Cinema

“Uma Nação, Um Rei”: a Revolução Francesa em formato “best of” tendencioso

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Pierre Schoeller assina esta grande produção histórica, que peca pela superficialidade didática e por escamotear as atrocidades cometidas durante a revolução. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Desde que o cinema é cinema que a Revolução Francesa lhe tem dado vasto pano para mangas, quer direta, quer indiretamente, e sido filmada dos mais diversos ângulos, desde o épico e coletivo ao mais pessoal e intimista. Ainda no tempo do mudo, por exemplo, há notícia de um filmezinho inglês de 1908 chamado “An Episode of the French Revolution”, tendo sido feito no mesmo ano, em França, “Le Martyre de Louis XVII”. Existe também uma curta-metragem italiana de 1909, “Szene della Rivolutione”, Louis Feuillade assinou, em 1911, “La Révolution Française”, D.W Griffith filmou o melodrama histórico “As Duas Órfãs” em 1921, e a revolução surge também no grandioso “Napoleão” de Abel Gance (1927).

[Veja uma cena de “Napoleão”, de Abel Gance]

O último filme de grande fôlego sobre o tema data de há 30 anos. É “A Revolução Francesa”, uma co-produção entre vários países europeus e o Canadá, dividida em duas partes e com quase seis horas de duração, realizada a meias pelo francês Robert Enrico e pelo americano Richard T. Heffron e com um elenco cheio de atores de peso: de Peter Ustinov a Christopher Lee, de François Cluzet a Jane Seymour ou Klaus Maria Brandauer. Os títulos mais recentes sobre a Revolução Francesa têm adoptado formatos narrativos mais localizados e pontos de vista mais pessoalizados, bem como um tom crítico e desmitificador dos acontecimentos. É o caso de “Sade”, de Benoit Jacquot (2000), “A Inglesa e o Duque”, de Eric Rohmer (2001), “Adeus, Minha Rainha”, do mesmo Jacquot (2011) e até da comédia “Os Visitantes — A Revolução”, de Jean-Marie Poiré (2016).

[Veja uma sequência de “A Revolução Francesa”, de 1989]

Em “Uma Nação, um Rei”, de Pierre Schoeller, que tal como o citado “A Revolução Francesa” de 1989, é balizado pela tomada da Bastilha e pela execução de Luís XVI, regressamos de novo ao conceito do grande fresco cinematográfico sobre a Revolução Francesa. E desta vez com a ênfase posta no ponto de vista da arraia miúda, o “petit peuple”, representada pela família e pelos próximos de um vidreiro (Olivier Gourmet) que vivem perto da Bastilha. Do outro lado estão o rei Luís XVI (Laurent Laffite) e vários dos protagonistas principais da revolução, de Robespierre (Louis Garrel) a Danton (Dominique Lavant), com muito, muito povo anónimo a circular pelo meio: a ficção cosida com a recriação histórica.

[Veja o “trailer” de “Uma Nação, um Rei”]

Mas “Uma Nação, um Rei” tem mais olhos que barriga. Quanto mais acontecimentos, subenredos e emoções quer abranger e registar, mais episódico, superficial e convencional se torna, reduzindo quase tudo a estenografia dramática e visual, a um simbolismo óbvio (o aparecimento do sol quando começam a derrubar pedras das muralhas da Bastilha) e a um didatismo demonstrativo, que se limita praticamente a contemplar os momentos-chave dos acontecimentos, qual “best of” da revolução. E apesar de constar no título do filme, Luís XVI pouco mais é do que um esboço de personagem. Há muito mais nação do que rei aqui. As melhores sequências são as ambientadas na Assembleia Nacional, onde o realizador foi buscar aos arquivos os discursos e declarações de voto originais dos deputados, e os pôs nas bocas dos respetivos atores.

[Veja uma entrevista com o realizador Pierre Schoeller]

O pior do filme, é a forma como Pierre Schoeller pura e simplesmente omite os muitos desmandos e atrocidades cometidos durante a revolução, diluindo o sangrento período do Terror no grande caldo da agitação popular e dos debates políticos, e deixando em branco, por exemplo, as várias barbaridades perpetradas pelos “sans-culottes”. Os milhares de mortos e todo o sangue que correu em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, desmentindo e traindo os princípios da recém-proclamada Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, parecem não existir para Schoeller, ou ser um mero e inevitável detalhe. É uma visão chapadamente unilateral e tendenciosa da Revolução Francesa, também ela uma realidade demasiado grande, atarefada e complexa para poder ser sintetizada, explicada e abrangida por um filme disperso e parcial como este.

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