Liga Europa

Pizzi, o maestro que não teve voz mas pôs a orquestra a tocar (a crónica do Benfica-Dínamo Zagreb)

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Pizzi não marcou mas foi o melhor de um Benfica que foi apagado na primeira parte, melhor na segunda e eficaz no prolongamento. Lage falhou nas apostas e acertou nos pedidos. Crónica do Benfica-Dínamo

Pizzi assistiu Jonas para o golo que empatou a eliminatória

EPA

A antevisão da segunda mão da eliminatória disputada entre o Benfica e o Dínamo Zagreb foi feita com uma animosidade pouco comum entre os dois treinadores: principalmente se tivermos em conta que este era um jogo das competições europeias, onde os técnicos de parte a parte são normalmente cordiais, humildes e modestos q.b. Desta vez, e face à (algo) surpreendente derrota do Benfica na primeira mão jogada em Zagreb, o treinador do Dínamo defendeu que o Benfica “subestimou” o adversário e até defendeu que a imprensa portuguesa “raramente escreveu” sobre os croatas. Bruno Lage apressou-se a responder e garantiu que, “ao contrário daquilo que o treinador do Dínamo pensa”, o Benfica conhece ao detalhe todos os adversários. O pontapé de saída para o jogo desta quinta-feira foi dado, portanto, com o pé em riste.

Subestimando ou não o adversário, a verdade é que Bruno Lage optou novamente por poupar na Liga Europa alguns dos habituais titulares nos compromissos internos. João Félix começou no banco de suplentes, Samaris também saiu do onze inicial e Grimaldo foi poupado; Jota foi promovido ao onze, Fejsa passou de lesionado a convocado e de convocado a titular, o jovem Yuri Ribeiro assumiu a esquerda da defesa e Zivkovic foi chamado ao onze para ocupar o lugar que costuma ser de Rafa, já que o internacional português subiu no terreno para jogar ao lado de Jota, face à ausência de Seferovic. Do outro lado, Bjelica não tinha o lateral Leovac e o médio Šunjić (ambos suspensos por acumulação de amarelos) e atacava com os mesmos quatro que na passada quinta-feira surpreenderam a defesa encarnada: Dani Olmo, Kadzior, Petkovic e Orsic.

Ficha de jogo

Benfica-Dínamo Zagreb, 3-0 (após prolongamento)

Segunda mão dos oitavos de final da Liga Europa

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Deniz Aytekin (Alemanha)

Benfica: Vlachodimos, André Almeida, Rúben Dias, Ferro, Yuri (Grimaldo, 45′), Pizzi (Gedson, 119′), Fejsa, Gabriel, Zivkovic (Jonas, 45′), Jota (João Félix, 62′) e Rafa

Suplentes não utilizados: Svilar, Cervi, Samaris,

Treinador: Bruno Lage

Dínamo Zagreb: Livakovic, Stojanovic, Téophile-Catherine, Dilaver, Rrahmani, Gojak (Atiemwen, 97′), Moro, Olmo, Kadzior (Situm, 75′), Petkovic (Gavranovic, 86′) e Orsic (Peric, 109′)

Suplentes não utilizados: Zagorac, Majer, Leskovic

Treinador: Nenad Bjelica

Golos: Jonas (72′), Ferro (96′), Grimaldo (105′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Moro (14′), Petkovic (45′), Jonas (66′), João Félix (75′), Grimaldo (90′), Stojanovic (104′ e 104′), Téophile-Catherine (110′), Gabriel (114′); cartão vermelho por acumulação a Stojanovic (104′)

Na Luz, o Benfica realizou cinco minutos iguais à primeira meia-hora do jogo da primeira mão: com dinâmica, velocidade, pressão muito elevada e Zivkovic e Pizzi a tentar procurar terrenos interiores e a solicitar as subidas de André Almeida e Yuri Ribeiro nos respetivos corredores. Essa fase, porém, durou cinco minutos e não se materializou em qualquer oportunidade de golo. O avançar dos minutos e a incapacidade de colocar a bola entre as linhas croatas foi alimentando a crescente frustração dos encarnados, que recuaram no terreno e perderam rendimento. Lage pedia a Ferro e Rúben Dias que subissem no relvado e jogassem mais perto da linha de meio-campo, de forma a funcionarem enquanto base da pirâmide que tinha como vértice a baliza do Dínamo, mas a dupla de centrais esteve durante a esmagadora maioria da primeira parte demasiado encostada à meia lua da área de Vlachodimos.

