Liga dos Campeões

A bicicleta criou a paixão, o hat-trick consolidou o amor: um ano depois, Turim deu uma segunda vida a Ronaldo

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A bicicleta despertou a paixão em Turim, a relação azedada levou ao divórcio em Madrid. Aos 33 anos, Ronaldo deu um passo arriscado; um mês depois dos 34, fez história no mesmo estádio (e não acabou).

A celebração habitual veio apenas no terceiro golo da Juventus frente ao Atl. Madrid: a reviravolta na eliminatória estava consumada

AFP/Getty Images

A imprensa espanhola não teve outra hipótese que não fosse ficar rendida à exibição de gala de Cristiano Ronaldo que vulgarizou a organização defensiva considerada por muitos (e com sentido) como uma das melhores da Europa. Até por um pormenor que, neste contexto, faz toda a diferença: bem mais do que tentar chegar ao Barcelona no primeiro lugar da Liga, o Atl. Madrid tinha o sonho de poder voltar a uma final da Champions no seu estádio, o Wanda Metropolitano, para tentar vingar as recentes derrotas frente ao rival Real. No entanto, houve uma celebração que não passou ao lado. Bem pelo contrário.

Entre o “feio” e a “vergonha”, o gesto do português a imitar a frenética reação do técnico Diego Simeone depois do 2-0 de Godín na primeira mão dos oitavos acabou por ganhar redobradas proporções, até por toda a história que trazia atrás de si: na capital espanhola, depois de uma saída amargurada do Real, Ronaldo foi sentindo sempre a animosidade dos adeptos colchoneros, que iam entoando cânticos sobre os problemas que o jogador teve com o Fisco para tentarem desestabilizar o avançado. Na resposta, ainda em campo, o madeirense foi levantando a mão e abrindo os cinco dedos, que simbolizavam o número de Champions ganhas entre Manchester United e Real Madrid. Mais tarde, na zona mista, nova rajada com o mesmo argumento. “Eu, cinco Champions. Atleti, zero. Eu cinco, Atleti zero”, atirou enquanto ia para a saída. “Eliminatória feita? Vamos ver”, acrescentou.

Esta noite, o “vamos ver” transformou-se num “nem por isso”. Primeiro, com um golo de cabeça ao segundo poste depois de um cruzamento da esquerda; depois, com um golo de cabeça ao segundo poste depois de um cruzamento da direita; por fim, com uma grande penalidade onde enganou Oblak. Além de se ter tornado o primeiro jogador a chegar (e ultrapassar) os 125 golos em provas da UEFA, Ronaldo conseguiu ainda igualar um dos poucos recordes que ainda não lhe pertenciam quando começamos a olhar para os números globais da Liga dos Campeões: oito hat-tricks na prova, tantos como Messi. A missão, que parecia impossível para a Juventus, não passou de mais um teste superado aos limites do capitão da Seleção. E os italianos deram mais um passo rumo ao grande objetivo da temporada: quebrar o jejum de títulos europeus.

“Foi uma noite especial. Não apenas pelos golos, mas pela equipa, pela atitude incrível. Esta é a mentalidade de Champions. Ainda não ganhámos nada, mas é um motivo de orgulho e estamos no bom caminho”, comentou o jogador ainda dentro das quatro linhas do estádio da Juventus. “Foi para isto que a Juventus me contratou, para tentar ajudar a equipa. Tento fazer o meu trabalho e obviamente que estou muito feliz. Foi uma noite mágica. O Atl. Madrid é uma grande equipa, muito difícil, mas nós também somos uma grande equipa e mostrámos esta noite que merecemos passar”, completou. Em poucas palavras, Ronaldo resumiu mais uma noite que fica para a história. E logo no relvado que lhe deu uma segunda vida.

Ronaldo a celebrar o segundo golo da noite, com a bandeira portuguesa como fundo (FILIPPO MONTEFORTE/AFP/Getty Images)

No ano passado, e de comum acordo com Zidane, o técnico que regressa agora ao Real sem a sua principal figura da carreira que o conduziu a tricampeão europeu, o português teve uma entrada mais controlada na época. Participou na Supertaça Europeia uns minutos, acabou por ser expulso na primeira mão da Supertaça em Barcelona depois de sair do banco e resolver, andou um pouco mais apagado nos encontros iniciais da Liga. Quando chegava à Champions, aparecia: quatro golos ao Apoel em dois jogos, três golos ao B. Dortmund em dois jogos, dois golos do Tottenham em dois jogos. O avançado deveria sobretudo aparecer na segunda metade da temporada mas, como quem não quer a coisa, marcou em todos os encontros da fase de grupos – mais um recorde. A eliminar, fez a diferença nas duas partidas dos oitavos com o PSG, com três golos. Seguia-se a Juventus.

Todos percebiam que aquele seria o grande teste ao bicampeão europeu mas Ronaldo, como era costume, apareceu. Logo aos três minutos, inaugurou o marcador; quase a meio da segunda parte, apontou o 2-0. De pontapé de bicicleta, naquele que foi o melhor golo de sempre da carreira. No meio da celebração efusiva, olhou à volta e viu um estádio cheio de adeptos adversários de pé a baterem palmas pela obra prima que tinha acabado de fazer. Sorriu, curvou-se e agradeceu. Mais palmas. E ainda teve um gesto com Buffon, que não passara ao lado que acontecera apesar de ser o maior prejudicado. Foi nesse momento que nasceu uma paixão que poucos conseguiriam antever que seria recíproca. De um lado, a Juventus. Do outro, Cristiano Ronaldo. O mesmo carrasco que evitaria na segunda mão, no Santiago Bernabéu, uma reviravolta que seria épica dos transalpinos.

