Concertos

A orquestra que toca Bach, Vivaldi e Beethoven com guitarra elétrica

Atua em Lisboa no fim do mês, a única orquestra de guitarras elétricas do mundo. Concerto inclui composições clássicas e tributo a Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés. Maestro falou ao Observador.

No concerto de Lisboa, a Sinfonity vai tocar música clássica e grandes êxitos da música ligeira do século XX

DR

Autor
  • Bruno Horta

Se o grande público parece ter pouca apetência por música clássica, Pablo Salinas não se impressiona, baralha e dá de novo, oferece Bach, Vivaldi ou Beethoven ao lado de Led Zeppelin, AC/DC ou Queen. O resultado é um espetáculo surpreendente que começou em Espanha há oito anos e hoje se apresenta com diversos formatos e alinhamentos, consoante os locais de atuação. É a Sinfonity – Orquestra de Guitarras Elétricas, descrita como a única do género no mundo, com concerto marcado para o Casino Estoril, a 29 de março.

O piano, os violinos, as flautas e os oboés dão lugar a 12 guitarras elétricas e também elas acionam uma bateria eletromecânica, usada no concerto para acompanhar as canções ligeiras. Em lugar de músicos com roupas formais e visual sóbrio, aparecem em palco figuras de cabelo comprido, por vezes com calças de ganga e óculos de sol.

Uma orquestra clássica de 65 músicos tem 24 violinistas a tocar a mesma partitura, porque o violino tem um alcance limitado em termos sonoros”, explicou Pablo Salinas, mentor da Sinfonity. “Mas uma guitarra elétrica, através da amplificação, pode elevar bastante o volume, de tal forma que dois músicos com guitarras cobrem um naipe de 16 músicos clássicos. Depois da admiração inicial, as pessoas costumam dizer que não soamos como uma orquestra clássica, mas transmitimos a mesma sensação.”

O Observador viu a Sinfonity ao vivo no Teatro Real de Madrid, em janeiro, por ocasião de um concerto de beneficência onde foram interpretadas peças tão diversas quanto o “Bolero” de Ravel ou “As Quatro Estações” de Vivaldi.

Depois do concerto, ainda arrebatado pela atuação frente a mais de 1500 pessoas, Pablo Salinas explicou a origem da orquestra e deu pormenores sobre os dois concertos em Portugal, que incluem música clássica e temas marcantes do século XX, além de uma homenagem ao guitarrista Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, falecido em dezembro de 2017. Recordou também a colaboração com Manoel de Oliveira no início dos anos 90 e fez um breve comentário às excentricidades de estrelas pop com quem já trabalhou.

[vídeo promocional da Sinfonity]

“Acreditam que Bach escreveu há três meses”

Ainda projeto de orquestra, a Sinfonity apresentou-se pela primeira vez em 2011 no Anfiteatro Romano de Mérida, na Estremadura espanhola, durante a abertura do conhecido Festival Internacional de Teatro Clássico. O primeiro concerto oficial foi em dezembro de 2012 no Teatro Fernán Gómez, em Madrid, e desde então sucederam-se atuações um pouco por todo o mundo.

“Muitas vezes somos noticiados num tom sensacionalista, como se fossemos aves rara”, contou Salinas, com visível satisfação. “Já entrámos em eventos de música clássica, o que nos surpreende sempre, porque somos músicos de jazz, de rock e de pop, mas adoramos música clássica e temos muito orgulho em continuarmos a ser a única orquestra deste género em todo o mundo. Claro, há opiniões diversas, mas mesmo entre os puristas da clássica há muitos que aceitam e agradecem a nossa ideia. O projeto chega a diferentes gerações e a pessoas com mais ou menos conhecimento de música. Em alguns concertos, os miúdos trazem-nos as suas próprias guitarras e pedem autógrafos. Alguns acreditam que Bach escreveu há três meses aquela música que acabaram de ouvir em guitarra elétrica.”

