É a primeira vez desde 2014 que se inverte a tendência: em 2018 houve uma quebra no número de transplantes realizados em Portugal. No total, foram feitos 289, menos 66 do que no ano anterior. A explicar esta diminuição está o envelhecimento dos dadores, o serem em menor número, mas também o surgimento de alternativas médicas ao transplante. Apesar disso, no final de dezembro passado havia mais de dois mil portugueses (2186) à espera de um órgão para transplante. A notícia é avançada pelo JN.

O rim e o fígado foram os órgãos que registaram maior quebra, segundo dados do Instituto do Sangue e da Transplantação, que serão divulgados esta segunda-feira. Em cada um dos casos houve menos 27 transplantes, embora sejam estes os órgãos que mais portugueses precisam. Para o rim estão em lista de espera 1968 utentes e para o fígado 113.

Para Ana França, coordenadora nacional de transplantação, esta diminuição era esperada. “A grande maioria dos dadores tem mais de 70 anos”, disse, citada pelo JN, explicando que isso faz com que na altura do transplante haja menor número de órgãos a poder ser aproveitados. Por outro lado, houve também uma diminuição nos números globais de dadores, que caíram de 34,01 para 33,6 por milhão de habitantes.

Para a quebra do número de transplantes, há ainda um outro fator explicativo: o sucesso dos tratamentos para a hepatite C e o surgimento de um tratamento para a paramiloidose (doença dos pezinhos) que levou à diminuição dos transplantes de fígado.

O estudo foi esta segunda-feira divulgado no Centro de Sangue e Transplantação de Coimbra. Na apresentação, a responsável salientou também que no ano passado o tempo de espera para um doente ser transplantado diminuiu 3% e o que número de óbitos de doentes à espera de transplante diminuiu 2,9%, o que considerou “um dos valores mais baixos a nível internacional”.

A ministra da Saúde, Marta Temido, que participou na sessão, sublinhou que “os resultados apresentados mostram bem que Portugal continua a ter uma posição cimeira relativamente à transplantação. Vale a pena sublinhar que Portugal continua a ser o segundo país com melhores resultados nesta área”.

Relativamente às causas da diminuição no número de transplantes, Marta Temido disse que o país não deixa de se “ressentir daquilo que é a tendência generalizada para o envelhecimento da população e, portanto, de alguma forma, de dadores com mais idade e menor possibilidade de doação”.

Por outro lado, também se regista alguma evolução terapêutica em algumas áreas, como a hepatite C ou mesmo a paramidoilose, que têm conduzido a uma menor necessidade [de transplantação], e estas serão as duas prováveis causas para estes números”, referiu.

“Existem novos desafios, novas possibilidades de transplantação, novas técnicas, novas realidades, e é isso que temos de adotar se queremos continuar na vanguarda e a salvar vidas graças a estes progressos”, adiantou.

A ministra da Saúde disse ainda que merece “atenção e reflexão” o diferente desempenho dos vários hospitais integrados no Serviço Nacional de Saúde relativamente aos seus resultados de doação de órgãos. “Não deixa de motivar a maior reflexão, verificarmos que, por exemplo, os hospitais mais de fim de linha, como os universitários, tenham resultados muito assimétricos”, sublinhou.