Ficha de jogo

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Sporting – Rio Ave, 3-0

28.ª jornada da Liga NOS

Estádio Alvalade XXI, em Lisboa

Árbitro: Luís Miguel Branco Godinho (AF Évora)

Sporting: Renan, Ristovski, Coates, Mathieu (André Pinto, 72′), Borja (Jovane Cabral, 46′), Wendel, Gudelj, Diaby, Bruno Fernandes, Acuña (Bruno Gaspar, 66′) e Luiz Phellype.

Suplentes não utilizados: Salin, Doumbia, Chico Geraldes e Pedro Marques

Treinador: Marcel Keizer

Rio Ave: Léo Jardim, Nadjack, Messias, Ruben Semedo, Fábio Coentrão, Tarantini, Filipe Augusto, Gabrielzinho (Jambor, 61′), Diego Lopes, Galeno (Nuno Santos, 61′) e Bruno Moreira (Ronan, 83′).

Suplentes não utilizados: Paulo Vítor, Borevkovic, Afonso Figueiredo e Carlos Carvalho

Treinador: Daniel Ramos

Golos: Luiz Phellype (12′), Bruno Fernandes (g.p. 36′), Wendel (54′)

Ação disciplinar: Nada a assinalar

Já devem ter passado mais de dez anos desde que Portugal inteiro começou a dizer a palavra “tranquilidade” de forma totalmente nasalada, quase impercetível, igual a maneira como Ricardo Araújo Pereira dizia quando imitou Paulo Bento, então treinador do Sporting. Numa rábula do programa Gato Fedorento (quando este esteve de passagem pela RTP1), o humorista exagerou no risco ao meio, claro, mas acima de tudo colocou uma carga gigante em cima dessa palavra — o próprio Paulo Bento, que assumiu ter achado piada à brincadeira, afirmou nem notar que a repetia assim tanto. Foi uma catchphrase instantânea. Hoje, tudo mudou: Bento é técnico da seleção da Coreia do Sul, RAP tornou-se num verdadeiro ícone do humor e da intelectualidade nacional e os Gato Fedorento são apenas uma memória distante de um dos projetos de comédia mais marcantes dos últimos tempos. O que é feito da “tranquilidade”, então?

Fazendo agora um gigantesco salto na narrativa e assumindo toda uma realidade metafórica, podemos dizer que tranquilidade, nasalada ou não, esteve bem presente na 28.º jornada da Liga NOS, na partida em que o Sporting recebeu e venceu em casa o Rio Ave por três bolas a zero. 

Era uma oportunidade de ouro: um dia antes desta vitória dos Leões, o Sporting de Braga tinha escorregado perante o Moreirense e a equipa de Marcel Keizer podia consolidar o terceiro lugar no campeonato e esperar fazer uma pressão extra ao FC Porto e SL Benfica. Se isso não fosse motivação suficiente, o apuramento para a final da Taça de Portugal ganho dias antes, frente aos encarnados, seguramente seria um garante de que motivos para ganhar não faltariam, mesmo tendo em conta que certas vezes, situações deste género só servem para intensificar a pressão. Contudo, bastaram poucos minutos da partida para perceber que este Leão estava convicto de que os três pontos seriam seus. 

A equipa treinada por Daniel Ramos até começou bem, impondo-se logo nos primeiros minutos com um bloco subido e uma pressão intensa que baralhou a equipa da casa durante uns tempos, impedindo-os de sair com bola de forma eficiente. Criou-se uma autêntica batalha no meio-campo, bola para cá, bola para lá. Depois de um momento algo tenso em que se temeu que Borja se tivesse lesionado — chegou a sair de maca –, aos poucos, os leões foram quebrando o colete de forças dos homens do norte, que esteve sempre a ser apertado pelo trio Tarantini, Filipe Augusto e Diego Lopez (que viu o seu cariz mais atacante/criativo a ser amordaçado pela necessidade de ajudar a segurar o miolo). O primeiro aviso foi dado por Acuña, que conseguiu subir pela esquerda daquela forma impetuosa tão sua, cruzar e ver Luiz Phellype a falhar por muito pouco. Já com Borja de regresso ao jogo, o mesmo Luiz Phellype voltou a ameaçar, desta vez de cabeça, no seguimento de um canto cobrado por Bruno Fernandes. Como não há duas sem três, Phellype fez mesmo o gosto ao pé quando o relógio batia nos primeiros 12 minutos: o Sporting, já mais solto, conseguiu sair rápido a jogar graças a um belo passe de Bruno Fernandes (quem mais?) que com magia consegue isolar o avançado brasileiro. Face ao seu conterrâneo Léo Jardim, o jovem guarda-redes do Rio Ave, Phellype não vacilou e quebrou o zero a zero com… “Tranquilidade”.

