oito dos EUA, sete do Reino Unido, sete de França, seis do Egito, cinco da Alemanha, quatro da Índia, quatro da Eslováquia, três da Áustria, três da Rússia, três da Suécia, dois de Espanha, dois de Israel, dois de Marrocos e dois da Polónia.

Os três eslovacos são familiares. A mulher Blanka, o filho Marin e a filha Michal. Toda a família do deputado estónio Anton Hrnko morreu no desastre aéreo. “Prestem-lhes um tributo silencioso”, pediu através do Facebook.

S HLBOKÝM SMÚTKOM OZNAMUJEM, ŽE MOJA DRAHÁ MANŽELKA BLANKA, SYN MARTIN A DCÉRA MICHALA ZAHYNULI POČAS LETECKEJ KATASTROFY V ADDIS ABEBE DNES V RANNÝCH HODINÁCH.KTO STE ICH POZNALI, VENUJTE IM TICHÚ SPOMIENKU.

Posted by Anton Hrnko on Sunday, March 10, 2019

Entre os oito italianos mortos naquele que foi “um dia de dor”, nas palavras do primeiro-ministro do país, Giuseppe Conte, estavam vários ligados a ONGs e associações humanitárias. Muitos dos que viajavam para Nairobi iam participar na mesma conferência que Antonis Mavropoulos.

O presidente da Associação Africa Tremila, Carlo Spini, a sua mulher, Gabriella Viggiani, e o tesoureiro, Matteo Ravasio, morreram na queda do avião. A Associação Africa Tremila estava a trabalhar na construção de um hospital no Sudão do Sul.

Entre os canadianos, dois eram também família: Amina Odowa (33 anos) e Sofia Abdulkadir (5 anos), mãe e filha, morreram enquanto viajavam desde Edmont para visitar parentes no Quénia.

Membros de ONGs e representantes da ONU seguiam a bordo

Virginia Chimenti e Maria Pilar Buzzetti, do Programa Mundial de Alimentação, também estão entre as vítimas. São dois dos 19 funcionários das Nações Unidas mortos no desastre. Sete eram membros do Programa Mundial de Alimentação, seis trabalhavam na sede das Nações Unidas em Nairobi, dois representavam o Alto Comissariado para os Refugiados e outros dois representavam a União Internacional de Telecomunicações. A Organização para a Comida e Agricultura, a Organização Internacional de Migrações, o Banco Mundial e a Missão de Assistência Humanitária para a Somália perderam uma pessoa cada.

Entre estes está o irlandês Michael Ryan, que participou no estabelecimento de corredores humanitários para refugiados Rohingya e nos trabalhos de resgate em derrocadas no Nepal, em agosto de 2018. Especialistas em questões ambientais, como Sarah Auffret (Associação de Operadores de Cruzeiro do Ártico) e Max Thabiso Edkins (Banco Mundial) morreram a caminho da conferência onde iam discutir os problemas ambientais na região.

Também um comissário da polícia do Uganda, Alalo Christine, faleceu. Era responsável pela AMISOM, a missão africana para o reforço policial da Somália.

Morreram ainda líderes sociais, como o representante da comunidade queniana em Calgari (Canadá), Derick Lwugi. Aos 45 anos, deixou três filhos e uma viúva. O professor Pius Adesanmi, do Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Carleton morreu no mesmo voo.

Outra conferência no Quénia, organizada pela UNESCO e dedicada à arqueologia, atraía também vários viajantes. Entre estes já se conhece o nome de Sebastiano Tusa, de 66 anos. Era filho de Vincenzo Tusa, também arqueólogo, falecido em 2009, e antigo professor da Faculdade de Letras da Universidade de Palermo.