Em 1955, Agnès Varda realizou o seu primeiro filme, a curta-metragem “La Pointe Courte”, que seria apontado como uma manifestação cinematográfica do Nouveau Roman e um precursor da Nova Vaga francesa. Na sua morte, aos 90 anos, Varda, nascida na Bélgica e viúva de Jacques Demy, tem sido referida, inevitavelmente, pelos media, como uma figura dessa Nova Vaga e a sua única representante feminina (foi ainda uma das raras mulheres realizadoras do cinema francês nos anos 60, juntamente com Nelly Kaplan). A verdade é que a autora de “Os Respigadores e a Respigadora” era demasiado individualista e idiossincrática para ser fechada num movimento ou reduzida a ele. Se há alguma coisa que lhe podemos chamar, é uma Nova Vaga de si mesma, uma escola cinematográfica de uma só pessoa. E lembremos que antes de se iniciar no cinema, ela já tinha uma assinalável carreira como fotógrafa.

[Veja um excerto de “La Pointe Courte”]

Em 1951, Agnès Varda era a fotógrafa oficial do Festival de Teatro de Avignon, convidada pelo seu diretor, Jean Vilar, e também do Théatre Nacional Populaire, dirigido pelo mesmo Vilar. Em 1956, quando esteve em Portugal, Varda tirou, na Póvoa do Varzim, uma conhecida foto, onde uma mulher de um pescador, descalça e vestida de negro, passa junto a uma parede onde se vê, meio rasgado, um cartaz de um filme com Sophia Loren. A fotografia nunca deixou de se manifestar nos seus filmes, como é o caso de “Salut les Cubains” (1971), uma montagem de fotos tiradas durante uma visita à Cuba castrista em 1963 (radical na arte, Varda, mulher de esquerda e feminista de matriz ideológica francesa dos anos 60, também o foi na política e na vida), ou no recente “Olhares Lugares” (2017), co-realizado com o fotógrafo e “graffiter” JR.

[Veja o “trailer” de “Olhares Lugares”]

https://youtu.be/jc2dU9-fves

Toda a obra de Agnès Varda é feita sob o signo do derrube de barreiras e da livre circulação, associação e coexistência artística e estética. Entre o documentário e a ficção, entre a fotografia, o cinema e as artes plásticas (a que também se dedicava nestes últimos anos, nomeadamente com instalações ligadas à fotografia e aos cinema), entre formatos e géneros cinematográficos, entre o objetivo e o subjetivo, entre o íntimo e o coletivo. É essa ativíssima e riquíssima subjetividade que encontramos expressa em muitos dos seus filmes, caso dos documentários nos quais Varda fala da sua vida presente e passada, e vai buscar memórias íntimas e familiares, e gostos pessoais, relacionando-os com situações, objetos ou pessoas que encontra nas suas deambulações, como acontece em “Os Respigadores e a Respigadora” (2000), “As Praias de Agnès” (2008), no citado “Olhares Lugares” ou no seu derradeiro trabalho, “Varda par Agnès-Causerie” (2019).

[Veja o “trailer” de “Os Respigadores e a Respigadora”]

Além destes, outros dos seus melhores filmes são “Duas Horas na Vida de uma Mulher” (1962), com Corinne Marchand no papel de uma cantora que vagueia por Paris enquanto espera pelos testes médicos que lhe dirão se tem cancro ou não (Varda chamava à fita “um documentário subjetivo”); “A Felicidade” (1965), sobre um homem que tem uma vida feliz com a mulher que ama e dois filhos, mas arranja uma amante, que também adora; “Mur Murs” (1981), centrado nos murais e na “cultura de rua” de Los Angeles; o magnífico, cru e anti-sentimental “Sem Eira nem Beira” (1985), com Sandrine Bonnaire numa adolescente, Mona. que vagabundeia pela França rural e acaba por morrer na estrada, história contada em “flashback”, de fundo social mas sem pinga de discurso “sociológico”; “Jane B. par Agnès V.”, uma docu-fantasia experimental sobre e com Jane Birkin (1985); ou o comovente e delicado “Jacquot de Nantes” (1991), onde a realizadora encena a infância e a juventude do seu falecido e amado marido Jacques Demy.

[Veja o “trailer” de “Duas Horas na Vida de uma Mulher”]

Do seu trabalho como fotógrafa para o ator e encenador Jean Vilar, Agnès Varda disse ter aprendido que a arte podia ser ao mesmo tempo exigente e acessível, e que era isso que a tinha guiado como artista: “Atingir o maior número de pessoas mantendo sempre a fasquia muito alta”, assim como “fazer sempre algo novo”. E conseguiu-o, em mais de 60 anos a rodar filmes e a trabalhar com a imagem em várias das suas formas, numa obra que é um imenso, caleidoscópico e pessoalíssimo roteiro de histórias, sentimentos, causas, pessoas e lugares, emoções, associações e opiniões, encontros, memórias e experiências. Muitas experiências.

[Veja o “trailer” de “Sem Eira nem Beira”]

[“As Praias de Agnès” é exibido no domingo, dia 31, às 19.00, numa sessão especial no Cinema Ideal, em Lisboa. A entrada é gratuita. O último filme da realizadora, “Varda par Agnès-Causerie”, estreia-se a 30 Maio, o seu dia de aniversário]