Sem medos. A Sonae já enfrentou antes as “invasões francesas” do Carrefour e da Auchan e também não teme agora a chegada a Portugal dos espanhóis da Mercadona. O chairman e co-CEO da Sonae, Paulo Azevedo, afirmou esta quinta-feira que o grupo “está muito habituado” e “preparado” para lidar com a concorrência. Os espanhóis da Mercadona estão prestes a abrir 10 lojas em Portugal este ano, mas o líder da dona do Continente não está preocupado.

Esta quinta-feira na apresentação dos resultados do ano passado da Sonae, Paulo Azevedo desvalorizou a entrada em força dos espanhóis no setor do retalho português, ao afirmar que a empresa já enfrentou a concorrência de “gigantes bem maiores, franceses e alemães”. No retalho alimentar, Paulo Azevedo destacou “as invasões francesas” com as quais a empresa lutou ao longo dos anos.

O chairman afirmou que a Sonae está preparada para a luta e descarta que a concorrência espanhola seja mais ameaçadora. “Naturalmente que estamos preparados, porque respeitamos muito todos os grandes players, mas também estamos muito confiantes porque temos muita experiência destas lutas e destes desafios. Não penso que por ser espanhol seja mais ameaçador do que por ser francês ou alemão”.

Paulo Azevedo reconhece a competência da Mercadona, mas destaca que a Sonae já se deparou com este tipo de concorrência como são os casos “do Carrefour, como é a MediaMarkt, como é a LIDL,como é a Aldi, como é o Intermarché, como é o Auchan. Todos esses grupos gigantes que nos vieram desafiar no nosso território, nós soubemos tomar conta deles, e tentaremos com respeito, com humildade, com trabalho, continuar que assim seja.”

Já sobre um eventual investimento no DIA, Paulo Azevedo não quis avançar se está previsto um investimento futuro no grupo, que neste momento enfrenta dificuldades, dizendo que todos os negócios estão dependentes de leis de concorrência. Ângelo Paupério, co-CEO da Sonae, prefere não se pronunciar sobre rumores, mas estando atento ao mercado, reconhece que a situação atual do DIA “é menos favorável do que no passado”. Ângelo Paupério deixa claro que o caminho da Sonae “é o caminho de quem vai à frente”, e que por isso, o grupo “não tem uma estratégia baseada no crescimento por aquisições ou tomadas de posições noutros operadores”.

“IPO está sempre em cima da mesa”

Ângelo Paupério revisitou esta quinta-feira o tema do falhanço da entrada em bolsa da Sonae MC em outubro do ano passado. O IPO, a oferta pública inicial, ficou pelo caminho e o co-CEO aponta baterias ao mercado, até porque outras entradas em bolsa falharam na mesma altura, “não fomos só nos. Se calhar tivemos o azar de ser no período em que falharam mais por ausência dos investidores no mercado”, disse Paupério. De momento, a Sonae MC não antecipa a colocação de ações em mercado, segundo o co-CEO, que considera ainda que a empresa ficou dotada de um “modelo de funcionamento mais virtuoso”, depois da preparação feita para a entrada em bolsa, dizendo que “o saldo é bastante positivo”.

Contudo, Paupério reitera que “este tipo de operações de mercado deve estar sempre em cima da mesa para este negócio e para os outros. São alternativas que o mercado proporciona, há momentos e há razões que podem levar a isso”. O co-CEO reforça que “O que não está é em exclusivo, ou não está de modo nenhum decidido com algum planeamento que aconteça. O ativo Sonae MC tal como está está melhor preparado para ser parte de qualquer tipo de operação de mercado ou sem ser em mercado, porque está com mais capacidade para ser usado quer como currency, quer como gerador de valor no portfólio da Sonae”.

Sonae destaca “ano muito bom”

“O ano de 2018 foi muito bom para a Sonae”, segundo Ângelo Paupério que anunciou o crescimento de 8% do volume de negócios, para 6 mil milhões de euros “num crescimento significativo”, de acordo com o co-CEO. Os lucros da Sonae subiram 33,7% para 222 milhões em 2018, um ano que o grupo diz ter sido de sucesso, com o reforço da posição de liderança da área de retalho da Sonae MC que cresceu 7%, e que segundo Paupério, “reforçou a liderança de posições em segmentos importantes como a alimentação saudável, saúde e bem-estar, e no setor online, sendo líder destacado no e-commerce alimentar”, na venda de produtos alimentares pela internet. A Worten cresceu 7,6%, e para o co-CEO da Sonae trata-se de “uma empresa que se soube reinventar no mundo do digital”.

A Sonae destaca também a conclusão da operação de combinação de ativos da SportZone e da JD Sprinter, “que conduziu à criação da ISRG e que permitiu a consolidação de um forte operador ibérico, beneficiando de importantes sinergias e cuja integração está já a traduzir-se em resultados muito positivos”.

A rentabilidade melhorou, com a subida de 26,7% do EBITDA total (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) para 483 milhões de euros. A dívida líquida da Sonae situou-se nos 1,317 milhões de euros, “influenciada pela aquisição de 20% da Sonae Sierra (…) e pela consolidação da dívida desta empresa (115 milhões de euros)”. Em 2017 a dívida líquida da Sonae tinha sido de 1,112 milhões de euros.

No futuro, há uma aposta na sustentabilidade e a Sonae tem previsto um projeto de investimento de 110 milhões de euros para reduzir o impacto ambiental da Sonae MC, com financiamento de de 55 milhões de euros do BEI – Banco Europeu de Investimento. Está ainda prevista a colocação no terreno da adesão ao Pacto Internacional do Plástico, “com o compromisso de eliminar a 100% até 2025 na cadeia de produção do Continente todos os plásticos que não sejam reutilizáveis ou recicláveis”, segundo Paulo Azevedo.

Estratégia de internacionalização tem sido difícil

Paulo Azevedo reconhece que, enquanto CEO, “gostava de ter feito mais, sem dúvida” no processo de internacionalização das atividades da Sonae, até porque essa estratégia “é importante a longo prazo” e é um “pilar estratégico, o mais difícil”, mas também “o mais importante, para o crescimento de longo prazo e para a sustentabilidade da Sonae”.

Nestes 30 anos de liderança no grupo, Paulo Azevedo encara a internacionalização como um processo até “penoso” e afirma que “é uma situação mais difícil de ajuizar quer quando os ventos são desfavoráveis, quer pelo mercado, quer por os nossos planos não estarem bem afinados”. A dificuldade da decisão prende-se com o momento em que se escolhe “parar o sofrimento”, ou manter a estratégia pela importância do longo prazo.

Paulo Azevedo reconhece que “teria sido mais útil parar mais cedo, e poupar recursos para avançar com as coisas mais afinadas”. Contudo, o co-CEO destaca a superação da marca de “mil milhões de euros de vendas internacionais agregadas”. E porque a Sonae está em mudança de direção, como salienta Paulo Azevedo, este processo continuará com “as novas equipas que terão ainda mais desafios pela frente para controlar”.

Os novos desafios estão agora entregues a quem se segue e as “as mudanças de liderança surgem porque fazem sentido”, disse Paulo Azevedo, que espera que as novas equipas de liderança “consigam fazer mais e melhor, e diferente”.

A apresentação de resultados da Sonae aconteceu em jeito de despedida para a atual direção, num momento em que Paulo Azevedo e Ângelo Paupério deixam os cargos executivos passando a ocupar lugares não executivos. A passagem de testemunho é feita para Cláudia Azevedo, que deve assumir plenas funções como CEO em abril.