A Tesla revelou as vendas do 1º trimestre de 2019 e o resultado desiludiu. Depois de produzir 90.700 veículos no 4º trimestre de 2018 e entregar 86.555 a clientes, nos primeiros três meses de 2019 o construtor americano fabricou apenas 77.100 unidades e entregou 63.000.

Há duas formas de encarar estes números, pois face ao período homólogo do ano anterior – a que todos os fabricantes recorrem –, as vendas da Tesla aumentaram 110%. Comparando com o trimestre anterior, há possíveis explicações para este desaire, pois para beneficiar dos incentivos à compra dos eléctricos nos últimos três meses de 2018, a Tesla fez tudo para que os clientes antecipassem a aquisição, o que obviamente ‘secou’ as vendas do trimestre seguinte. Paralelamente, o facto de a marca hoje se concentrar mais nos mercados europeu e asiático, do que propriamente americano, levou a que a Tesla tivesse 10.600 veículos em trânsito (nos navios rumo a estes destinos), em vez dos pouco mais de 3.000 que tinha no trimestre anterior, o que suaviza a quebra, mas não esconde os problemas.

Quando os fabricantes tradicionais, com mais experiência no mercado, lançam um novo modelo, asseguram-se que ele não ofusca o veículo que na gama se posiciona no segmento imediatamente superior. Ora, a Tesla não protegeu devidamente os Model S e X, montando as melhores baterias no Model 3, fazendo o mesmo em relação ao ecrã, aos modos de condução (drift e afins) e capacidade de carga rápida, o que obviamente prejudicou os topos de gama. Daí que a Tesla tenha verificado a maior quebra nos Model S e X, apenas 12.100 unidades, cerca de metade do que é habitual. E como, pela primeira vez, o fabricante decidiu não separar as vendas entre o S e o X, somos levados a pensar que a maior quebra aconteceu no S, que sofre uma concorrência mais directa do Model 3.

Nos próximos trimestres a situação pode normalizar-se, mas não vai ser fácil impedir a fuga de clientes do Model S para o Model 3 – mais pequeno, sobretudo ao nível da mala, mas mais ágil, mais divertido de conduzir e mais sofisticado tecnologicamente, além de muito mais barato. Além disso, o mercado começou a antecipar uma actualização para breve do interior dos S e X, cujos motores também vão passar a ser mais eficientes, o que permite aumentar a autonomia. Simultaneamente, os Model S e X deverão passar a beneficiar de uma capacidade de carga a uma potência superior, visando reduzir o tempo para recarregar a bateria e aproximá-lo dos valores praticados pelos Model 3.

Com a quebra da produção e vendas, a bolsa ressentiu-se de imediato, tanto mais que as margens de lucro do Model 3 serão necessariamente menores do que as oferecidas pelos S e X. Como se isto não bastasse, o facto de não possuir concessionários convencionais, como acontece com os outros construtores, expõe a Tesla a uma relação directa com os clientes. E daí a confusão que recentemente se viveu com uma subida e descida incompreensível dos preços, o que tão pouco ajudou a clarificar as alterações nem simplificou a tomada de decisão dos clientes.

No cômputo geral, a Tesla vendeu 50.900 unidades do Model 3 e 12.100 dos Model S e X, apenas num trimestre, nada mau, tanto mais que, neste segmento, a Audi, a Mercedes e a Porsche não se comprometeram com mais de 20.000 unidades (mas por ano) dos seus e-tron, EQC e Taycan.