O pontapé de bicicleta de Ronaldo em Turim pelo Real Madrid, que os adeptos da Juve aplaudiram de pé (Emilio Andreoli/Getty Images)

Depois da eliminação do Bayern nas meias-finais, o Real Madrid venceu o Liverpool no encontro decisivo e levantou pela terceira vez consecutiva a Liga dos Campeões. Logo após o jogo, Ronaldo deixou o primeiro sinal de que a continuidade em Espanha não era uma certeza absoluta. A frase acabou depois por ser “abafada” pelos dois lados, até porque as atenções estavam prestes a virar-se para a Rússia e para o Campeonato do Mundo, mas aquele desabafo tinha sido tudo menos inocente. E a eliminação nos oitavos de Portugal frente ao Uruguai, depois de mais uma exibição memorável de CR7 no encontro inaugural contra a Espanha onde apontou um hat-trick, precipitou aquela que viria a ser grande transferência do verão.

A decisão já estaria tomada antes, como o próprio Marcelo assumiu recentemente quando disse que sabia da saída de Ronaldo antes de haver confirmação oficial, mas tudo o que se foi passando antes e depois da Champions convenceram o português a ter uma decisão considerada por muitos como um ato arriscado: sair do Real, onde não tinha gostado da forma como Florentino Pérez assumiu que não se importaria de vendê-lo se alguém chegasse aos 100 milhões de euros, além de outras “guerras” que vinham de trás como a questão salarial (ou a discrepância com Neymar e Messi) ou a falta de apoio no diferendo com o Fisco. A Juventus acertou na mouche em tudo: na abordagem, nos primeiros contactos, no ordenado proposto, no projeto apresentado, na forma como voltou a fazer com que o cinco vezes melhor do mundo se sentisse “amado”.

Desde o primeiro dia em Turim que Ronaldo tem sentido o apoio de milhares de fãs da Juventus (ISABELLA BONOTTO/AFP/Getty Images)

“Foi uma decisão fácil. Vendo o poderio que a Juventus tem, para mim, é uma das melhores equipas do mundo. É uma decisão que vem acontecendo ao longo do tempo. Sempre quis jogar aqui e sempre o disse aos meus companheiros mais próximos. É um passo importante na minha carreira, o melhor clube italiano, com grandes jogadores e um grande presidente. É mais um desafio, sempre gostei de desafios. Há jogadores que com a minha idade vão finalizar a carreira para o Qatar ou China; eu venho rejuvenescer para um clube grande como este. Estou feliz, agradecido à Juventus pela oportunidade de continuar a minha brilhante carreira. Não vim aqui passar férias, vou tentar surpreender-vos uma vez mais. Quero brilhar, deixar a minha marca. Vou estar preparado e tenho a certeza de que vai correr bem. É um passo à frente na minha carreira”, começou por dizer no dia em que foi apresentado oficialmente em Turim como reforço da Vecchia Signora.

“Quero demonstrar aos italianos que sou um jogador top. Vou preparar-me bem. Penso que não tenho de demonstrar nada a ninguém, os números não enganam, mas gosto de desafios, não gosto de estar num território cómodo. Quero fazer história aqui, depois de o fazer no Manchester e no Real. Sei que é uma liga difícil, muito tática, mas gosto de experimentar outras coisas. A receção foi um momento especial, dá motivação para começar bem na minha equipa. Quero agradecer pela forma como me receberam, tentarei dar uma resposta positiva dentro de campo. É o que sei fazer. Muito obrigado a quem esteve no aeroporto, no estádio, no centro de treinos. Obrigado, grazie mille!”, acrescentou mais tarde nesse momento solene.

Em condições normais, CR7 terminaria a carreira no Real Madrid. Quando considerou que o seu tempo tinha acabado e que não era valorizado à luz da relevância que tinha na equipa e na história do clube, não teve problemas em sair. Foi uma decisão arriscada, daquelas que ao longo da carreira foram consideradas por si como desafios. Mais uma vez, está a ganhar. Adaptado a uma nova realidade, envolvido na sociedade transalpina dentro e fora dos relvados, bateu recordes na Serie A italiana, decidiu o primeiro troféu da temporada (Supertaça, frente ao AC Milan) e, naquela que estava a ser a fase menos conseguida em termos individuais e coletivos, arrancou uma exibição de sonho que culminou no primeiro hat-trick pela Juve.

Uma equipa às costas de Ronaldo: Juventus conseguiu virar eliminatória com Atl. Madrid com hat-trick de CR7 (Tullio M. Puglia/Getty Images)

Aos 34 anos, feitos no início do mês passado, Ronaldo continua a representar um mundo à parte no futebol. Por mais que saiba que tão cedo o que faz em campo não sairá da cabeça de várias gerações que têm o privilégio de viver na mesma era do que a sua, quer transportar essas recordações para os números. Para os troféus. Para as estatísticas. Para os recordes. E a grande prova de que existe uma segunda vida pós-Madrid surgiu de novo no estádio onde percebeu que a sua carreira podia ter uma segunda vida. Ali nasceu entre os adeptos uma paixão como jogador visitante. Ali cresceu entre os adeptos um amor como jogador visitado. Ali está a aumentar entre os adeptos um sentimento eterno como um dos melhores jogadores de sempre. Para visitantes, para visitados. Até para quem não goste especialmente de futebol.

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