Muito haveria para dizer sobre este Portugal-Ucrânia. Desde o regresso de Cristiano Ronaldo à Seleção Nacional, já que não jogava desde o Mundial; passando pelas estreias de João Félix, Dyego Sousa e Diogo Jota na convocatória; e até se poderia puxar por Andriy Shevchenko, selecionador nacional ucraniano e antigo jogador de AC Milan e Chelsea e Bola de Ouro em 2004. O importante para a maioria dos portugueses, porém, não era nada disto. Pela primeira vez na história — uma história longa que para Portugal começou em 1966, quando participou pela primeira vez numa grande competição de seleções –, a Seleção Nacional entrava num jogo enquanto detentora do título em questão. Pela primeira vez na história, a Seleção Nacional defendia um título. E, pela primeira vez na história, Portugal podia afastar a ideia de teórico favoritismo para assumir um favoritismo real e comprovado na final de 10 de julho de 2016.

Fernando Santos chamou 25 jogadores para o duplo compromisso contra a Ucrânia e a Sérvia e deixou de fora 10 dos campeões europeus: incluindo Quaresma, Nani, Adrien e Cédric. Cristiano Ronaldo regressou à seleção nove meses depois, já que a última vez que tinha jogado por Portugal tinha sido nos oitavos de final do Mundial da Rússia e João Félix, Dyego Sousa e Diogo Jota, três homens de ataque, estrearam-se nas convocatórias. A Seleção Nacional chegava ao primeiro jogo do apuramento para o Euro 2020 depois de ter garantido a presença na final four da Liga das Nações, a disputar em junho, mas a verdade é que os últimos dois encontros oficiais de Portugal terminaram com um empate (Itália, 0-0, e Polónia, 1-1). Depois disso, venceu ainda um particular com a Escócia (1-3) — mas era necessário regressar às vitórias em jogos a contar para não escorregar logo na primeira jornada da qualificação.

E Fernando Santos mostrou isso mesmo na hora de escolher o onze inicial. Com muitas opções ofensivas e várias vertentes aplicáveis ao meio-campo, o selecionador nacional optou por aquele que será, atualmente, o trio mais forte da seleção portuguesa: Cristiano Ronaldo e Bernardo Silva mais encostados às alas e André Silva no meio, enquanto elemento mais adiantado. No meio-campo, Rúben Neves era titular logo a seguir ao quarteto defensivo e João Moutinho e William Carvalho abriam espaço à criatividade no setor intermédio. Mais atrás, João Cancelo era o dono da direita da defesa, Raphael Guerreiro era titular na esquerda e Rúben Dias fazia dupla de centrais com Pepe. Tudo resumido, um 4x3x3 muito forte nos últimos 30 metros mas muito comedido nas transições entre o meio-campo e o ataque.

O início do jogo foi algo morno, com ambas as equipas a explorarem a forma como uma e outra iriam jogar. Portugal ia surpreendendo apenas pelo facto de os quatro defesas estarem a jogar muito subidos no terreno, enquanto primeira fase da construção ofensiva, algo que não costuma acontecer nos esquemas montados por Fernando Santos. Cancelo, que sobe no corredor de forma natural, e Raphael Guerreiro, que tem um entendimento acima da média com Cristiano Ronaldo, apareciam diversas vezes já bem para lá da linha do meio-campo e obrigavam Moutinho e William, de um lado e outro, a fazer a dobra na ala. A Seleção Nacional mostrava algumas dificuldades em atacar pela faixa central, já que a Ucrânia apresentava muita densidade nas linhas à frente da grande área, e o meio-campo português era obrigado a lateralizar e procurar alternativas mais junto ao corredor.

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Ficha de jogo

Portugal-Ucrânia, 0-0

Qualificação para o Campeonato da Europa 2020

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Clément Turpin (França)

Portugal: Rui Patrício, João Cancelo, Pepe, Rúben Dias, Raphaël Guerreiro, Rúben Neves (Rafa, 62′), João Moutinho (João Mário, 86′), William, Cristiano Ronaldo, André Silva (Dyego Sousa, 73′), Bernardo Silva

Suplentes não utilizados: José Sá, Beto, José Fonte, Danilo, João Félix, Diogo Jota, Mário Rui, Pizzi, Semedo

Treinador: Fernando Santos

Ucrânia: Pyatov, Karavaev, Kryvtsov, Matviyenko, Mykolenko, Stepanenko, Marlos (Tsygankov, 67′), Malinnovskyi, Zinchenko, Konoplyanka (Buyalskiy, 87′), Yaremchuk (Júnior Moraes, 77′)

Suplentes não utilizados: Boyko, Lunin, Butko, Sobol, Burda, Shaparenko, Kravets, Sydorchuk, Bezus

