Crítica de Livros

Agustina sem sabor

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Isabel Rio Novo estudou muito, esforçou-se, e isso é de admirar; mas esforçou-se como hagiógrafa e criou uma boa obra de devoção, uma espécie de antologia líquida das melhores páginas de Agustina.

Pastoral da cultura

Autor
  • Carlos Maria Bobone

Título: “O Poço e a Estrada”
Autora: Isabel Rio Novo
Editora: Contraponto
Páginas: 503

O aparato impressiona. Um bloco pesado, cem páginas de notas, um índice onomástico de fazer inveja a muitas listas telefónicas, uma longa página de agradecimentos, a fazer lembrar os testamentos dos grandes homens e meio milhar de páginas escritas. E a autora, de facto, esforçou-se: ouviu meio mundo, leu jornais regionais e folhetins quase desconhecidos, foi um competente cão de fila da sua biografada. Aquilo que se podia estudar, Isabel Rio Novo estudou. Aquilo que se tinha de perceber, não temos tanta certeza que o tenha percebido.

A biografia de Agustina conta-se em três linhas: saltitou pelo Norte ao sabor dos negócios do pai, encontrou marido por um anúncio de jornal, e escreveu. Que Agustina tenha feito destas três linhas matéria para uma grande obra, conseguimos percebê-lo: é também nisso que consiste o génio do escritor. Que a biógrafa parta dessas três linhas para meio milhar de páginas já oferece mais alguns problemas.

O primeiro passa pela quantidade de páginas em que a biógrafa faz as vezes de aprendiz. Toma os olhos da escritora e lança-nos as suas próprias descrições poetizadas da paisagem: “Nos pinhais instalavam-se os campistas. Pela avenida, passava o comboio-brinquedo, com o seu toldo vitoriano. Na farmácia, aviavam-se a manteiga de cacau e os linimentos para as primeiras queimaduras solares. Nas noites em que o calor abrasava, subia do rio um hálito de vasa, que eu própria senti”. Ou, na forma manhosa de não-vou-dizer-aquilo-que-estou-a-dizer: “Se esta biografia fosse um filme (…) talvez eu cedesse à tentação de terminar este capítulo (…) representando um dia típico na vida resguardada e silenciosa de Agustina. Mostraria a escritora a acordar de manhã, a escolher a roupa que iria vestir, a compor o apanhado dos cabelos com a ajuda da senhora que desde a morte de Alberto Luís permanece na sua companhia, a descer, devagarinho, à sala (…)”. Note-se que, de acordo com o que a biógrafa nunca deixa passar, lhe foi vetada a assistência a estes dias de Agustina. Logo, efabula dizendo que não o faz, ora com a segurança do que é comum à humanidade inteira – levantar-se, escolher a roupa – ora com estes arrojos miúdos, de imaginar os passos lentos, o apanhar do cabelo”.

Dirá o leitor benevolente que são episódios sem importância. No entanto, é precisamente disso que nos queixamos: é da quantidade de coisas sem importância que enchem esta biografia. Enquanto escrevo, procuro no índice o nome da filha de Agustina, para ilustrar a quantidade de vezes em que é dito e repetido que a filha não era, ou continuava a não ser, grande aluna (não a encontro no índice onomástico, como não encontro o marido, Alberto Luís. Pelos vistos é mais uma comissão de honra do que um índice). O livro está cheio de historietas, descrições de paisagens, sentimentos, que por vezes conseguem ser interessantes, sim; no entanto, são interessantes pelo que Agustina disse ou escreveu sobre eles, não são interessantes por si próprios.

Ao escrever uma biografia de um escritor, o biógrafo tem uma tarefa complicada nas mãos. Isto porque, habitualmente, o grosso da vida foi passada a escrever. O importante não é a vida, são os livros, e esses já foram escritos pelo escritor. Ora, o que o biógrafo pode fazer, de facto, é repassar a vida para ver que episódios tiveram importância no escritor, ou qual a genealogia das suas ideias. Com este livro, no entanto, são menos as vezes em que acontece isto do que as vezes em que acontece o contrário: é vulgar vermos os livros de Agustina citados para compor a sua vida, como se o interessante fosse a vida e não os livros.

Claro que há um ponto de contacto, mas são as figuras da sua vida que nos são descritas pelas personagens de Agustina, e não o contrário. A biografia não tem força própria, toda a força que tem vem da biografada. Isabel Rio Novo admira Agustina, mas não se consegue libertar dela. A interpretação que faz da infância é aquela – decerto exagerada na sua lucidez infantil — que a própria Agustina nos dá e os livros acabam, assim, por estar ao serviço da biografia, e não o contrário. A pouca exegese que há reduz a obra de Agustina a ambientes, lugares, e a vagas menções sobre a complexidade da natureza humana.

Isabel Rio Novo estudou muito, esforçou-se, e isso é de admirar; mas esforçou-se como hagiógrafa e criou uma boa obra de devoção, uma espécie de antologia líquida das melhores páginas de Agustina.

Há momentos, é certo, em que Isabel Rio Novo se afasta da autora. Isto porque Isabel Rio Novo tem por Agustina um fascínio que Agustina não tem por si própria. Então, ao mesmo tempo que reconhece o pouco crédito que Agustina dava ao meio literário, Isabel Rio Novo parece fascinada com as ligações que Agustina tinha ao mundo das letras. O efeito é, em tudo, contrário ao pretendido: se as conversas com Régio ou a correspondência com Ferreira de Castro nos deviam dar a ideia de uma mulher que lida com as grandes mentes, o que resulta é a ideia de uma biografia abafada, a procurar constantemente, em cada episódio, a presença de pessoas conhecidas. Se está na Póvoa, lidou com Régio, se está no Porto, era visitada por Arnaldo Saraiva, se não sabemos onde está, escreve a Sophia de Mello Breyner. O desejo de encontrar o meio literário por todo o lado seria o lado mais negro desta biografia, se não fosse a presença de outro elemento que nos parece absurdo.

Isabel Rio Novo decidiu fazer-se notar na biografia de Agustina. Em momento nenhum nos esquecemos de que há uma biógrafa, porque a biógrafa faz questão de ir entrando na narrativa. Se a família de Agustina tinha casa na Régua, Isabel Rio Novo conta-nos, a meio da narrativa, que “Fiz a viagem à Régua, claro”. Ou, mais no princípio, solene e de gosto duvidoso “Preparava-me para começar a escrita do meu quarto romance quando me foi confiada essa missão. Chamar Agustina”. Isabel Rio Novo entra sempre com este tom sagrado, de alguém que foi chamado a trazer-nos Agustina, e vai-nos contando das dificuldades que tem em percebê-la ou das visitas que fez aos lugares. O tom até poderia ser vaidoso, como se Agustina tivesse de se justificar à biógrafa, como se fosse um par da autora, caso não soubéssemos da modéstia da autora. Afinal, logo no princípio, a biógrafa esclarece-nos: “Acedi a bibliotecas e arquivos. Examinei espólios. Recolhi imagens, cartas, certidões. Documentei-me na imprensa”. Ora, quem acha digno de nota fazer aquilo que se faz em qualquer trabalho de investigação, esperava muito pouco de si própria.

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