Na última década, a música eletrónica minimal tem ressurgido com um forte sentido académico. Uma nova geração de músicos tem explorado o peso da história e evoluído para leituras frescas de ideias antigas, explorando outras possibilidades de sons graças à tecnologia e porque contemplam o seu academismo musical com maior abrangência. Sarah Davachi rapidamente se posicionou na linha da frente. Nascida em Calgary em 1987, estudou no importantíssimo Mills College em Oakland, Califórnia, que tem um dos centros de música contemporânea mais importantes do mundo, por onde passaram músicos como Joanna Newsom, Steve Reich, Laurie Anderson ou Dave Brubeck e professores como Iannis Xenakis, Alvin Curran. Pauline Oliveros ou Robert Ashley.

Atualmente, Sarah Davachi está a tirar um doutoramento em Musicologia na UCLA. Em simultâneo com a sua carreira musical, tem mantido uma prolífica carreira discográfica, lançando discos que não falham nos tops anuais da listas da especialidade. Álbuns como Barons Court (Students Of Decay, 2015), All My Circles Run (Students Of Decay, 2017) e os dois que lançou no ano passado, Let Night Come On Bells End The Day (Recital) e Gave In Rest ( Ba Da Bing!) vão revelando a sua inconformidade perante o seu trabalho, procurando constantemente desafios estéticos e formas de avaliar o espaço e o tempo que trabalha. Tocou na Catedral de Viseu em 2017, durante os Jardins Efémeros desse ano, no final do ano passado apresentou no Festival Semibreve, em Braga, uma peça com Laetitia Morais. Esta semana apresenta-se em Portugal para duas datas, duas estreias, no Salão Brazil, em Coimbra, na terça-feira, e no dia seguinte em Lisboa, na Galeria Zé dos Bois.

[“Evensong”:]

Sei que está em Los Angeles a fazer um doutoramento em musicologia. Porquê?
[risos] Nunca ninguém me perguntou isso dessa forma. O meu interesse na música é diversificado e com o tempo ganhei um interesse maior em aprofundar alguns assuntos específicos. Muito do que estudo para o meu doutoramento relaciona-se com a música que eu faço e com o que me interessa e vice-versa. Foi uma oportunidade para estudar alguns temas com mais seriedade.

Como é que se reflete na sua música? Aliás, o que estuda manifesta-se na forma como pensa a sua música?
Sim, sem dúvida. Como disse, ambos influenciam-se um ao outro. O que eu penso em termos de musicologia tem sido desenvolvido pelo facto de eu ser alguém que compõe música, que toca ao vivo e que grava discos. A minha perspetiva e experiência pessoal contribuem muito para a forma como estudo. Leio muito sobre estética, a estética sempre foi algo que influência muito a música que eu faço e que quero fazer: como é que deve resultar em termos de experiência, em termos de estilo. Estudo música popular, experimental e a chamada “early music”. Tudo isso influencia a música que eu quero fazer.

Consegue trabalhar na sua música enquanto estuda?
É como ter dois trabalhos a tempo inteiro. É muito difícil mas encontrei uma forma de equilibrar isto tudo. Eu trabalho muito na minha música, edito mais do que se calhar devia… no ano passado lancei dois álbuns. Quando penso nisso agora, percebo que foi muito trabalho, nem sei muito bem como isso aconteceu. Este ano vou editar um álbum… bem, talvez dois, dependendo de como tudo se desenvolve ao longo do ano. Mas sim, trabalho muito na minha música. Também faço muitas digressões. Eu gosto de estar ocupada e diversificar o que faço. É bom ter algo diferente para balançares com a outra coisa que estás a fazer.

Referiu os dois álbuns que editou no ano passado. Ambos fantásticos, a meu ver. E, sim, concordo que edita bastante, mas não entenda isto como uma crítica negativa. Refiro-o para perceber se tem muita música que está parada, pronta a ser editada, ou se está sempre a trabalhar nela e se só edita quando sente que tem algo sólido, acabado?
Um pouco de ambos. Eu trabalho com diversos instrumentos, em diferentes configurações. Cada vez que tenho um instrumento novo, consigo iniciar um processo de criação do início ao fim: é fácil trabalhar num conjunto de material e perceber aquilo que gosto, o essencial, e torná-lo algo completo. Penso que é por isso que crio tanto e edito tanto. Mas sim, tenho muito material que está por editar, coisas que ainda não editei porque sinto que não estão prontas ou que, simplesmente, não as consegui resolver. O meu cérebro está um pouco à frente… tenho um álbum que acabei de finalizar, ainda não foi anunciado, está para breve. E já estou a gravar material para o próximo álbum e a pensar em como será o próximo a seguir a esse. Nunca sinto que tenha esgotado algo que esteja a fazer ou que estou a usar demasiadas vezes as mesmas ideias…

Procura as editoras ou são elas que vêm ter consigo?
Normalmente são as editoras que vêm ter comigo. Costumo trabalhar com aquelas que já conheço e que têm um trabalho que respeito. Tem acontecido sempre eu estar familiarizado com elas e elas comigo, por isso a conversa acontece sempre com naturalidade.