Este primeiro golo foi essencial para o desenrolar do resto do jogo e, de repente, tudo pareceu mais solto. O Rio Ave — que jogou de início com duas caras bem conhecidas dos sportinguistas, Fábio Coentrão e Rúben Semedo — começou a forçar mais o ataque, apesar de Galeno e Gabrielzinho, os dois extremos, não parecerem muito inspirados. Já o Sporting começou a simplificar processos e a conseguir sair mais rápido e com mais perigo, sempre com a magistral batuta de Fernandes a indicar o caminho.

Os da casa ia dominando por completo, com “tranquilidade”, e foi preciso esperar até ao minuto 33′ para se ver o primeiro lance de real perigo à baliza de Renan Ribeiro, quando Bruno Moreira consegue ultrapassar Mathieu, mas não fazer muito mais que isso. Uns minutos depois, Luiz Phellype, que parece determinado em aproveitar ao máximo a ausência de Bas Dost (lesionado há três jogos) para mostrar serviço, preparava-se para responder a um belo cruzamento — desse mesmo que está a pensar, Bruno Fernandes, sim — com a cabeça até que foi abalroado por Messias, defesa-central dos nortenhos.  O árbitro apita e é assinalada grande penalidade. Fernandes é chamado a marcar e, com frieza, atira para o fundo da baliza e alcança o recorde de 27 golos marcados por um médio numa única época, que era detido por Frank Lampard (só Alex, do Fenerbache, tem mais, 28). Se já estava tudo mais calmo depois do 1-0, este segundo golo foi o garante de uma ainda maior “tranquilidade”.

Sem espalhafato ou futebol espetáculo, o Sporting ia afirmando-se cada vez mais como figura dominadora nesta partida. Nadjack ainda fez uma investida rápida pela direita, ganhando a Borja (que acabou por ser substituído no início da segunda parte) e cruzando rasteiro. Renan acabaria por agarrar e a primeira parte terminaria pouco depois.

O que tinha começado na primeira parte continuou na segunda — o domínio dos verde e brancos de Lisboa, entenda-se. Com muita calma e sem entusiasmos ou nervosismos, o Sporting foi lançando os seus ataques, de forma quase calculista e sem carregar no acelerador. O Rio Ave foi defendendo o melhor que conseguia mas nenhuma equipa ou guarda-redes conseguiria travar a verdadeira bomba com que Wendel marcou o terceiro golo do Sporting: Bruno Fernandes, mais uma vez (a centésima? milionésima?), conduz a bola até à linha de fundo, flete para o centro e serve o jovem centro-campista brasileiro que, de fora da área, remata com força e jeito contra o ângulo direito da baliza de Léo Jardim. Bonito momento em Alvalade.

Só dava Sporting: primeiro Jovane isolou-se na cara do guarda-redes do Rio Ave e vacilou na hora “H”; depois, quase logo a seguir, o mesmo Jovane Cabral combina com Luiz Phellype (exibição muito esforçada do brasileiro) que quase ia vergando Léo Jardim mais uma vez. A bola circulava livremente entre os homens da casa, com “tranquilidade” travavam-se bolas adversárias no meio-campo e iniciavam-se contra-ataques sem fim. Os visitantes ainda espreitaram o golo com uma bonita jogada em que Bruno Moreira temporizou, já na área, e quando sentiu que Tarantini se aproximava a correr soltou a bola e o capitão dos rioavenses quase que a pôs na baliza de Renan, que não defendeu totalmente à primeira e “safou” o lance quando a bola já rodopiava lentamente por cima da linha de golo.

Depois desta jogada ainda se seguiram mais 15 minutos de futebol, mas nada de relevante acabou por acontecer. O Rio Ave foi cedendo e cedendo enquanto o Sporting limitava-se a gerir. Com “tranquilidade”. Elações a tirar? O Sporting continua robusto e coerente, unido pela super cola três Bruno Fernandes que continua a ser a impiedosa e elegante alma desta equipa leonina. Mais ninguém consegue brilhar como ele mas todo cumprem o seu trabalho. Já o Rio Ave parece ter muito mais para dar do que aparenta, estando bem longe das exibições dos últimos anos em que cheirava com frequência os lugares europeus do campeonato.