Ao passar dos primeiros dez minutos, era já o Dínamo Zagreb o dono do ascendente da partida, com Dani Olmo a manter o papel de criativo que já havia desempenhado em Zagreb. Apesar da ausência de ocasiões de golo, a verdade é que o jogo estava partido e sem grande luta tática no meio-campo, com a equipa croata a aproveitar os espaços sem supervisão encarnada para procurar a profundidade e lançar contra-ataques apoiados e de transição rápida. Do outro lado, Yuri Ribeiro não estava a aproveitar a oportunidade — aos 15 minutos, levava quatro perdas de bola e dois duelos perdidos em dois disputados –, Jota estava pouco entrosado com os médios a jogar nas costas, Zivkovic teve apenas uma ação ofensiva e o melhor elemento era mesmo Pizzi, o principal desequilibrador e o único que descobria linhas de passe nos últimos 30 metros.

O Benfica ainda conseguiu recuperar algum do ímpeto dos primeiros cinco minutos nos últimos dez da primeira parte, com tentativas de Pizzi (38′) e Rafa (42′) que obrigaram Livakovic a duas defesas apertadas, mas as principais jogadas de perigo surgiram de lances individuais e rasgos únicos, tornando-se evidente a falta de ligação entre os setores. Ainda assim, quando o alemão Deniz Aytekin apitou para o intervalo, o Benfica atravessava um dos melhores períodos do encontro e descia ao balneário com a sensação de que quando uma bola entrasse, entrariam mais. Mas era preciso entrar a primeira.

Face aos números, que diziam que o Benfica rematou cinco vezes durante a primeira parte, mas só acertou na baliza em duas ocasiões, Bruno Lage percebeu que era necessário colocar em campo uma verdadeira referência ofensiva. No arranque da segunda parte, o treinador encarnado lançou Jonas e sacrificou Zivkovic e ainda tirou Yuri Ribeiro, o claro elemento menos do Benfica durante os primeiros 45 minutos, para fazer entrar o mais ofensivo Grimaldo. Com a entrada de Jonas, Rafa abriu na ala e começou a ocupar terrenos que lhe são mais familiares, enquanto que Jota permaneceu enquanto peão mais móvel na frente de ataque.

O Dínamo Zagreb assumiu desde o início da segunda parte que não iria procurar o golo nem as transições defesa-ataque, colocando quase sempre os 11 jogadores atrás da linha da bola e desistindo da pressão alta. O Benfica respondeu e Ferro e Rúben Dias repetiram o que era pedido por Bruno Lage, centrando a primeira linha de ataque no eixo da defesa, enquanto que Rafa se tornou muito mais perigoso partindo da ala e não do corredor central, como tinha acontecido durante toda a primeira parte. Pizzi continuava a ser o grande inconformado dos encarnados e Jota não correspondia às solicitações dos colegas, acabando por ser substituído sem ter tentado qualquer passe vertical. À passagem do minuto 62 e face à manutenção do nulo que ditava à eliminação da Liga Europa, Lage não resistiu à alteração que a Luz pedia: João Félix entrou e Jota, o segundo da noite depois de Yuri Ribeiro que deixou fugir uma oportunidade importante, saiu.

