Há quem diga que foi por falta de sorte. Outros que foi por excesso de zelo ou falta de visão. E há quem admita a falta de talento. Os motivos são muitos, mas o resultado é o mesmo: tomaram a pior decisão possível no dia errado, à hora errada, diz o El País. Estas são as histórias de quem participou em projetos históricos — alguns até os fundaram –, mas que acabou por abandoná-los, por não lhes reconhecer valor. Desde a Apple, passando pelo Facebook ou por Star Trek, houve mesmo quem não aguentasse a pressão e acabasse por pôr fim à vida.

Joe Green (assinalado) com Mark Zuckerberg (à esquerda) nos tempos de Harvard.

Joe Green: o provável parceiro de Zuckerberg que preferiu ser leal ao pai

Estávamos em 2003 e era Joe Green companheiro de quarto do franzino Mark Zuckerberg, algures num dormitório da universidade de Harvard, nos Estados Unidos da América. Eram ambos talentosos e partilhavam a paixão por computadores e programação. Nesse mesmo ano, nascia o primeiro “filho” da dupla: o site Facemash. Tratava-se de uma rede social fechada apenas aos alunos da universidade e na qual se avaliava a beleza de cada aluno de Harvard, através de fotos da cara de cada um. O projeto não correu como esperado.

A direção da universidade soube da iniciativa e ameaçou suspender Zuckerberg e Green, que tiveram de eliminar o site. Mas nem isso os demoveu. Tinham de arranjar outro projeto e Green sabia qual era o ideal: uma rede social centrada na política. Zuckerberg achava ter uma ideia melhor. Essa mesmo, o atual Facebook. Joe Green concordou e esteve para embarcar na ideia, mas… o pai pediu-lhe que se afastasse de Zuckerberg depois da primeira experiência perigosa, recomendando ao filho que seguisse a carreira política. Green aceitou.

Mark Zuckerberg acabou por avançar para o Facebook sem o seu colega de quarto. Ainda lhe ofereceu uma percentagem do projeto — percentagens essas que valeriam agora milhões de dólares –, mas Green recusou sempre. Apesar disso, a vida acabou por não lhe correr mal: seguiu a carreira política, participando na campanha eleitoral do democrata John Kerry das presidenciais americanas de 2004 e, depois, até deu uma “perninha” ao projeto do amigo: Green cofundou a iniciativa Causes, uma plataforma solidária online, que foi uma das primeiras 10 aplicações da história do Facebook.

Jeffrey Hunter foi o primeiro Capitão Pike de Star Trek. Acabou por recusar a continuação do papel.

Jeffrey Hunter: entre a esposa e o estrelato espacial, ele escolheu a esposa (por pouco tempo)

Em 1966, tudo corria bem na vida de Jeffrey Hunter: cumpria o seu sonho de ser ator de televisão e cinema; interpretara Jesus Cristo em O Rei dos Reis — naquela que é considerada a melhor representação cinematográfica do profeta; conseguira o papel de capitão da lendária Enterprise em Star Trek; e tinha um casamento feliz.

Depois de conseguir o papel de Christopher Pike, capitão da nave Enterprise no episódio piloto de Star Trek, terá sido a sua esposa, Joan Bartlett, a convencer Jeffrey para desistir da “aventura espacial”. Para Joan, a série era “horrível e fraca” e não suficientemente grande para as aspirações de Hunter. Quando o canal NBC convidou o ator para um novo episódio, Jeffrey “bateu com a porta” e recusou. A sua personagem acabaria por ser transformada no Capitão James T. Kirk, representado então por William Shatner, que o fez durante três temporadas e 80 episódios, tornando-se um ícone da cultura pop.

Uma prova de amor de Jeffrey, mas… por pouco tempo. Apenas um ano depois de recusar o papel, o ator divorciou-se de Joan Bartlett, depois de um casamento de 10 anos. Acabou por começar a viver uma vida de dependências e de abusos de álcool, perdendo tudo. Em 1969 acabaria encontrado em casa sem vida. As causas da morte foram atribuídas a uma queda, mas a sua enteada defendeu que teria sido assassinado.

Ronald Wayne: co-fundou a Apple, mas… 800€ dão sempre jeito

Um exemplo claro da resiliência que se deve ter quando se monta uma empresa. Ronald Wayne não a teve, mas as justificações são plausíveis. Já lá vamos. Por agora viajemos até abril de 1976. Wayne junta-se a dois homens, de seus nomes Steve Jobs e Steve Wozniak. Os nomes não lhe são estranhos, pois não? Fundaram nessa altura, os três, a famosa Apple. Até foi Ronald quem desenhou o primeiro logótipo da empresa e que escreveu o manual da Apple I. Tudo parecia bem encaminhado, até que Ronald Wayne decidiu sair.

A moeda de troca? Vendeu os 10% por… 800 dólares. Hoje, 10% da Apple valeriam cerca de 88 mil milhões de dólares. Wayne já falou várias vezes sobre o assunto — aliás, ficou famoso por este motivo — e diz que não está arrependido pelo sucedido. Na sua autobiografia, “Aventuras de Um Fundador da Apple”, Wayne diz que a sua idade e experiência de vida pesaram. Na altura, Wayne tinha já 40 anos e vinha de uma série de investimentos fracassados. Quando viu Steve Jobs a pedir um empréstimo de 15 mil dólares hesitou sobre o potencial do projeto e acabou por sair.

Hoje vive em Las Vegas, dedica-se ao colecionismo e à filatelia e vive apenas com rendimentos provenientes da segurança social.

Roy Raymond: da ideia inovadora à triste morte

Em 1977, Roy Raymond decidiu reinventar a forma como as peças de roupa interior femininas eram vendidas. Montou uma pequena loja em Palo Alto, na Califórnia. O conceito era apostar num espaço semelhante a uma mercearia e muito virado para o público masculino. Foi assim que nasceu a Victoria’s Secret. Passados cinco anos, o projeto estava a descolar para altos voos. Tão altos que em 1982 o empresário têxtil Leslie Wexler lhe ofereceu 1 milhão de euros para comprar o conceito e a marca. Roy aceitou. E foi a partir daí que a Victoria’s Secret chegou ao céu. Sem Roy.

A empresa faturou e — ao contrário de Wayne com a Apple — Raymond sempre demonstrou grandes ressentimentos para com a decisão tomada. Todos os seus negócios seguintes fracassaram. Acabaria, depois, por divorciar-se da mulher. Em 1993, subiu à ponte Golden State, em São Francisco e atirou-se ao mar. Suicidou-se. Tinha 46 anos.