[“For Piano”:]

Referiu que está sempre à procura de novos caminhos na música. É algo que lhe surge naturalmente ou que procura?
Na minha vida tive sempre acesso a diferentes instrumentos. Ou sou eu que os encontrou ou são eles que me encontram. Mas são sempre instrumentos que eu percebo que têm algo que eu consigo explorar e que serão desafiantes.

Quando começou a compor música, imaginou que iria ser assim?
Não, nunca imaginei que fosse assim. Aliás, nunca imaginei que estaria a fazer música como faço agora. Quer dizer, penso que seria difícil para mim imaginar a música que estou a fazer agora. Conhecia pessoas que eram pagas para irem em digressões e isso sempre me pareceu um conceito muito distante. É bom descobrir que as pessoas ainda apoiam a música, a arte. Foi muito bom descobrir isso.

Que música a influenciou para começar a fazer o que faz hoje?
Oiço música muito diferenciada. Mais do que ouvir, tenho prazer nisso, e gosto de ouvir música que seja inspiradora. Gosto de ouvir a pop dos anos 1970s, mais concentrada na ideia de estúdio. A forma como foi produzida, as camadas que eram adicionadas, como foi gravada, tudo isso foi muito inspirador para mim. Em termos mais específicos, a música minimalista teve um grande impacto em mim. Quando ouvi La Monte Young pela primeira vez tive a perceção de que aquele era o género de música que eu queria fazer, mas para a qual nunca tinha tido qualquer tipo de validação. Ouvir o que ele fez deu-me isso, mostrou-me que era possível eu fazer aquela música, que podia trabalhar durante muito tempo com a mesma nota, drones, criar texturas, de um modo criativo e profundo. Quando ouvi a sua música percebi que tinha permissão para começar a música que queria fazer.

Nos últimos anos têm existido muitas reedições de música experimental e contemporânea que não estava acessível ao público. Acha importante tornar esse géneros mais acessíveis ao público?
Sim, eu só conheci muita dessa música quando estava a estudar na Mills. Antes disso, era muito difícil, para mim, de a encontrar, ouvi-la. Nem sabia bem onde e como procurar. É interessante ver esses álbuns a serem reeditados e serem de fácil acesso. Abre, certamente, as possibilidades a que está a começar a criar música atualmente.

Todos os seus álbuns procuram algo diferente, sinto sempre que está a experimentar algo novo. Diria que a sua música pode ser também descrita como um processo em constante descoberta?
Obrigado por dizeres isso. É algo que tento fazer mas sinto que algumas pessoas não ouvem dessa forma. Algumas pessoas não ouvem as diferenças entre os álbuns, não apreciam essas diferentes, quase como se fosse uma decisão consciente. Os instrumentos mudam, embora não mudem assim tanto porque, habitualmente, um instrumento de teclas: um sintetizador, um órgão ou qualquer outra variante. Gosto de explorar os sons que existem neles e gosto também de explorar a delicadeza do seu som. Na música pop quando ouves uma nota, uma melodia, vem e vai muito depressa. Muitas vezes não tens o tempo suficiente para o apreciar, para te sentares a ouvir e só apreciares. Penso que é isso que tento fazer com a minha música, tento reduzir a um nível de base, texturas, harmonias, sons que me interessem e que soem bem. Gosto de explorar esse lado delicado no som que não se ouve normalmente na música.

[“Auster”:]

A música religiosa interessa-lhe? Um dos seus últimos álbuns, o “Let Night Come On Bells End The Day”, remete-me para alguma música religiosa.
É uma questão complicada. Sou totalmente secular, fui criada dessa forma. A minha família tem uma mentalidade muito científica e cética em relação à religião. E eu penso como eles, mas sempre fui atraída por igrejas, pela acústica desses espaços, a estética. Sempre que estou na Europa, em cada cidade que visito, tento visitar uma igreja ou uma catedral. São espaços inspirados, por causa do seu design e arquitetura, foram pensados para reflexão e esse elemento está sempre presente neles. Por outro lado, houve sempre música incrível a ser escrita com um propósito religioso, na Idade Média, na Renascença… é música muito bela, que procura uma ideia de reflexão. A minha música procura fazer o mesmo, mas mais a um nível estético, embora o lado espiritual também me interessa. Mas como sou ateia, não acredito… em toda a minha vida só fui a três serviços, e gostei de ouvir a música, a experiência, mas foi algo desconfortável, porque me sentia estranha ali…

Eu também sou ateu. Referia-me à forma como a música ecoa e se expande. Por vezes parece que foi concebida para uma igreja, mas não soa a “música de igreja”.
Percebo o que dizes e aprecio que o digas.