Em 2012, a propósito dos 25 anos da primeira vitória do Futebol Clube do Porto na Taça dos Campeões Europeus (atual Champions), Octávio Machado confidenciou-me que um clube português nunca sonha com a Champions – até aos quartos. A obrigação, antigamente, era passar as primeiras eliminatórias – o que corresponde, hoje, a passar a fase de grupos. Mas uma vez atingido os quartos, todo um balneário começa a sonhar.

A distância do sonho à realidade, tanto para os jogadores do FC Porto como do Ajax, é gigante: nunca a diferença financeira entre os clubes foi tão grande como hoje – e não é por acaso que Inglaterra, o país que mais dinheiro de televisão distribui, vê os seus quatro clubes ainda em prova. Mas este tem sido um daqueles anos únicos da Champions, em que os grandes tropeçam e abrem caminho a surpresas, como a do FCP em 2004.

Até ao momento caíram Real Madrid (vencedor das três últimas edições e de quatro das últimas cinco), Bayern de Munique, Atlético de Madrid e Paris Saint-Germain, os primeiros depois de levarem uma lição de futebol em casa, dada por um Ajax que fez lembrar os tempos de Cruijf, os últimos destruídos por um daqueles acasos em que o futebol é profícuo. E se o Manchester United, que derrotou o PSG, até pode ser considerado um dos colossos do futebol europeu, também é verdade que não é o mesmo da era Ferguson e que estava a disputar a segunda mão sem 10 jogadores (lesionados).

Último detalhe antes de procedermos à análise das fraquezas e forças de cada clube que permanece em competição: Barça e Juve podem encontrar-se da final – se Ronaldo vencer será a sexta vez – era um feito incrível feito, vencer a Champions por três clubes diferentes. Tendo em conta a idade de Messi e Ronaldo, já não haverá muitas chances de se encontrarem de novo numa final – sendo que Cristiano certamente gostaria de vingar-se da final de 2009, em que o Barcelona de Guardiola derrotou o United por 2-0, numa exibição monumental de futebol.

Barcelona / Manchester United

70% / 30%

Há dois meses ninguém daria 10% de chances à imitação de futebol que o United praticava, mas o treinador interino Ole Gunnar Solskjaer parece ter restituído o feel good factor a Old Trafford, onde já se voltaram a ouvir os gritos de “Attack, attack, attack”, vindos das bancadas. A sequência de vitórias desde o despedimento de Mourinho culminou na vitória em Paris, em que um United humilde aceitou a sua condição de formiga e aproveitou os erros dos parisienses para, mesmo com 10 jogadores lesionados ou suspensos, inventar um milagre. Mas há razões para desconfiar se o efeito da chicotada psicológica não terá chegado ao fim: desde Paris o United perdeu fora para a Premier (com o Arsenal) e para a taça (com os Wolves, mais uma exibição magistral de Rúben Neves) e em ambos os casos jogou zero.

O Barcelona, por seu turno, parece estar a refazer-se de alguns tiros no pé, como a escolha de Luis Enrique para treinador, que pode ter rendido uma Champions mas deu cabo da identidade que vinha desde os tempos de Pep. As aquisições de Lenglet e de Arthur trouxeram coesão e toque de bola, enquanto Dembelé parece ter ultrapassado os problemas disciplinares. A carreira europeia do Barça, nos últimos anos, parece ter sido prejudicada por um excessivo foco na liga, mas com esta praticamente ganha falta apenas que perca Suárez peso e descobrir como integrar Coutinho num meio-campo que conta com Busquets na melhor forma e com a magia do génio Arthur. O resto é Messi – e Messi, como o seu terceiro golo contra o Bétis demonstra, é quase tudo.

https://www.youtube.com/watch?v=ItlWwr4Hdc0

Liverpool / Porto

75% / 25%

É talvez a eliminatória mais desequilibrada, pelo menos se tivermos em conta a do ano passado, em que o Liverpool trucidou um Porto demasiado ingénuo: o resultado final de 0-5 espelha a contundência do contra-ataque inglês, rumo a uma final que acabou no momento em que Sérgio Ramos placou Salah.

O Liverpool deste ano é menos explosivo, porque os adversários estão mais atentos a Salah e já perceberam que o Liverpool, em fase defensiva, deixa o seu trio maravilha (Mané – Firmino – Salah) adiantado para contra-atacar com mais eficácia. Por outro lado, com Van Dijk bem integrado e com a adição de Allison na baliza, o Liverpool de hoje é bem mais coeso defensivamente – Klopp também parece estar mais consciente de que não se pode ganhar sempre 4 a 3 ou 5 a 4. O único defeito do Liverpool é um meio-campo demasiado operário, em que a criatividade fica muitas vezes a cargo do suplente Shaqiri.

