Para Luís Marques Mendes, as críticas feitas por António Costa ao PSD no comício de sábado, no contexto das eleições europeias, estão diretamente relacionadas com a recente sondagem da Aximage, que dá uma grande aproximação do PSD ao PS (34% para os socialistas, 29% para os sociais-democratas). “Não é habitual o António Costa fazer um ataque direto ao PSD”, disse este domingo.

No seu espaço de comentário na SIC, o ex-líder do PSD enumera os diferentes motivos que justificam esta aproximação na sondagem da Aximage, a começar pelo “bom cabeça de lista” do PSD, Paulo Rangel, que Marques Mendes considera ser “combativo”, “assertivo” e “eficaz”. Já sobre Pedro Marques, do PS, é apontado como “um cabeça de lista relativamente frágil porque não foi propriamente um ministro forte”. “E nas eleições, os cabeças de lista contam, ao contrário das legislativas”, assegura.

Marques Mendes refere ainda a lista desenvolvida por Rui Rio, que “surpreendeu pela positiva”, e a paz interna que se tem feito sentir no Partido Social Democrata, para a qual contribuiu Luís Montenegro. A juntar a isto tudo, o comentador refere os “muitos erros políticos” que o Governo socialista tem vindo a cometer. “Parece que António Costa, ao fazer um ataque direto ao PSD, mostra preocupação”, remata.

“Mário Centeno é um grande trunfo eleitoral do PS”

Mário Centeno é, na opinião de Marques Mendes, “um grande trunfo eleitoral do PS”, tanto que “António Costa está desesperadamente empenhado em que ele se mantenha até às eleições e se mantenha depois das eleições, se as ganhar”. Uma situação que mostra o “enorme peso político de Mário Centeno”. “Raramente um ministro das finanças teve tanto peso político em Portugal”, atesta o comentador político.

A seguir a António Costa, é mesmo o único grande trunfo eleitoral do PS, é por isso António Costa o que agarrar. E temos esta coisa singular: normalmente os outros ministros das finanças é que precisam do primeiro-ministro, aqui é o primeiro-ministro que precisa do ministro das finanças.”

Para Marques Mendes, Mário Centeno — que alcançou um “défice histórico”, que não se verificava desde 1972 — goza de “popularidade e de credibilidade”. “Ele criou uma imagem de autoridade mas, ao mesmo tempo, também tem aquela imagem de simpatia.” Mário Centeno conseguiu “mudar a natureza do PS em domínio financeiro”, uma vez que, historicamente, o PS era visto como um partido “despesista e gastador”. “Era o partido da cigarra.”

“O Governo apostou tudo em 2018”

Apesar de ter vindo a somar “enormes vitórias económicas”, como o desemprego baixo ou o crescimento da economia, o PS está nos 37% (nas eleições legislativas), ainda longe da maioria absoluta. Marques Mendes atribui estes resultados a “erros políticos enormes”, tais como a “má gestão do ciclo político”, sendo que “o PS apostou tudo em 2018”.

O PS gostava de ter tido eleições antecipadas no ano passado. Gostava que tivesse havido uma crise provocada pelo BE e pelo PCP, portanto apostou toda a sua programação em 2018. O problema é que os seus parceiros não lhe fizeram esse favor e o PS teve medo de arriscar. Teve aqui um problema de indefinição estratégica e, com isso, falhou – em 2019, e do ponto de vista da economia, está mais em baixo”, diz Marques Mendes.

Marques Mendes considera ainda que o Governo geriu mal as expetativas ao decretar “muito cedo” o fim da austeridade. Em causa está também o facto de ter demorado tempo a perceber que as greves eram um problema — porque foram muitas e provocaram desgaste e, depois, porque acabou o discurso de que este é o Governo da “paz social”.

Um quarto ponto resvala para os “tiques de arrogância e de sobranceria”: “Nos últimos meses o Governo deslumbrou-se com o poder, acomodou-se ao poder, pensou mesmo que a maioria absoluta estava no bolso. Foram muitos tiques de arrogância no parlamento e fora do parlamento, mesmo nas relações com os seus parceiros. Ainda esta semana, António Costa admitiu a hipótese de Pedro Marques poder vir a ser o próximo Comissário Europeu. Isto é um exercício de arrogância: então, Pedro Marques está a ser candidato ao Parlamento Europeu, ainda não foi eleito e já está a admitir a hipótese de que ele não vai ocupar o lugar”. Isto é, diz ainda, “deslumbramento do poder”.