“Alvalade CineClube. Há cinema na tua vida” — é este o mote do projeto que um grupo de residentes e ex-residentes do bairro de Alvalade vai fazer arrancar já no próximo dia 12 de abril com a exibição de “Belarmino” no Centro Cívico Edmundo Pedro, cujo auditório vai passar a ser aproveitado. A informação é relevante mas convém explicar como é que se deu este renascer da sétima arte numa das zonas da capital onde, outrora, ela mais proliferou.

“Nós somos um grupo de pessoas ligadas ao bairro e à sua história”, afirma Bruno Castro, um dos responsáveis por este projeto que reúne pessoas que trabalham, “vivem ou já viveram” neste cantinho histórico da cidade de Lisboa. Tendo a paixão pelo cinema como força agregadora, estes cinéfilos decidiram arranjar forma de se inspirar no passado, quando “existiam vários polos” da sétima arte em Alvalade — como o King, o ACSantos ou o o próprio Cinema Alvalade — para devolver à comunidade que tanto estima os espaços “que foram fechando e desaparecendo”. “Neste momento há uma opção mais comercial, virada para as grandes produções norte-americanas”, mas mesmo assim faltam oportunidades de dar a conhecer uma visão mais “independente”.

“A nossa linha de programação pretende dar espaço a cinema menos dirigido a um consumidor massificado”, explica Bruno. “Não teremos só obras de autor, vai dependendo. Teremos coisas de cariz documental também, por exemplo”, acrescenta.

Aquilo que se pode esperar desta programação, então, começará com o já referido “Belarmino”, a história do pugilista que dá nome ao filme que, para Bruno, transmite uma visão importante sobre “a cidade de Lisboa e a sua urbanidade”. Ao mesmo tempo, a escolha deste filme para a grande inauguração é também “uma homenagem ao que é o bairro”, não fosse Fernando Lopes, o realizador da afamada longa-metragem, um antigo residente. Esta obra pertence ao ciclo “Cidades Visíveis”, mas vai haver mais.

A programação já está fechada até mês de julho e contará também com outras exibições paralelas, vários ciclos, entenda-se, que serão sempre compostos por quatro filmes, sendo exibido um por mês. No total vai haver três (contando com o tal “Cidades Invisíveis”) e um deles, o “mais experimental”, vai preencher-se com obras de maior traço autoral que tanto podem roçar o “video-ensaio” como podem ser “mais documentais” — a primeira exibição destas acontece a 3 de maio e recai sobre esta última categorização, tratando-se de “um documentário apenas visual, sem narração, que mostra a cidade nos anos 80.”

O terceiro e último ciclo vai estar ligado ao cinema “mais virado para as famílias”, uma aposta no território “infanto-juvenil” que consistirá, nesta primeira fase, numa série de exibições dedicadas a Vasco Granja. “Como faz 10 anos que ele morreu e todos nós [grupo de organizadores] temos idades entre os 35 e os 40 anos, lembrámo-nos logo dele”, conta Bruno. “Logo no início de maio” vão então ser exibidos alguns filmes “que ele escolheu” e que “passavam na RTP”.

Por via das dúvidas, convém passar pela página de Facebook deste projeto para se ir mantendo a par da programação completa e detalhada. Contudo, convém assinalar que as exibições serão sempre gratuitas, sem reserva prévia (pelo menos por agora), e decorrerão sempre no auditório do Centro Cívico Edmundo Pedro (capacidade de 100/120 pessoas), graças “a uma parceria com a junta de freguesia”. Falando de parcerias convém ressalvar, finalmente, que este grupo de cinéfilos já assegurou uma outra com o CINEAD, um programa europeu que “visa promover a literacia cinematográfica para jovens” graças a um portefólio — que ficará disponível — de 15 filmes de toda a Europa que foram escolhidos a dedo pelo seu cariz enriquecedor da cultura visual “dos jovens da comunidade, seja ela apenas o bairro ou toda a cidade de Lisboa”.