A entrada de João Félix, ainda que não tenha tido consequências práticas de maior, adicionou um elemento muito móvel à toada ofensiva do Benfica, permitindo a Jonas andar pelos terrenos que privilegia, mais perto da baliza adversária. Essa integração do avançado na zona da pequena área, porém, era frequentemente invertida numa troca de posições entre Jonas e Pizzi ou Jonas e Rafa, com os alas a arrastar consigo defesas adversários para soltar o brasileiro. Foi assim que o Benfica acabou por chegar ao golo que empatou a eliminatória. Ferro subiu no terreno e descobriu Pizzi em desmarcação no interior da área; o internacional português cabeceou e assistiu Jonas, que rematou de primeira e bateu Livakovic. Grande golo do avançado brasileiro, que é já o segundo melhor marcador dos encarnados nas competições europeias (atrás de Seferovic).

Até ao final dos 90 minutos, o Benfica não voltou a dispor de uma verdadeira ocasião de golo — sublinhe-se apenas um remate perigoso de Jonas que obrigou Livakovic ao voo mais fotográfico da noite — e foi mesmo o Dínamo Zagreb a ficar perto do empate que ditaria o apuramento dos croatas para os quartos de final, com Vlachodimos a redimir-se do erro da passada segunda-feira frente ao Belenenses SAD ao evitar um desvio ao segundo poste. Na ida para o prolongamento, o Benfica estava melhor fisicamente — os jogadores do Dínamo mostraram muito desgaste nos instantes finais dos 90 minutos –, mas fraquejava quando os croatas entravam nos últimos 30 metros.

O prolongamento começou animado, com situações de perigo junto das duas balizas, mas o Benfica só precisou de quatro minutos para dar razão a Bruno Lage. Desde os instantes iniciais que o treinador encarnado pedia a Ferro e a Rúben Dias que progredissem no terreno, com bola ou sem ela, e fossem ou a base do ataque ou a solução de linha de passe. Quando, ao passar do minuto 94, Ferro surgiu quase à entrada da grande área a recuperar uma bola, estava a cumprir ordens de Bruno Lage. Ordens essas que culminaram num grande remate do jovem central que só parou no fundo das redes da baliza de Livakovic e deu (finalmente) a vantagem encarnada na eliminatória.

O golo de Ferro motivou a alteração total do jogo, com o Dínamo Zagreb a ver-se obrigado, pela primeira vez, a ir à procura do golo e do resultado. Os croatas estiveram perto de marcar logo no minuto seguinte, com um falhanço clamoroso de Osijek, mas não mais voltaram a criar verdadeiro perigo. Stojanovic viu dois cartões amarelos seguidos por protestos e o Dínamo ficou reduzido a dez unidades a um minuto do final da primeira parte do prolongamento. Até que Grimaldo decidiu acabar com (quase todas) as dúvidas e descansar as mais de 47 mil pessoas que esta quinta-feira estavam nas bancadas da Luz. O lateral espanhol soltou uma bomba de pé esquerdo do meio da rua e o guarda-redes croata ficou pregado ao chão a ver o terceiro golo dos encarnados entrar na baliza.

O Benfica segurou a vantagem na segunda parte do prolongamento e até esteve perto de fazer o quarto golo, por intermédio de Pizzi. Os encarnados voltaram às vitórias depois de dois jogos sem vencer e carimbaram o apuramento para os quartos de final da Liga Europa, onde não vão poder contar com Jonas devido a acumulação de amarelos. Bruno Lage falhou nas apostas — Yuri Ribeiro e Jota não corresponderam à chamada — mas acertou nos pedidos: pediu envolvimento de Jonas e o brasileiro marcou; pediu a subida dos centrais e Ferro marcou; pediu o preenchimento do corredor aos laterais e Grimaldo marcou. Ainda assim, o destaque vai para o maestro sem golo que soube ligar mais novos, mais velhos, avançados, médios, portugueses, espanhóis e brasileiros — Pizzi, que saiu nos instantes finais do prolongamento debaixo de uma ovação, foi o melhor jogador do Benfica contra o Dínamo Zagreb e carrega nas pernas o cansaço de ter garantido em larga escala o apuramento para a fase seguinte.

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