A propriedade Mar-a-Lago não é propriamente de fácil acesso. Espécie de hotel e resort de luxo em Palm Beach, Florida, foi comprado por Donald Trump em 1985. Tem mais de 100 quartos, cerca de 60 mil metros quadrados e é atualmente um clube privado reservado a membros pagantes, que acolhe parte da elite financeira do país, do empresário milionário do setor petrolífero Bill Koch ao líder do Partido Democrata na Nova Jérsia George Norcross, passando pelo treinador de futebol americano Bill Belichick e pelo apresentador de talk-shows Howie Carr. No passado sábado, o Mar-a-Lago Club teve contudo uma visita indesejada: a de uma mulher chamada Yujing Zhang.

Os detalhes são contados num processo judicial a que a CNN teve acesso. A mulher decidiu ir à propriedade numa altura em que Donald Trump ali estava instalado, embora “The Donald” não estivesse presente fisicamente no clube no momento da inesperada visita. Com dois passaportes chineses, Yujing Zhang aproximou-se da entrada, protegida por agentes dos serviços secretos norte-americanos. Estes terão sido informados, numa primeira fase, de que a mulher estava ali simplesmente para ir à piscina. Como no clube da Florida estava instalado naquele momento um homem com o apelido Zhang, os agentes acreditaram ter à sua frente uma mulher de alguma forma ligada ao cliente do Mar-a-Lago Club. Como tal, deixaram-na entrar.

Já no interior da propriedade, Yujing Zhang não demorou muito a levantar suspeitas. Passeando-se pelo interior da propriedade, parecia não saber exatamente onde se dirigir. Quando confrontada, acabou por dizer a uma rececionista que estava ali para comparecer a um evento de “amizade” das Nações Unidas — United Nations Friendship Event. O encontro aconteceria, dizia ela, no final do dia, mas a sua ida tinha sido antecipada para “familizar-se com a propriedade e tirar fotografias”. Problema: era um evento imaginário.

Os responsáveis pela segurança da propriedade perceberam que algo de errado se passava e confrontaram a mulher, mas esta insistia: tinha recebido um convite para um encontro diplomático para abordar as relações económicas entre a China e os Estados Unidos da América. Chegou a mostrar, inclusivamente, algo que garantia ser um convite para o encontro. Novo problema: os agentes não conseguiam decifrar caracteres chineses.

Donald Trump na propriedade Mar-a-Lago, a 29 de março deste ano (@ Nicholas Kamm / AFP / Getty Images)

Yujing Zhang acabou por ser detida. Os serviços secretos aperceberam-se de que transportava vários aparelhos eletrónicos — nomeadamente quatro telemóveis, um computador portátil e um dispositivo semelhante ao de um “disco rígido” externo — que foram enviados para análise. De acordo com a CNN, uma investigação preliminar terá encontrado malware, isto é, software malicioso que tem como intuito invadir ou danificar aparelhos alheios.

Já retirada da propriedade, a mulher foi questionada pelos serviços secretos e deu uma explicação caricata para a ida ao Mar-a-Lago Club. Um amigo, com o nome Charles, ter-lhe-á dito para viajar de Xangai para os Estados Unidos da América para comparecer àquele encontro em Palm Beach. A mulher teria sido assim incumbida por Charles de falar com um membro da família de Donald Trump sobre as relações externas dos EUA e da China. Quando foi questionada sobre quem era o tal “Charles”, a versão tornou-se ainda mais estranha: a mulher garantiu que pouco mais sabia sobre ele, já que tinham mantido contacto apenas via WeChat, serviço de troca de mensagens que é muito popular na China.

Os norte-americanos ficaram ainda perplexos ao perceber que no interior da propriedade a mulher mostrava ter um conhecimento rudimentar da língua inglesa, mas quando foi inquirida mostrou “um conhecimento detalhado e uma boa capacidade de conversar com pessoas em inglês e compreender inclusivamente as nuances mais subtis da língua inglesa”. Esta segunda-feira, Yujing Zhang foi acusada formalmente de prestar declarações falsas a um elemento de polícia federal e de cometer um crime de invasão a propriedade de acesso restrito.