Escapadinhas

Um fim de semana, um hotel: uma viagem por três continentes no Torel 1884

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O novo membro do grupo Torel Boutiques nasceu na baixa do Porto e é uma vénia aos descobrimentos portugueses. Há quartos com nomes de especiarias, obras de arte e uma garrafeira dentro de um cofre.

A luz natural vinda da clarabóia e a escadaria imponente são duas imagens de marca dos espaços comuns deste hotel

Luís Ferraz

Autor
  • Maria Martinho

É provavelmente a entrada mais exótica da Rua Mouzinho da Silveira, localizada bem no centro da baixa portuense. À porta do número 228 há vasos com plantas e paredes em granito. Neste palacete do século XIX, construído precisamente em 1884, funcionava um banco e quando o edifício ficou desocupado apaixonou de imediato Ingrid Koeck, sócia do grupo Torel Boutiques. Ingrid cresceu numa pequena aldeia em Áustria entre o alojamento local gerido pela avó e o restaurante onde os pais eram responsáveis. Depois de estudar comunicação e ciência política, partiu para África em 2004 para três missões de paz organizadas pelas Nações Unidas. Passou pelo Congo e pela Somália, mas sete anos depois a vontade de regressar “ao ambiente mais calmo e tranquilo da Europa” era mais do que muita. Duas visitas bastaram para se render a Portugal e é no Porto que vive desde outubro de 2017. Depois da abertura do hotel Torel Avantgarde, na Rua da Restauração, em 2019 chegou a vez do grupo se aventurar pelas artérias do coração da cidade com um novo projeto de alojamento local.

Numa autêntica viagem à volta do mundo, a expansão marítima portuguesa é o ponto de partida para conhecer as 12 suites deste palacete, onde convivem a arte, a arquitetura e o luxo informal. A recuperação do edifício ficou a cargo de Miguel Nogueira, o arquiteto que fez questão de manter a traça original, os tetos altos, os corrimões de ferro e madeira, as grandes portas e janelas ou os puxadores e as fechaduras.

Luís Ferraz

Por aqui não existem duas suites iguais nem cartões magnéticos que nos permitem entrar em cada uma delas. As chaves de ferro, capazes de ocupar a palma da mão, remetem-nos para outros tempos, embora não seja fácil ou muito prático andar com elas no bolso. Cada andar é inspirado num continente diferente, do rés-do-chão ao segundo piso, e a decoração tem assinatura do coletivo Nano Design. Dos trabalhos de artesãos portugueses a peças vindas do outro lado do mundo, o objetivo foi transportar os hóspedes para outras rotas, sem direito a transbordo ou a jet lag.

Um quarto, um tema, uma decoração e uma obra de arte

No wall de entrada podem ver-se mapas suspensos e máscaras expressivas de autoria de João Pedro Rodrigues que, partindo das musas d’Os Lusíadas, criou uma instalação onde umas representam as deusas da natureza, a pureza e o celestial e outras retratam o mundo material e o ser humano com todas as suas fragilidades e limitações. O rés-do-chão é dedicado ao continente africano, dos quadros com animais exóticos aos tons quentes do mobiliário, e há espaço para dois quartos com um pátio exterior e até um jacuzzi. O “Salomão” que, segundo o livro “A Viagem do Elefante” de José Saramago, é o elegante que João III ofereceu como presente de casamento ao seu primo Maximiliano III, arquiduque da Áustria, e o “Malagueta”, inspirado uma das especiarias que os portugueses trouxeram do continente africano e que permanece até hoje no nosso palato.

O que interessa saber

Nome: Torel 1884 – Suites & Apartments
Abriu em: Fevereiro de 2019
Onde fica: Rua Mouzinho da Silveira, 228. 4050-417 Porto
O que é: Um palacete centenário convertido em alojamento local, cuja decoração é inspirada nos continentes africano, asiático e americano
Quem manda: Ingrid Koeck
Quanto custa uma noite: A partir de 120 euros
Qual é a vista: Baixa do Porto
Contacto: 226 001 783
Reservas: reservas@torel1884.com
Links importantes: Site, Facebook e Instagram
Curiosidades: O restaurante Bartolomeu tem como base a cozinha francesa, as chaves dos quartos são em ferro e em breve 11 apartamentos do mesmo grupo serão inaugurados na Rua das Flores

Subindo um lance de escadas, a luz natural que emana de uma claraboia conduz o caminho para primeiro andar, que é como quem diz à América. Neste piso, os cinco quartos são verdadeiras homenagens às madeiras e aos pássaros exóticos, mas também a produtos que tão bem conhecemos, como o “Café” – onde predomina o castanho e apontamentos em sarapilheira -, a “Cana de Açúcar”, – onde os tons leves e naturais são protagonistas -, ou o “Tabaco”, – onde as paredes pinceladas de verde esmeralda nos remetem para as folhas de tabaco. Chegar ao segundo andar é chegar à Ásia e assim poder entrar no universo oriental através dos quartos “Chá” – onde predominam os algodões, os linhos, a ráfia e o papel de parede feito de folha de bananeira – ou “Porcelanas”, – onde reina o veludo, o latão e a madeira, numa combinação dos tons de azul e branco.

