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Ao início da tarde desta sexta-feira, a moda voltou à Alfândega do Porto para o segundo dia do Portugal Fashion. O calendário cresceu e as longas maratonas de desfiles foram encurtadas para doses diárias bem mais recomendáveis. A agenda arrancou com duas ex-bloomers. Se no primeiro dia, vimos jovens designers portuguesas, quase todas mulheres, darem os primeiros passos na área, Sara Maia e Inês Torcato, que já passaram pela mesma plataforma, apresentaram as suas coleções para a próxima estação fria.

A carreira de Sara Maia começa a afastá-la do selo de principiante — a criadora ganhou o primeiro prémio do Bloom em 2012 e apresentou nesta edição a sua sexta coleção — e o seu estilo já está bem definido, ou “mais do que criado”, nas palavras da própria. Sara transpõe o workwear masculino para o guarda-roupa de uma mulher que aprecia silhuetas baggy e que não abdica do conforto. Com bombers, malhas e gangas, a criadora construiu uma coleção a partir da reflexão entre o “que é real e o que não é real”. Mas a realidade é outra e não salta à vista num desfile como o desta sexta-feira. Estação após estação, a designer é levada a fazer ajustes nas suas ideias originais, em função de limitações na produção, e esta coleção não foi exceção.

“A minha intenção era imitar pele de vaca em ganga, mas pediram-me balúrdios. Com uma dimensão minúscula e sem nenhum tipo de apoio financeiro, claramente tive de procurar uma alternativa”, conta ao Observador. Assim apareceram as peças em tie-dye que atravessaram todo o desfile. Na realidade, a história por detrás da coleção é esta: os constrangimentos são reais, mas Sara Maia contorna-os usando a sua primeira e mais valiosa ferramenta, a criatividade.

Desfile de Inês Torcato © Ugo Camera

A passerelle nem teve tempo de arrefecer. Inês Torcato evocou os direitos humanos e arrancou o desfile com a frase: “Todos os seres humanos são livres e iguais em dignidade e em direitos”. O mote foi, na verdade, um oficializar do que a criadora tem vindo a fazer nas suas coleções anteriores. Estação após estação, a relação entre vestuário e género vai sendo subtilmente terraplanada por um intercâmbio de elementos — cortes de alfaiataria para elas; fluidez, desconstrução, e até saias, para eles. “Simplesmente, nunca tinha trazido o tema para o centro da coleção, mas acho que estava na altura, até mesmo pelo panorama político mundial. Cada um à sua escala, é preciso transmitir uma mensagem. Temos essa obrigação”, admite.

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No desfile, vimos uma Inês Torcato mais rebelde ou, pelo menos, com vontade de explorar coisas novas. Outrora absolutamente basilares no seu trabalho, os elementos de alfaiataria, invariavelmente pintados a preto e cinzentos, ficam agora em segundo plano. Se na coleção anterior, a criadora já tinha aberto a paleta a cores mais luminosas, agora, confirmou o ajuste de rota ao abusar dos vinis, das transparências, na forma de tule e de borracha, e de cores como o roxo, o lilás, o camel e o cru. Os blazers e os ombros aumentados continuam numa relação. Curiosamente, foram a peça mais democrática e consensual da coleção — informação recolhida durante o próprio desfile, pelo burburinho de geravam à sua passagem. Para as saias e vestidos masculinos, o mercado é escasso, ainda assim, Inês garante que vende. O momento acabou em clima de concerto. Inês fez o convite ao brasileiro Jaloo, ainda no final do ano passado. O cantor desfilou com o último coordenado e interpretou um dos seus temas ao vivo.

O desfile de Estelita Mendonça © Ugo Camera

O caminho ficou aberto para Estelita Mendonça, o designer eternamente dividido entre o exercício de refletir sobre o que o rodeia e o bichinho de explorar novas técnicas e materiais. Foi o que aconteceu, sem tirar nem pôr. Não foi à toa que, pela primeira vez, assistimos a um desfile sem música. Pelo menos, não aquela música ritmada que enche a sala. Cada um dos manequins entrou com a sua própria playlist, de coluna portátil na mão. Depois de uma volta à sala, ocuparam lugares, deixados vagos de propósito, entre o público. Individualismo e singularidade; realidade filtrada e bolha — os conceitos não foram imediatamente óbvios, até porque, durante o desfile, o constrangimento provocado pela circunstância incomum absorveu grande parte da atenção de quem assistia.

