A pergunta causou estranheza e faz levantar suspeitas sobre uma possível demissão de Theresa May a breve trecho, segundo avançou o jornal britânico The Guardian. Numa reunião que juntou a primeira-ministra a Boris Johnson, Iain Duncan Smith, o antigo negociador para o Brexit, Dominic Raab, e outras figuras importantes do Partido Conservador e do seu governo, elementos da equipa de May terão perguntado aos defensores do Brexit, que se opõem ao acordo de saída por ela proposto, se o aprovariam em caso de demissão da primeira-ministra.

O encontro decorreu no retiro de campo da primeira-ministra britânica, numa altura em que se mantém o impasse quanto à anunciada e votada (em referendo) saída do Reino Unido da União Europeia. Face à ausência de apoio à sua proposta de acordo para o Brexit, Theresa May cedeu recentemente o controlo das negociações para o parlamento britânico. A decisão é vista por alguns analistas internacionais com bons olhos, na medida em que poderá ser um “passo na direção certa” (como referiu um economista do Bereberg Bank) para que uma maioria de parlamentares chegue finalmente a consenso sobre as condições de saída do país da UE. Ao mesmo tempo, é uma decisão que parece fragilizar ainda mais a posição de Theresa May, que tem sido cada vez mais contestada pela incapacidade de fazer passar no parlamento o seu acordo para o Brexit.

Este fim de semana, a imprensa britânica já tinha avançado que haveria uma rebelião em curso no interior do governo de Theresa May, dando conta de uma “sequência frenética” de telefonemas entre vários ministros na noite de sábado, que ter-se-ão mostrado “completamente unânimes” quanto à necessidade de substituir a figura “tóxica” da primeira-ministra.

Novo encontro, novas movimentações com vista à saída

Se no fim de semana houve conversas sobre uma eventual saída de Theresa May, vindas do interior do seu governo, por telefone, a ideia terá sido reforçada pela sua equipa de gabinete em forma de pergunta. No retiro de campo da primeira-ministra, estiveram defensores de uma saída “dura” do Reino Unido da União Europeia, isto é, de uma saída sem acordo, com abandono não apenas da UE mas também do mercado único e das regras estabelecidas para trocas comerciais. Estes opositores terão sido questionados sobre se aprovariam o acordo desenhado para o Brexit em caso de saída da primeira-ministra.

O encontro terá sido “cuidadosamente coreografado” para que Boris Johnson, Ian Duncan Smith, Jacob Rees-Mogg e “outros rebeldes” conservadores tivessem “conversas cara a cara” com elementos da equipa de Theresa May durante os intervalos da reunião, escreve o The Guardian. Uma fonte presente expressou a sua estranheza ao jornal britânico: “Não pareceu uma coincidência; elementos da equipa e assessores como estes à partida não costumam pensar por si próprios”.

Durante o encontro, que terá durado três horas, Theresa May não terá falado nunca numa possível demissão. Esta ter-lhe-á sido apresentada como possibilidade pelo menos por Jacob Rees-Mogg. Algumas relatos apontam para que também Duncan Smith tenha mencionado a possibilidade durante o encontro. Theresa May, contudo, não respondeu diretamente a estas sugestões e o encontro terá mesmo terminado “de forma inconclusiva, sem quaisquer avanços de relevo” para o impasse.

No encontro estiveram ainda o vice-presidente do grupo de conservadores European Research Group, Steve Baker, o “aliado e antigo elemento do governo de Theresa May, Damian Green”, outras figuras do seu executivo como David Lidington, Michael Gove e Julian Smith e o chefe de gabinete da primeira-ministra, Gabin Barwell, que terá liderado o grupo dos seus colaboradores que falou numa possível saída.

Durante a reunião, Dominic Raab ter-se-á mantido “relativamente silencioso, deixando a sua posição pouco clara”. Jacob Rees-Mogg e Duncan Smith, contudo, estariam na disposição de “apoiar o acordo de May se encontrassem uma justificação apropriada”, refere o The Guardian, citando fontes governamentais. Já depois do encontro, Rees-Mogg afirmou publicamente que estaria na disposição de apoiar o acordo de May caso a alternativa fosse o adiamento ou cancelamento do Brexit.