Um homem espanhol foi detido esta quarta-feira por ter ajudado a sua esposa, com esclerose múltipla, a cometer suicídio. Esta quinta-feira, após interrogado, foi libertado sem medida de coação. De acordo com o El País, Ángel Hernández, de 69 anos, preparou e deu a María José Carrasco, de 61, uma bebida de pentobarbital para provocar a morte da mulher — que tinha pedido ao marido que o fizesse quando ela já não suportasse o sofrimento causado pela doença.

O jornal espanhol já tinha feito uma reportagem na casa daquele casal, em outubro do ano passado. Na altura, a mulher, já em sofrimento visível, dizia que apenas estava viva porque tinha medo do que poderia acontecer ao marido caso a ajudasse a morrer. “Ele não tem medo, mas eu tenho”, disse a mulher. María José sabia que o marido poderia ser preso caso a ajudasse a morrer. Ainda assim, desabafava: “Quero o final o quanto antes”.

E foi o que aconteceu nesta quarta-feira. O casal já tinha tudo preparado para quando chegasse o momento em que a mulher, que estava paralisada e quase cega e surda, e que deixou de conseguir comer, lhe pedisse para lhe dar a bebida. E Ángel não o quis fazer às escondidas. “Sempre disse que não ia fazê-lo de forma encoberta, que queria dar luz ao tema”, disse a advogada do homem ao jornal.

Ángel decidiu gravar tudo em vídeo — “para que se visse o sofrimento e o abandono em que estavam” — e divulgou-o. Assim que deu a bebida à mulher, que adormeceu e morreu de seguida, Ángel telefonou aos serviços de emergência e contou o que tinha acabado de fazer, para que viessem auxiliá-lo. Foi detido de imediato pela polícia e encontra-se neste momento sob custódia das autoridades. Está à espera de ser colocado em liberdade pelo juiz.

O Código Penal espanhol prevê uma pena de prisão entre seis meses e dois anos para Ángel, por ter “causado ou cooperado ativamente com atos necessários e diretos à morte de outro, pelo pedido expresso, sério e inequívoco deste, no caso de a vítima sofrer de uma doença grave que conduziria necessariamente à sua morte, ou que produziria graves sofrimentos permanentes e difíceis de suportar”.

Isto, explica o El País, serve como atenuante à pena, apesar de a eutanásia ser proibida no país. “Em Espanha, apesar de a eutanásia ser proibida, o Código Penal tem em conta a compaixão e introduz uma atenuante muito privilegiada”, sublinha o jurista espanhol Federico de Montalvo, presidente do Comité Espanhol de Bioética àquele jornal.

A associação espanhola “Derecho a Morir Dignamente” está a auxiliar Ángel na sequência da morte da esposa e explicou ao El País que este é o primeiro caso no país desde a morte de Ramón Sampedro, em 1998. Na altura, Sampedro, tetraplégico desde os 25 anos, tornou-se num símbolo da luta pelo direito à morte digna em Espanha.

Atualizado às 21h08 com a informação de que Ángel Hernández foi libertado.