Treinador: Andriy Shevchenko

Golos: nada a registar

Ação disciplinar: cartão amarelo a Stepanenko (86′)

Foi assim que surgiu o golo de William Carvalho, que acabou por ser anulado por fora de jogo do médio do Betis. Rúben Neves tirou um cruzamento largo à procura de alguém ao segundo poste e William cabeceou para a baliza ucraniana, mas estava em posição irregular (17′). Na jogada anterior, Pepe tinha provocado o primeiro calafrio a Pyatov com um remate em modo vólei depois de um mau alívio da defesa ucraniana no seguimento de um canto (16′). Portugal procurava o perigo a partir das alas e foi assim que Cristiano Ronaldo ficou muito perto de inaugurar o marcador — duas vezes no espaço de cinco minutos. Raphael Guerreiro não desistia dos passes verticais à procura da velocidade e do critério do capitão e Ronaldo quase marcou em lances semelhantes, a partir do corredor para o interior e a rematar rasteiro para duas boas defesas de Pyatov. O avançado da Juventus, que nem sequer realizou um grande arranque, foi de forma natural o elemento mais perigoso da equipa portuguesa (numa primeira parte em que Bernardo Silva e André Silva estiveram surpreendentemente discretos).

Portugal e Ucrânia iam para o intervalo sem golos e a Seleção Nacional precisava de procurar alternativas à lateralização do jogo e à procura do espaço nas costas da defesa ucraniana já que, claramente, nem uma nem outra estratégia estava a funcionar. A partida parecia algo bloqueada para a equipa portuguesa e prova disso eram os números de William Carvalho ao intervalo: o médio ex-Sporting, co-responsável pela ligação entre meio-campo e ataque, terminou o primeiro tempo com 25 passes completos e apenas dois desses foram verticais.

Nos instantes iniciais da segunda parte, a linha mais adiantada da Ucrânia começou a jogar mais perto da defensiva portuguesa; Zinchenko, Konoplyanka e Yaremchuk avançaram no terreno e empurraram Rúben Dias e Pepe para trás, provocando uma certa desconexão com o meio-campo e desligando a possibilidade de construção. A maior pressão ucraniana durou, contudo, cinco minutos. Portugal soube reagir e obrigar a seleção da Ucrânia a recuar, passando a jogar totalmente instalada no meio-campo adversário. André Silva redimiu-se da primeira parte mais apagada e foi o responsável por duas oportunidades de golo, para duas grandes defesas de Pyatov, e Fernando Santos procurou apostar na dupla Silva-Ronaldo que tantos estragos fez na fase de grupos da Liga das Nações. O selecionador nacional mudou o sistema tático, de 4x3x3 para 4x4x2, lançou Rafa e tirou Rúben Neves: William e Moutinho recuaram e faziam dupla no meio-campo, Rafa foi para o corredor esquerdo, Bernardo para o direito e Ronaldo juntou-se a André Silva no ataque.

A mudança trouxe poucos resultados palpáveis e Fernando Santos não demorou muito até estrear Dyego Sousa, substituindo André Silva. A Ucrânia, que aos 80 minutos não rematava desde o minuto 21, ia obrigando Portugal a um jogo de paciência, rendilhado, à volta do meio-campo e à procura de linhas de passe verticais que teimavam em não aparecer. No último quarto de hora, fruto do cansaço físico e do desgaste de um encontro passado a trocar a bola para os lados e não para a frente, a Seleção Nacional mostrava incapacidade em pressionar alto de forma eficaz e acabou por permitir um lance muito perigoso à Ucrânia, onde valeu o desacerto de Júnior Moraes. A equipa portuguesa nunca conseguiu superar a organizada armada ucraniana e encontrou em Pyatov um adversário à altura que parou todas as tentativas de Ronaldo, Dyego Sousa, André Silva e companhia.

Portugal somou o terceiro empate consecutivo em jogos oficiais e escorregou na primeira jornada do apuramento para um Europeu ou Mundial pela terceira vez seguida — depois da derrota com a Suíça na qualificação para o Mundial 2018 e da derrota com a Albânia antes do Euro 2016. Notas positivas, num jogo de claro ascendente português que a seleção de Fernando Santos nunca conseguiu transformar em óbvios desequilíbrios, só mesmo a estreia de Dyego Sousa, que entrou com fome de golo e ainda ficou a pedir uma grande penalidade já no período de descontos. Sempre muito denunciado, sempre muito previsível, sempre muito lento, Portugal deixou fugir a primeira vitória da qualificação e terá de se aplicar nos restantes jogos. O próximo é já segunda-feira, com a Sérvia de Luka Jovic e Nemanja Matic.