Chama-se comboio presidencial, foi utilizado por diversos chefes de Estado e a sua exploração turística foi adjudicada sem custos em 2016 a uma empresa que tinha Marta Relvas, mulher do ex-ministro Miguel Relvas, como sócia. Trata-se da sociedade Trajetórias & Melodias, Lda, uma empresa fundada por Gonçalo Castel-Branco e Marta Relvas, segundo uma reportagem especial da SIC transmitida na segunda-feira à noite. Em 2017, o evento gastronómico criado por aquela empresa, o “The Presidential”, foi eleito o melhor evento público do mundo pela Best Event Awards 2017 — uma espécie de óscar mundial dos eventos.

Antes usado para o transporte de presidentes, o comboio presidencial esteve ao abandono entre os anos 70 e o ano de 2010, ano em que começou a ser restaurado pela Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário (EMEF), que pertence ao grupo CP. Segundo a SIC, a recuperação das carruagens só foi possível com a injeção de um milhão e meio de euros dos fundos comunitários do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN), do Turismo de Portugal, da CP e das Infraestruturas de Portugal.

Finda a sua restauração, em 2013 deu-se a viagem inaugural de Lisboa ao Entroncamento. Ana Abrunhosa, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, entidade que decidia sobre a canalização dos fundos comunitários, dizia que o comboio teria de ser explorado por forma a “gerar rendimento às economias locais”, já que é esse “o objetivo dos financiamentos comunitários”.

O “Presidencial”, o novo nome da composição, volta à tona em 2016, com a entrada em cena de Marta Relvas e Gonçalo Castel-Branco que celebraram um contrato com a Fundação do Museu Nacional Ferroviário para a cedência da composição. “A parceria resulta do interesse manifestado por uma entidade e que foi ao encontro do interesse que o museu tinha em encontrar uma solução que pudesse dar visibilidade ao comboio presidencial”, disse Jorge Faria, vogal da fundação, à SIC. A fundação tinha saldos negativos superiores a 300 e 400 mil euros em 2016 e 2017 e precisava de receitas. Segundo o Público, o presidente da fundação nessa época era Jaime Ramos, ex-presidente da Câmara do Entroncamento eleito pelo PSD.

Sob a alçada da empresa da Castel-Branco e Marta Relvas, o comboio passou a circular pelo Douro, com paragens para provas de vinho e pratos confecionados por chefs no vagão, com o preço por cabeça a chegar a cerca aos 300 euros. “Estava à procura de um comboio e encontrei o comboio presidencial. Fiquei apaixonado. Perguntei ao museu se estava disponível e disseram-me que sim”, explicou Gonçalo Castel-Branco à SIC.

Ideia para negócio partiu de filha de 10 anos de sócio de Marta Relvas

“Não houve nenhuma condição que me tenha sido dada e que não tenha sido dada a outro concorrente que tenha visitado o comboio antes ou depois de mim”, disse o sócio de Marta Relvas sobre o acordo com a Fundação do Museu Nacional Ferroviário. Questionado sobre a parceria com a mulher de um antigo ministro, o empresário rejeita qualquer favorecimento e refere que, à data da cedência (2016), o governo em exercícios de funções era o atual liderado pelo PS de António Costa. O último cargo público de Relvas foi o de ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares em 2013, no Governo de Passos Coelho.

Questionado sobre o teor do contrato celebrado com a Trajetórias & Melodias, Jorge Faria diz não saber se obedeceu a um concurso público. Sobre os contratos, o vogal da fundação garantia que iria divulgar toda a informação sobre o caso algo que, segundo o canal de televisão, nunca chegou a acontecer. Segundo Gonçalo Castel-Branco, sócio que sempre deu a cara pelo negócio, o contrato estipulava que seria a empresa a assumir todas as despesas de circulação e manutenção — custos que ascendem aos 180 mil euros anuais.

Em 2017, Marta Relvas deixou a sociedade alegando que o negócio dava prejuízo, apesar de toda a atenção mediática derivada dos prémios que o evento “The Presidencial” tinha conseguido. À SIC, a mulher de Miguel Relvas garantiu que a ideia partiu da filha de 10 anos de Gonçalo Castel-Branco– facto que é confirmado pelo seu sócio.

A operação, contudo, continuou. Segundo as contas da fundação do mesmo, a empresa terá faturado 600 mil euros, valor negado por Gonçalo Castel-Branco, que descobriu uma situação inesperada que inviabilizava o negócio. “Eram necessários 40 mil euros para a manutenção do comboio – os rodados. Tivemos que aumentar o prazo para que pudesse recuperar o investimento”, disse à SIC.

O Ministério das Infraestruturas disse à SIC que o acordo de cedência “não acautela o interesse público” e “deve ser reavaliado e sujeito a profunda revisão”.

Artigo editado às 11h de 19 de março com a informação do Público e a resposta do Ministério das Infraestruturas à SIC.