A saída simultânea de Ricardo e de Dalot deixou o Porto manco do lado direito: Maxi já não tem pernas, Corona falhou na adaptação, Manafá, como demonstrou contra o Benfica, não tem traquejo contra os grandes. A solução tem passado por adaptar Militão à direita e colocar Pepe ao lado de Felipe – mas os números não mentem: desde que Militão passou para a direita o Porto vence menos.

Às chances do Porto não ajudam nem o 4-4-2 de Conceição, nem o estilo de jogo (muito dependente do “chutão”) nem as opções (os amantes de futebol não entendem que Oliver e Brahimi – os dois únicos jogadores criativos do Porto – fiquem no banco). Dois dados dão esperanças aos portistas: Conceição não pode pôr José Sá a jogar, deixando Casillas no banco; e com a suspensão de Herrera, Oliver terá de jogar.

https://www.youtube.com/watch?v=aE2Mj5ZCOLU

Tottenham / Manchester City

45% / 55%

O ano passado tudo se encaminhava para o City festejar: ao domínio absoluto na Premier League somava-se a meia-final na Champions contra o Liverpool. Tudo o que se pedia a Pep era um pouco de pragmatismo para com a pressão assustadora das equipas de Klopp – mas Pep foi romântico e acabou destroçado pelas bolas longas para a velocidade dos avançados do Liverpool .

Pochettino é um mini-micro-Klopp: o alemão venceu oito dos seus 16 embates com o catalão, enquanto o argentino só conseguiu duas vitórias (e quatro empates) em 14 jogos – mas só Mourinho e Klopp se podem gabar de mais. Os Spurs também pressionam alto, também executam uma contra-pressão de endoidecer quando perdem a bola – e também não têm medo de jogar longo nas costas da defesa.

Só que historicamente, os Spurs falham (sou dos Spurs desde pequenino, sei o que digo, jogam sempre ao ataque, sempre bonito e falham sempre no fim. Pochettino trouxe uma dureza, um pragmatismo raros nos Spurs – mas basta olhar para a eliminatória do ano passado com a Juve para perceber que a História pesa: bastaram meia dúzia de minutos para dar cabo de uma eliminatória até então totalmente controlada.

Este ano o City não começou muito bem (em parte porque Fernandinho e De Bruyne andaram lesionados) mas lentamente recuperaram a forma – e entretanto Bernardo Silva cresceu e tornou-se uma espécie de líder. Se pensarmos que entretanto há Mahrez a tendência é City.

https://www.youtube.com/watch?v=Rv31vcyCXhs

Ajax / Juventus

40% / 60%

À partida, todo o favoritismo estaria do lado da Juve: tem um plantel com profundidade, dois dos melhores centrais mundiais, um médio centro criativo e trabalhador à antiga (Pjanic) e dá-se ao luxo de deixar Dybala no banco porque na frente tem Cristiano Ronaldo que, como a segunda mão contra o Atlético mostrou, é capaz de virar a mais difícil das eliminatórias.

Mas, por mais coesa que seja, a Vechia Signora não anda a jogar um futebol brilhante – e isso é o que o Ajax faz, a cada passo (ou a cada passe ou a cada posse). Passe e posse definem este Ajax, que honra a sua melhor tradição: receber bem, levantar a cabeça, passar, abrir linha de passe, criar superioridade numérica, fazer triangulações, encontrar o homem livre: todos os princípios do bom futebol são executados na perfeição por uma equipa em que as estrelas são centrais e médios, porque o toque de bola e a inteligência são, para estes holandeses que constroem desde a baliza, tão ou mais importantes que uma finta.

De Ligt, o central, e Frenkie de Jong, o médio que já está vendido ao Barcelona, são os maiores exemplos dessa filosofia – mas não podemos esquecer a exibição de Tadic contra o Real. Conseguirão fazer o mesmo contra a Juve? Em princípio não: o Real que o Ajax derrotou era uma equipa em decadência; para a Juve, e dada a idade dos seus artistas, esta pode ser a última oportunidade. Chielini e Bonucci serão bem mais impiedosos que Varane e Nacho; dificilmente Pjanic e Matuidi serão manipulados como Modric e Kroos foram. E, à frente, estará o homem que faltou ao Real: esse espantoso Cristiano que, do nada, inventa um golo.