A ideia nasceu quase por acaso, quando Salinas foi desafiado em 2011 a criar música para uma peça de teatro. A encenadora pediu-lhe um som moderno, não o som de instrumentos clássicos. “Comecei por escrever um réquiem barroco e toquei sozinho com guitarra, para ver no que dava”, recordou Salinas. “Fiquei muito surpreendido, porque sozinho conseguia o efeito de dezenas de músicos. A encenadora e o público adoraram e então pensei: se eles gostam disto, imagine-se se tocar com guitarra Bach, Vivaldi, a grande música intemporal.” Assim apareceu a Sinfonity. “Diz-se que a grande maioria das pessoas não quer ouvir música clássica, pois eu vejo nisso uma grande oportunidade. As pessoas gostam, só que não sabem.”

Duke Ellington e Xutos & Pontapés

Pablo Salinas nasceu há 52 anos em Antequera, Málaga, na Andaluzia, e muito jovem estabeleceu-se na capital espanhola. É maestro e compositor, guitarrista e pianista, e além de criar bandas sonoras para filmes tem tocado ao vivo e em gravações de estúdio com Luz Casal, Mike Oldfield, Joan Manuel Serrat, Jennifer López, Rosario Flores, muitos outros. Disse-nos que começou pelo órgão, aos oito anos, e em adolescente chegou a atuar com Pino D’Angiò, italiano do disco sound, famoso em toda a Europa nas décadas de 70 e 80. Depois apaixonou-se pela guitarra elétrica e a primeira que comprou foi uma Gibson Flying V. “Era miúdo e adorava tocar AC/DC”, recordou.

Defensor de que “a guitarra elétrica está associada a uma certa fúria, mas tem uma ductilidade e uma delicadeza pouco conhecidas”, Salinas é quem faz a adaptação das peças clássicas, um trabalho difícil que claramente o fascina.

Um violino tem uma distância de 20 centímetros entre a nota mais grave e a nota mais aguda, enquanto na guitarra essa distância é de 60 centímetros”, explicou. “O desempenho físico para chegar às notas é maior na guitarra. Outro exemplo: o teclado é fácil para tocar notas próximas, enquanto a guitarra é boa para tocar notas distantes. Cada instrumento tem as suas dificuldades e há coisas complicadas na adaptação. Tento colar-me o mais possível à obra original, porque acho que o propósito da música é emocionar e não impressionar com grandes exercícios técnicos.”

No concerto de Lisboa, a Sinfonity fará um alinhamento especial, com duas partes: uma dedicada à música clássica, como no concerto de janeiro no Teatro Real de Madrid, e outra com êxitos de Duke Ellington, Glenn Miller, Led Zeppelin, AC/DC e Queen. “A surpresa é uma homenagem ao nosso companheiro desaparecido Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, porque o nosso propósito é o de irmos ao encontro do gosto do público”, disse Salinas.

Pablo Salinas nasceu na Andaluzia e apaixonou-se pela guitarra elétrica em adolescente

“Um artista é porta-voz da realidade”

Segundo o maestro, para se ser músico “não basta tocar, é preciso ter algo a dizer”. Do trabalho com estrelas pop, como Jennifer Lopez, nem sempre trouxe as melhores recordações. Comportamentos que considera excêntricos – “artistas que bebem garrafas de água de 300 euros ou que ficam em hotéis que custam mil euros por noite” – levam-no a dizer que “um artista só deve perder o contacto com a realidade no momento da criação, mas nunca fora disso, porque ele é um porta-voz da realidade”.

No fim da conversa, Salinas recordou a participação em 1990 na banda sonora que Alejandro Masso escreveu para “Non ou a Vã Glória de Mandar”, um dos filmes icónicos de Manoel de Oliveira. “Muitos realizadores expressam-se de forma muito esquisita quando falam com os músicos”, disse. “Houve um realizador que uma vez me pediu que tocasse como se dois namorados se estivessem a amar atrás de um arbusto. O mestre Oliveira chegou ao pé de mim e explicou que a música era para uma cena maravilhosa em que dois exércitos se encontravam num campo de batalha. Disse-me assim: ‘Tens que tocar bem, porque nesta cena estão uns 500 cavalos’. Ao contrário de outros realizadores, ele falava com a simplicidade de quem sabe o que é e o que não é importante. Desde aí, sempre que trabalho para um filme, penso na frase dele. Não posso tocar como se fosse uma qualquer coisa. Penso sempre nos 500 cavalos.”

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