Luís Ferraz

As suites têm áreas generosas e todas elas expõem uma obra de Jorge Curval, artista que desenvolveu pinturas de grandes dimensões interpretando os temas de cada espaço. Uma tela com grãos de café ou com cacos de peças de porcelana partidas são apenas alguns exemplos do que vai poder encontrar.

É difícil contar os espelhos e as plantas espalhadas pelo edifício e dos interruptores das luzes minimalistas às camas altas de dossel, são muitos os detalhes. As banheiras fora das casas de banho, colocadas em cima de um painel de mosaico hidráulico feito à mão em Portugal, são uma tendência na hotelaria e marcam presença na maioria dos quartos. Apenas duas das 12 suites disponíveis são mezzanine, e por isso mais indicadas para albergar famílias com crianças. Os quartos virados para a Rua Mouzinho da Silveira, onde as lojas, os restaurantes e os carros abundam, têm algum ruído como vizinho, uma vez que apenas uma cortina de veludo opaca cobre a janela. Se privilegia um sono profundo e tranquilo, siga o nosso conselho e leve tampões auditivos.

Livros e um bar para pessoas honestas

No último andar, dedicado ao continente asiático, vai poder cruzar-se com a Livraria Debaixo das Estrelas, uma espécie de sala de estar onde apetece ficar horas a fio e ler um livro ou a conversar. O espaço conta com poltronas, sofás, uma lareira, muita luz natural e estantes forradas de objetos de decoração e centenas de livros em segunda mão. Da coleção do cineasta Paulo Rocha aos exemplares raros d’Os Lusíadas, passando pelas partituras de Beethoven ou uma edição d’O Principezinho em japonês, há muito para descobrir. Neste mesmo local mora também o Honesty Bar, um conceito de bar self-service altamente recomendado para pessoas sinceras. Neste mini bar as vodkas, gins, máquina de gelo e todos os utensílios são de livre utilização, só tem que fazer a sua bebida e anotar, para mais tarde apresentar o que consumiu na receção.

Luís Ferraz

Se a sua praia é comer e beber saiba que aqui também sairá bem servido. O Bartolomeu Wine Bistro, cujo nome é uma homenagem navegador português Bartolomeu Dias, tem espaço para 40 pessoas, é aberto ao público e por lá o vinho é rei. A carta de néctares é extensa e maioritariamente nacional, abrangendo regiões de norte a sul e pequenos produtores, já a garrafeira ocupa a antiga caixa forte do banco, onde é possível fazer degustações, provas de vinhos e jantares privados. No que toca à comida, a base assenta na cozinha francesa feita com produtos portugueses, e dos petiscos para picar ao fim da tarde aos pratos mais elaborados para uma refeição composta. Tábuas de queijos (12€) e enchidos (10€), paté campagne (4€), uma mistura de carnes de porco com alperce, passas, rúcula e mostarda Dijon, ou conservas caseiras (2€) são alguns dos aperitivos. A salada de cogumelos, cevada e espinafres (6€) ou os crepes de alfarroba (7€) são pratinhos ideais para dividir. A bochecha de porco com couve e abóbora (14€) e a corvina com batatas e grelos (15€) compõem as sugestões mais completas, já no rol das sobremesas arrisque na tarte de chocolate (4€) ou no crumble de maçã (4€). O pequeno-almoço, exclusivo para hóspedes, é escolhido na véspera para evitar desperdícios e as panquecas de aveia, os ovos mexidos ou o iogurte com granola constam na lista de opções.

Luís Ferraz

A decoração do restaurante faz lembrar uma savana pelos quadros com paisagens exóticas, pelas plantas verdes distribuídas pelo espaço, pela madeira do mobiliário, os padrões animalescos das almofadas ou os apontamentos em palha. Não se admire caso as fardas dos funcionários prenderem a sua atenção, as roupas são uma criação da designer Lidija Kolovrat e representam as caras de reis, artistas e outras personalidades portuguesas. Em breve o Bartolomeu ganhará uma esplanada no exterior, mas o Torel 1884 não fica por aqui nas novidades para o futuro. Ainda este mês, o grupo inaugura 11 apartamentos, entre T0 e T2, batizados com nomes de especiarias e localizados na Rua das Flores. Em julho está também prevista a abertura do Torel Palace na zona da Batalha.

O Observador esteve alojado a convite do Torel 1884 Stuites & Apartments

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