“Besta”

O filme de estreia do inglês Michael Pearce é um “thriller” compacto passado na Ilha de Jersey. Moll (Jessie Buckley), uma rapariga que é o “patinho feio” da família e que quando era mais nova esfaqueou uma colega na escola, apaixona-se pelo sedutor e insolente, Pascal (Johnny Flynn), que vive de fazer biscates e da caça ilegal. Várias jovens têm aparecido brutalmente assassinadas na ilha e Pascal tem perfil de suspeito, devido aos seus antecedentes de delinquência, mas Moll, parte por espírito de contradição e de desafio à família e à comunidade, parte por atracção amorosa genuína, ignora todos os avisos e continua envolvida com Pascal. Pearce, que também escreveu o argumento de “Besta”, glosa o tema hitchcokiano da personagem que poderá estar em perigo de morte por gostar da pessoa errada, e mostra-se mais interessado na psicologia dos protagonistas e em instalar um clima de dúvida e ambiguidade incómoda, do que em explorar o “suspense” e dar gás à ação, mantendo-se coerente, apesar de um par de momentos forçados, até um final em dois tempos. Buckley é excelente na instável e desamparada Moll.

“Diamantino”

Bronco, ingénuo, ignorante e controlado por duas irmãs gémeas interesseiras, labregas e tirânicas, Diamantino Matamouros (Carloto Cotta) é um genial futebolista açoriano, a quem chamam “o Miguel Ângelo dos relvados”. Qualquer semelhança satírica com Cristiano Ronaldo não é mera coincidência, nesta fita de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt que empilha comédia surreal, fantasia “kitsch”, ficção científica e atualidade social. Diamantino perde, de repente, o seu dom para o futebol, é humilhado por toda a parte e quer passar a dedicar-se a proteger refugiados, enquanto que há cientistas que o pretendem clonar e mudar-lhe o sexo, e movimentos “populistas” que planeiam usá-lo como símbolo para a sua propaganda xenófoba. Qualquer piada e inspiração “nonsense” que “Diamantino” pudesse ter acaba por se desvanecer rapidamente, deixando-nos com uma pastelada indulgente, fátua, pretensamente “vanguardista” e colada às causas político-mediáticas da moda, de que se aproveitam apenas as interpretações de Carloto Cotta (impecável, o sotaque) e de Anabela e Margarida Moreira nas irmãs diabólicas do craque caído em desgraça.

“Shazam!”

O realizador David F. Sandberg traz para o cinema o super-herói criado por C.C. Beck e Bill Parker em 1939, que chegou a ser na altura mais popular do que o Super-Homem. Shazam deve o seu nome, e os seus super-poderes, a seis personagens, deuses e heróis mitológicos, e é na realidade um adolescente, Billy Batson, órfão de pai e abandonado pela mãe quando era mais pequeno. A ideia central de ”Shazam!” consiste em ir buscar um velho tema da comédia fantástica, o miúdo e o adulto que trocam de corpos (ver “As Aventuras de Annabel”, com Jodie Foster e Barbara Harris, ou o mais conhecido “Big”, com Tom Hanks – que é aqui citado, aliás), e aplicá-lo a uma fita de super-heróis. Quando Billy (Asher Angel) se transforma em Shazam (Zachary Levi), passa a possuir poderes típicos de super-herói (voa, dispara raios com os dedos, é invulnerável, etc.). Mas continua a ter a mentalidade e o comportamento de um adolescente, o que origina uma sucessão de situações cómicas e de gozo aos filmes de super-heróis. “Shazam!” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.