A noite desta terça-feira no Capitólio, em Lisboa, fez-se de música, festa e palavras de solidariedade para com Moçambique, mas uma dúvida pairou sobre alguns discursos: será que os portugueses estão menos generosos perante as recentes suspeitas na utilização de donativos em Pedrógão Grande? Marcelo Rebelo de Sousa chegou ao concerto pontualmente às nove da noite e logo à entrada disse que não há motivo de preocupação.

Os donativos para Moçambique “chegam ao destino”, garantiu o presidente da República, acrescentando que “isso está acautelado porque a Cruz Vermelha tem vindo a canalizar os donativos e porque lá em Moçambique há uma estrutura orgânica coordenada que controla cuidadosamente tudo o que entra”. As Nações Unidas, sublinhou o chefe de Estado, “estão metidas e estão a coordenar tudo”.

Questionado sobre se a disponibilidade dos portugueses para causas solidárias está comprometida, Marcelo respondeu que não. “Tenho a esperança de que venha a ser apurado aquilo que se passou e que correu mal, a Procuradoria-Geral da República já está em cima disso”, afirmou, em possível referência à investigação em curso sobre a reconstrução de casas em Pedrógão, depois do grande incêndio de junho de 2017.

Marcelo, que tem uma forte ligação a Moçambique por o pai, Baltazar Rebelo de Sousa, ter sido governador-geral da então colónia portuguesa, no fim da década de 60, informou também que a anunciada visita oficial àquele país ainda não tem data marcada. O presidente moçambicano, Filipe Nyusi, deverá estar em Portugal em julho, disse Marcelo, e então se decidirá se o presidente português viaja em setembro ou só no fim do ano.

Oito instituições apoiadas

O concerto foi organizado pela cantora Selma Uamusse, com o objetivo juntar dinheiro para oito organizações não-governamentais que operam na reconstrução de Moçambique – na sequência da devastação causada pelo ciclone Idai, que a 14 e 15 de março se abateu com especial violência sobre província de Sofala, região centro do país. Em concreto, as receitas de bilheteira, cujo montante final não era ainda conhecido ao fim da noite de terça-feira, destinam-se à AMI, Cáritas Portuguesa, Cruz Vermelha Portuguesa, aos Médicos Sem Fronteiras; à associação HELPO, Fundação Girl Move, Iris Relief e ACRAS – Associação Cristã de Reinserção e Apoio Social.

“Mão Dada a Moçambique”, assim se intitulou o concerto de beneficência, teve transmissão em direto na RTP1, na Antena 1 e Antena 3, assim como na internet e nos canais internacionais do serviço público, e quase encheu o Capitólio, onde cabem cerca de 850 pessoas em pé. A apresentação ficou a cargo de Catarina Furtado, que surgiu em palco no início do espetáclo, ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa e de Selma Uamusse.

“Primeiro devo dizer que paguei os bilhetes e toda a gente que aqui está pagou”, começou por dizer o presidente da República, para riso da plateia. “E a sua comitiva?”, perguntou Catarina Furtado. “Isso não sei, não controlei. Paguei os meus, também não vou pagar a todos.” Ainda no palco, Marcelo sublinhou que o concerto foi “apenas o começo de uma caminhada, porque é longa a reconstrução” de Moçambique.

“As pessoas estão nisto de coração”

Selma Uamusse foi a primeira artista em palco e cantou “Hope”, com coro dos Gospel Collective. A seguir, vieram Ana Moura, Matay, Mistah Isaac, Rodrigo Leão e Celina da Piedade. Já sem apresentadora, os intérpretes iam entrando em palco para um ou dois temas, chamados por aqueles que os antecediam.

Mais tarde, ao Observador, Selma Uamusse mostrou-se muito satisfeita com a adesão do público e destacou que além da receita obtida com a venda de bilhetes (preço único de 20 euros, existindo bilhete-donativo, que não dava acesso ao concerto e que custava 20 e 30 euros) tinha sido possível juntar até meio do espetáculo cerca de 270 mil euros através de chamadas telefónicas para um número divulgado nos ecrãs da RTP.

“As pessoas estão nisto de coração e apesar das suas inseguranças e incertezas continuam  a acreditar que é preciso e possível ajudar”, referiu a cantora.  “Desde o início, foi muito importante termos contas claras e que as instituições se comprometessem a que estes donativos sejam apenas utilizados para ajudar na recuperação desta catástrofe que afeta a província de Solfala. As instituições comprometem-se a fazer um relatório para darem a conhecer o que foi feito com o dinheiro e além disso temos uma auditoria externa. Tudo isto garante que as pessoas confiam. Mesmo nós, artistas e pessoas envolvidas na produção, queremos ver este dinheiro bem utilizado”, disse.

Dino D’Santiago, Samuel Úria, Cristina Branco, Gisela João, Salvador Sobral, Surma, Conan Osíris, Márcia, Sara Tavares, Maria João e muitos outros intérpretes atuaram até pouco depois da meia-noite. O concerto teve apenas um intervalo. Sentados numa bancada lateral, estiveram, além de Marcelo, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, o embaixador de Moçambique, Joaquim Bule, e o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, acompanhados do presidente da RTP, Gonçalo Reis. Na plateia estavam algumas caras conhecidas da estação pública e cidadãos anónimos de Portugal e de Moçambique.

Medina reafirmou ao Observador a intenção já anunciada de um donativo de 150 mil euros por parte da autarquia “a um local ou instituição” de Moçambique, o que deverá ficar definido em breve “em conjunto com a embaixada e com o governo” deste país africano.

“Numa fase posterior, teremos equipas de técnicos, engenheiros e arquitetos da Câmara a trabalhar com equipas locais na fase de reconstrução”, acrescentou o autarca. Fernando Medina disse que “de forma alguma” sente que esteja em causa a generosidade dos portugueses face a causas solidárias. “Posso assegurar que tudo o que tem estado a ser recolhido no Regimento de Sapadores Bombeiros, alimentos, medicamentos e bens duradouros, é enviado para Moçambique.”

Já Joaquim Bule destacou a “solidariedade incomensurável do povo português desde a primeira hora” e descreveu o concerto como “uma ação de solidariedade entre povos”. Quanto à situação em Sofala, e em particular na cidade da Beira, é agora “ainda mais delicada do que na fase inicial de busca e salvamento”. “Podemos ter salvo pessoas que estavam na água, penduradas em árvores ou nos tetos das casas, mas agora precisamos de tomar medidas sanitárias para que não se morra de doenças como a cólera”.

Na rua, à porta da Capitólio, a fila de acesso nunca chegou a ser extensa e rapidamente avançou ao longo da noite, com público a chegar continuamente, mesmo depois do início do espetáculo. Vendedores com camisolas vermelhas onde se lia “Vamos ajudar Moçambique a virar a página” pediam às pessoas para comprarem uma edição especial da revista “Visão”, cujas receitas revertem na totalidade para a Cruz Vermelha.