Vénus é o planeta mais próximo da Terra. Mas também não é o planeta mais próximo da Terra. Parece um daqueles paradoxos ao estilo do Gato de Schrödinger, mas na verdade é mesmo pura física e um pouco de matemática. É que, tal como aprendemos na escola, Vénus é o planeta que mais perto fica de nós no constante circuito dos corpos celestes em redor do Sol. No entanto, em média, é Mercúrio que mais tempo passa na nossa vizinhança.

É como se, apesar de viver numa casa mais próxima à nossa, Vénus passasse mais tempo de férias longe de nós. E Mercúrio, embora viva um pouco mais longe do que Vénus, passe mais tempo em casa e, por isso, mais perto da Terra. Confuso? Nós explicamos.

As reviravoltas começaram quando a Physics Today, uma conceituada revista do Instituto Americano de Física, publicou um artigo a argumentar que “Vénus não é o vizinho mais próximo da Terra”: “Há cálculos e simulações que confirmam que, em média, Mercúrio é o planeta mais próximo da Terra. E de todos os planetas do Sistema Solar”, arranca o documento assinado por um investigador do Laboratório Nacional de Los Alamos, outro do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Engenheiros e um engenheiro mecânico da NASA.

Segundo eles, claro que nada mudou na ordem dos planetas. Continua tudo arrumado em Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno. No entanto, apesar de nos termos habituado a dizer que Vénus está mais perto da Terra, os três investigadores perceberam que “tendo em conta a média temporal, o vizinho mais próximo da Terra é, de facto, Mercúrio”:

“Mercúrio está mais próximo da Terra, em média, do que Vénus porque orbita o Sol mais proximamente. Logo, Mercúrio é o vizinho mais próximo de cada um dos outros sete planetas no Sistema Solar”, pode ler-se no artigo.

Significa isto que tudo o que aprendeu na escola é mentira? Não propriamente. As distâncias entre os corpos celestes que compõem o Sistema Solar costumam ser estudadas numa medida que se chama “unidade astronómica”, cujo símbolo é “UA”. Diz-se que uma unidade astronómica corresponde à distância entre o Sol e a Terra — que é, em média, 150 milhões de quilómetros. E é essa a medida com que determinamos quão longe está um corpo celeste do outro.

“A órbita da Terra em redor do Sol não é um círculo perfeito. É ligeiramente excêntrica. Há um extremo da órbita em que está mais perto do Sol e outro em que está mais longe dele. A definição de UA é a média entre os dois valores“, explica Rui Agostinho, astrónomo e diretor do Observatório Astronómico de Lisboa, ao Observador.

Isto é: se a órbita da Terra em redor do Sol fosse circular, a distância entre esses dois astros seria de uma unidade astronómica.

Se medirmos todas as distâncias entre o Sol e os outros planetas de acordo com o conceito de unidade astronómica, descobrimos que Mercúrio está a 0,387 UA do Sol e que Vénus está a 0,722 UA. Mas isso levanta um problema: contas feitas, isso significa que, quando a Terra e Vénus estão no momento mais próximo entre eles, estão separados por 0,28 UA. Mas, quando estão no ponto mais afastado entre eles, estão a 1,72 UA. Isso traduzir-se-ia numa distância média entre a Terra e Vénus de 1 UA — que, na verdade, e de acordo com o conceito de unidade astronómica, é a distância estabelecida entre o nosso planeta e o Sol. Ora, a Terra não pode estar tão afastada do Sol quanto de Vénus.

É aqui que surge o problema. E foi para resolvê-lo que os três cientistas encontraram outro método para calcular a verdadeira distância entre os corpos celestes: a média temporal, um cálculo que batizaram de “whirly-dirly corollary” em homenagem a um episódio de Rick e Morty.

“Todos os dias, durante um ano, mediram a distância a que a Terra estava de Mercúrio e de Vénus. E descobriram que Vénus passa mais tempo mais longe da Terra do que Mercúrio. Quando se faz a média temporal, de facto Mercúrio passa mais tempo mais próximo da Terra do que Vénus ou Marte”, esclareceu Rui Agostinho.

Tudo se resume a fazer a mesma pergunta de forma diferente. Em vez de se questionar sobre qual é o planeta que mais se aproxima da Terra, o que a Physics Today fez foi perguntar: “Durante o ano, qual é o planeta que, em média, mais tempo passa perto da Terra?”. A resposta à primeira pergunta é aquela que vem em todos os dicionários astronómicos: Vénus. Mas a resposta à segunda pergunta é diferente: é Mercúrio, não Vénus, que mais tempo passa na nossa vizinhança.

Isto não é novidade para a comunidade científica, sublinha o diretor do Observatório Astronómico de Lisboa. Na universidade, quem estuda física ou astronomia já aprende a fazer estas contas. Como o circuito da Terra em volta do Sol é uma elipse, a velocidade dela também varia ao longo dessa translação. Quando o nosso planeta está no ponto mais próximo do Sol (periélio), a sua velocidade em redor dele aumenta. E quando está mais afastado dele, (afélio), a velocidade diminui. É assim porque, quando está mais perto do Sol, a Terra tem de percorrer uma distância maior no mesmo espaço de tempo, portanto a velocidade dela aumenta.

O que os estudantes universitários desta área calculam é, então, se a Terra passa mais tempo longe do Sol ou perto dele. A lógica é a mesma da usada pelos três cientistas da Physics Today: se a velocidade do nosso planeta diminui quando ele está mais longe do Sol, então isso significa que passamos mais tempo afastados do que juntos. E que, sendo assim, “a média temporal da distância da Terra ao Sol é ligeiramente maior a 1 UA”, conclui Rui Agostinho.

E isso tem repercussões na nossa vida na Terra, embora seja muito difícil que se aperceba disso. É por isto que o inverno do hemisfério norte seja mais mais curto do que o verão. Na verdade, o verão do hemisfério norte — que acontece quando estamos mais longe do Sol — tem mais cinco dias do que o nosso inverno. E, por consequência, o inverno do hemisfério sul tem mais cinco do dias do que o verão.