Russell Westbrook é um daqueles atletas que é bem mais do que um atleta. Para além de uma carreira de sucesso na NBA, onde joga há mais de dez anos e onde já foi considerado o MVP (Most Valuable Player) em 2017, o base dos Oklahoma City Thunder é bem mais do que o basquetebol que desde 2008 mostra ao mais alto nível nos courts norte-americanos. Além dos pavilhões cheios, das sapatilhas coloridas e dos afundanços, Westbrook tem uma história.

Quando ainda era um miúdo a crescer em Hawthorne, uma cidade perto de Los Angeles, o atleta sonhava chegar — antes ainda de pensar na NBA — ao campeonato universitário de basquetebol dos Estados Unidos, a grande rampa de lançamento de todos os jovens que querem fazer do basquetebol a sua principal ocupação. O plano era impressionar nas ligas do ensino secundário e merecer uma bolsa para entrar na UCLA, uma das principais universidades da Califórnia. Russell Westbrook, hoje com 30 anos, não estava sozinho no sonho: o objetivo era partilhado com Khelcey Barrs, o melhor amigo. Juntos, queriam entrar na UCLA, somar boas exibições, chamar a atenção das franquias da NBA e saltar para os lugares cimeiros dos drafts dos anos seguintes.

O sonho realizou-se: mas só para Westbrook. Em 2004, durante um jogo de prestação de provas para integrar a equipa da UCLA, Khelcey Barrs colapsou em campo e acabou por morrer, com apenas 16 anos, devido a um problema cardíaco não diagnosticado. Russell Westbrook continuou, entrou na UCLA, foi a quarta escolha dos Thunder no draft de 2008 e representa a equipa de Oklahoma desde que entrou para a NBA. Durante todo esse percurso — e até aos dias de hoje –, o base entra em jogo sempre com uma pulseira branca com a inscrição “KB3” em vermelho, as iniciais de Barrs e o número que utilizava na camisola. Em entrevista à ESPN há alguns anos, Westbrook explicava que a pulseira, mais do que para ter o amigo por perto, serve para “mostrar a toda a gente quem ele era e o quão bom ele era”.

Ao longo dos anos, mesmo com provas dadas, inúmeros títulos individuais conquistados e uma medalha de ouro olímpica, em representação dos Estados Unidos nos Jogos de 2012, Russell Westbrook adquiriu a fama de estar “sempre zangado”. Desde pequenas discussões com colegas ou palavras mais azedas dirigidas a árbitros, o episódio mais grave até agora tinha acontecido no final da primeira ronda dos playoffs do ano passado, quando os Utah Jazz eliminaram os Thunder ao fim de seis jogos. Depois do derradeiro encontro, enquanto deixava o court através do túnel de acesso aos balneários, Westbrook atirou o telemóvel de um adepto ao chão. Mais tarde, o base defendeu-se e garantiu que não foi ele que confrontou o adepto em causa — mas sim o contrário. “Aqui em Utah ouvi muitas coisas desrespeitosas e vulgares. É uma verdadeira falta de respeito. Falam sobre as nossas famílias, os nossos filhos. É uma falta de respeito para com o jogo”, disse na altura o atleta. Na madrugada desta terça-feira, porém, Westbrook conseguiu somar o momento mais polémico dos mais de dez anos de carreira.

Novamente contra os Utah Jazz, o base estava no banco dos Thunder durante o segundo período quando se levantou, claramente irritado, e insultou um casal de adeptos. O vídeo, que chegou às redes sociais minutos depois, mostra Westbrook a dirigir palavras muito duras aos dois adeptos e a garantir a um dos seguranças ali presentes que os iria agredir caso “repetissem a merda que disseram”. “Eu juro. Vocês acham que eu estou a brincar. Eu juro por Deus, eu juro por Deus, eu f…-vos. A ti e à tua mulher, eu f…-vos”, repetiu o jogador, que mais tarde explicou o episódio e revelou que foi insultado pelo casal. “Disse-me para me colocar de joelhos como estou habituado”, contou Westbrook, que considerou o comentário “racial” e “inapropriado”.

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“Se tivesse de o fazer outra vez, fazia. Vou sempre defender-me: a mim, à minha família, aos meus filhos, à minha mulher, à minha mãe e ao meu pai. Quanto a bater na mulher dele, eu nunca toquei numa mulher e nunca o farei. Nunca estive numa situação de violência doméstica. Mas quando ele fez aquele comentário, a mulher continuou a repetir a mesma coisa. Foi assim que começou. Vocês só viram o final do vídeo mas o início é muito mais importante”, disse o jogador em declarações já depois do encontro, acrescentando ainda que “algo terá de ser feito” e “têm de existir consequências para as pessoas que vão aos jogos apenas para dizer e fazer tudo aquilo que querem”.

O incidente acontece apenas duas semanas depois de Russell Westbrook ser o responsável por uma quase lição didática dada a um jovem adepto. Quando tentava cobrar uma reposição de linha lateral de forma rápida, o base foi ligeiramente puxado por uma criança que estava a assistir na primeira fila à partida entre os Denver Nuggets e os Oklahoma City Thunder. Westbrook parou, olhou durante alguns segundos para o rapaz e acabou por dizer ao pai da criança para “controlar” o filho. Em declarações no final do jogo, o atleta dos Thunder defendeu que “é tempo” de pensar num tipo de barreira entre os adeptos e o court.