Valeu-nos a clareza de raciocínio do próprio designer, durante dois dedos de conversa no final do desfile. Chamou-nos a atenção para a forma como cada coordenado vivia de forma autónoma na coleção, sem elementos em evolução ou correspondências de cor, fora os 14 acordes desconexos a ecoar na sala. No atelier, o criador desenvolveu uma nova textura. A partir do famoso plástico das bolhinhas, usou altas temperaturas para criar o tecido estrela da coleção. “É confortável e pode ser lavado”, exclama. No limite, poderá não ser um sucesso de vendas, mas esse risco, Estelita Mendonça já está habituado a calcular.

Desfile de Katty Xiomara © Ugo Camera

Entretanto, as mulheres voltaram a tomar conta do calendário. Ana Teixeira de Sousa, a criativa por detrás da marca Sophia Kah, ocupou a passerelle da alfândega, depois de uma apresentação num clube londrino, em fevereiro. A sua fórmula clássica ganhou uma aura noturna, com rendas pretas, transparências, franjas e o predomínio de cores como o vermelho e o rosa choque. O desfile em solo português teve direito a um extra: Raquel Strada foi a chave de ouro com que a criadora portuguesa encerrou a apresentação. Katty Xiomara foi o nome que se seguiu e também ela fez as malas para ir apresentar a coleção do próximo inverno além-fronteiras. Em Milão, mostrou que é possível homenagear a mulher através da moda e revelou uma coleção cápsula dedicada à personagem Hello Kitty, encomendada pela própria Sanrio. Curiosamente, Katty e Kitty fazem 45 anos em 2019.

Ao final da tarde, a Pé de Chumbo antecipou o próximo inverno. A marca de Alexandra Oliveira fê-lo com vestidos em fios de veludo e de cetim, saias volumosas e blusas com folhos, mas também com uma consciência ambiental. Na passerelle, desfilaram casacos feitos com fios reaproveitados e com pelo de poliéster reciclado a partir de plástico encontrado no mar. A TM Collection voltou a transportar o edifício da Alfândega para outras latitudes. Com dança e uma paleta de cores intensa e quente, Teresa Martins deu o habitual espetáculo de moda no Portugal Fashion.

Luís Buchinho fechou o desfile com uma nova linha de t-shirts © Ugo Camera

De volta aos designers viajantes, Diogo Miranda e Luís Buchinho ainda mal tinha aterrado de Paris, onde apresentaram em primeira mão as suas coleções outono-inverno 2019/20, e já dominaram as atenções com os desfiles mais aguardados deste segundo dia de Portugal Fashion. Enquanto o primeiro redesenhou o guarda-roupa de Éliane, personagem Catherine Deneuve no filme “Indochina”, o segundo homenageou as mulheres que se destacaram na aviação do século XX. No final, todas as manequins voltaram à passerelle com t-shirts do criador (na imagem acima). A nova linha, feita a partir de ilustrações que Buchinho já partilhava nas redes sociais, deve chegar à loja no final deste mês e com preços entre 50 e 60 euros.

O dia terminou com Miguel Vieira, depois de soar a meia-noite. O criador já tinha apresentado a coleção masculina, há mais de dois meses, na Semana da Moda de Milão. Por outro lado, as idas frequentes a África, em especial a Moçambique, fizeram-no imaginar um inverno passado naquele continente. Do azul do mar aos beges, ocres e amarelos que pintam a paisagem em terra, o inverno do criador é especialmente aquecido pelas cores, sobretudo a coleção masculina. O homem de Miguel Vieira está, na verdade, em evolução. Os coordenados masculinos estiveram em superioridade numérica, além de terem brilhado muito mais a passerelle, face à amostra da coleção feminina. Um trabalho que o criador admite ter vindo a fazer nas últimas estações, não só para respeitar os timings de Milão, mas por uma questão de reatualização.

Desfile de Miguel Vieira © Ugo Camera

“A parte de homem está a dar-me muito trabalho, a mim e a qualquer designer. O desfile em Milão foi a 11 de janeiro, em novembro a coleção já estava pronta. Agora, por exemplo, já comprei os tecidos todos para a primavera de 2020, porque a coleção tem de estar pronta dentro de um mês”, explica o criador. “Ao longo destes anos todos, tentei sempre tornar-me o mais jovem possível, não cruzar os braços e, apesar de as minhas peças serem intemporais, dar-lhes um twist jovem. Não era normal, há dez anos, misturar botas de montanha com calças de licra, com lantejoulas e com fatos. Se calhar, estou a ficar mais novo”, conclui.

O estranho caso de Miguel Vieira fechou o segundo dia. O Portugal Fashion continua a dar espaço às coleções de designers e marcas portuguesas. No sábado, terceiro dia de desfiles, o calendário conta com nomes como Nuno Baltazar, Susana Bettencourt, Alves/Gonçalves e Luís Onofre.