Dizer simplesmente que Bruno Fernandes fez este sábado, durante o seu centésimo jogo com a camisola do Sporting, aquilo que tem mostrado, este ano, saber fazer tão bem — colocar a bola dentro de uma baliza que seja defendida por um guarda-redes de uma equipa que não a sua — seria simplista. Os números são tão impressionantes quanto complexos e dão pano para mangas. Pode-se começar por dizer, por exemplo, que Bruno Fernandes é o único médio na luta atual pelo prémio de melhor marcador do campeonato português — tem 14 golos, os mesmos que os pontas-de-lança Dyego Souza e Bas Dost e apenas menos dois do que o goleador suíço do Benfica, Seferovic. Também é possível dizer que há 16 anos que o Sporting não tinha um futebolista português a marcar, pelo menos, 25 golos numa temporada, em todas as competições (excluindo Liedson, que, quando os marcou, ainda não tinha adquirido nacionalidade portuguesa). Antes de Bruno Fernandes, esse futebolista era era Jorge Cadete e era, claro, ponta-de-lança.

Outros dado a reter: em toda a história do clube, fundado há mais de 100 anos, não são assim tantos os jogadores portugueses que marcaram tantos golos ou mais do que aqueles que Bruno Fernandes já apontou em 2018/2019. Jordão e Manuel Fernandes marcaram-nos, claro. Peyroteo também, obviamente. Cadete e Fernando Gomes, igualmente. E ainda Vasques, Jesus Correia, João Cruz, Figueiredo, Lourenço, Pireza e Manuel Soeira. Este século, o médio e atual capitão do Sporting é somente o sexto a atingir a marca de 25 golos ou mais numa temporada, o que diz muito sobre as suas capacidades e diz muito sobre o jejum de campeonatos conquistados pelo clube de Alvalade nestas duas décadas (não vence nenhum desde 2001/2002). Os outros cinco chamam-se Jardel, Liedson, Van Wolfswinkel, Slimani e Bas Dost — e são todos avançados.

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Todos estes dados estatísticos foram recolhidos e divulgados pelo agregador Playmaker Stats. As estatísticas não traduzem, contudo, tudo o que Bruno Fernandes faz em campo. Os movimentos a pedir a bola ainda na zona de meio-campo, para depois decidir o que lhe fazer de cabeça levantada. Os passes longos para os extremos, a rasgar, de que o ala direito do Sporting Raphinha tanto gosta. A capacidade de morder os calcanhares aos adversários, quando intui que eles não sabem exatamente o que fazer à bola. As tabelas a meio-campo, o gosto por colocar os colegas em posição de golo, apesar da apetência para os marcar, as rotações que deixam adversários presos à relva, a capacidade de irritar alguém a ponto de acabar ceifado, a resistência às lesões que lhe permitiu já ter feito 100 jogos em menos de duas épocas completas.

Numa entrevista a uma outra grande figura da história do Sporting, Pedro Barbosa, alguém que tinha uma habilidade técnica que não era inferior à de Bruno Fernandes — mas que não tinha a obstinação insaciável que faz Bruno Fernandes reclamar com os árbitros até quando não tem razão, gritar com os colegas até quando sabe que não conseguem fazer melhor, assumir aos microfones que está num mau momento de forma quando de facto está –, o médio e atual capitão do Sporting contava uma das coisas que fazia como TPC para se preparar para os jogos:

Normalmente estou muito focado naqueles jogadores que jogam na minha zona, procuro estudá-los, também porque, hoje em dia, temos essa facilidade de os estudar com vídeo. Tento perceber onde posso receber a bola e onde posso usufruir das debilidades deles. É esse o meu trabalho de casa.”

Só Bruno Fernandes saberá que vídeos viu, se é que viu algum, de Jefferson e Bruno Gallo, os médios do Desportivo de Chaves encarregues de controlar a sua zona de ação no jogo deste sábado, o seu centésimo com a camisola do Sporting vestida. Qualquer que tenha sido o trabalho de casa desta vez, voltou a resultar. Sim, houve passes falhados, uma primeira parte relativamente discreta, alguns sintomas de cansaço na reta final do jogo. Não é de estranhar, até porque a sua capacidade física esteve em dúvida até à véspera do jogo. Mas quando foi necessário resolver, Bruno Fernandes apareceu — e quando foi necessário controlar e gerir a vantagem, em tempo de compensação, fez a cabeça dos adversários em água, pôs os nervos de Niltinho em franja, causou uma confusão que até originou empurrões entre futebolistas do Sporting e do Desportivo de Chaves.

No final dos 111 minutos do jogo (houve 11 de compensação), Bruno Fernandes disse, citado pelo Maisfutebol: “Infelizmente fiquei de fora dos jogos da Seleção mas (…) não estaria apto, precisava de dez dias para recuperar. Já estava com vontade de voltar aos relvados. Atingir uma marca de 100 jogos num clube tão grande como o Sporting é espetacular e este prémio é mérito do que tenho vindo a fazer e da evolução da equipa. Foi um jogo muito difícil, mas estivemos bem, fomos uns justos vencedores”.

Bruno Fernandes tem 25 golos ao serviço do Sporting este ano e a sua equipa tem pelo menos mais oito jogos pela frente, que poderão ser nove se conseguir apurar-se para a final da Taça de Portugal, no Jamor. Feito com o qual  aliás só sonha porque a 6 de fevereiro, no estádio da Luz, Bruno Fernandes pegou na bola para fazer um livre direto e deixou toda a gente de boca aberta. Depois, virá a Liga das Nações em junho. A seguir, virá a resposta a duas perguntas: conseguirá o Sporting mantê-lo em Portugal? E a quantos milhões de euros pode chegar o leilão por um médio que pressiona como um número 8, assiste como um número 10 e remata como um número 9?