Um, dois, três. No mesmo dia — ou na mesma noite –, a NBA perdeu três nomes que andaram pela alta roda do basquetebol norte-americano na última década. Dois despediram-se da quadra, o outro despediu-se dos bastidores muitos anos depois de dizer adeus aos cestos, mas a verdade é que a NBA dificilmente voltará a ser a mesma após esta terça-feira. Dirk Nowitzki, Dwyane Wade e Magic Johnson despediram-se, cada um à sua maneira, cada um com os seus motivos, cada um com as suas repercussões, do mundo que os tornou aquilo que são hoje.

Nowitzki foi, sem sombra de dúvidas, o mais emotivo. A despedida do jogador alemão começou no segundo em que estacionou o carro na garagem do American Airlines Center e saiu para realizar o último jogo da carreira em casa dos Dallas Mavericks. Ao entrar no recinto, os funcionários da franquia formaram um corredor e o jogador percorreu os corredores do American Airlines a cumprimentar todos aqueles que o acompanharam durante mais de 20 anos. Tudo continuou durante a derradeira partida contra os Phoenix Suns, onde os colegas de equipa de Nowitzki o alimentaram como ainda não tinham feito desde o início da temporada e permitiram que o alemão chegasse aos 30 pontos, o melhor registo pessoal da época, tornando-se o jogador mais velho de sempre a pontuar tanto.

Os Mavericks venceram e o resultado positivo abriu caminho para uma pré-planeada celebração no final do jogo, onde cinco dos ídolos de Nowitzki — Charles Barkley, Scottie Pippen, Larry Bird, Shawn Kemp e Detlef Schrempf — apareceram de surpresa no court e discursaram durante breves minutos sobre o gigante alemão de 2,13 metros. Seguiu-se o treinador dos Mavericks e o dono da franquia, Mark Cuban, e só depois é que o microfone foi parar a Dirk Nowitzki. De forma descontraída, quase como se se tivesse descuidado e não quisesse revelar já a novidade, o sexto melhor marcador da história da NBA acabou por anunciar que tinha acabado de realizar o último jogo no American Airlines Center. “Mal posso esperar para ver o que preparam quando retirar mesmo a camisola. Quer dizer, puseram a fasquia lá em cima. Como todos devem estar à espera, este foi o meu último jogo em casa. Estou a tentar fazer a minha respiração do ioga mas não está a resultar muito bem. Isto é obviamente super, super emotivo”, começou por dizer o alemão de 40 anos.

“Acho que estava a preparar isto há muito tempo. Tenho andado a lutar com o meu pé. Isso não é nenhum segredo. Não está onde precisa de estar para competir a alto nível durante 82 jogos. Senti-me bem hoje, mas realizei muitos tratamentos ao longo da época — comprimidos, injeções. Já não faz sentido continuar a fazer isto por mais uma temporada, por muito que eu adorasse estar lá. Adorava estar lá com o Kristaps [Porzingis] e o Luka [Doncic] e todos estes miúdos e divertir-me com eles e ser o mentor deles. Mas, fisicamente, já não faz qualquer sentido”, justificou Nowitzki, que falhou os primeiros 26 jogos da temporada devido a uma lesão num tendão do pé esquerdo.

O alemão despede-se da NBA 21 anos depois de ter chegado aos Estados Unidos, em 1998. Nunca representou outra equipa que não os Dallas Mavericks e leva na bagagem um título de campeão da NBA (2011), um prémio de MVP das finals (2011), um prémio de MVP da NBA (2007) e as 14 vezes que integrou a equipa de All Stars.

O alemão alcançou o melhor registo da temporada no último jogo no recinto dos Dallas Mavericks

Além de Dirk Nowitzki, também Dwyane Wade pendurou a camisola. Ao contrário do que aconteceu com o alemão, porém, a reforma do norte-americano foi apenas o culminar de uma crónica de um fim anunciado, já que Wade tinha revelado antes do arrancar da presente temporada que esta seria a sua última época na NBA. O jogador de 37 anos assinou então um contrato de apenas uma temporada com os Miami Heat, a franquia que o levou para a alta roda do basquetebol norte-americano pela primeira vez e que representou durante os primeiros 13 anos da carreira profissional. Depois de um ano com os Chicago Bulls e outro com os Cleveland Cavaliers, Dwyane Wade terminou a carreira no sítio onde a começou.

No derradeiro jogo no recinto dos Heat — e tal como Nowitzki –, Dwyane Wade assinou 30 pontos e acrescentou mais um encontro quase perfeito a uma temporada em que já se tornou apenas o terceiro jogador da história da NBA a registar 20 mil pontos, cinco mil assistências, quatro mil ressaltos, 1.500 desarmes, 800 bloqueios e 500 triplos. Wade, contudo, é muito mais do que um jogador de basquetebol. O norte-americano tornou-se nos últimos anos uma figura da comunidade negra, da luta contra o racismo e também do movimento anti-armas, mantendo-se sempre muito ativo depois de episódios como o tiroteio de Parkland, em fevereiro de 2018, onde um atirador matou 17 pessoas numa escola secundária.

O fim da carreira de Dwyane Wade originou até um anúncio publicitário, já que a marca de cervejas Budweiser decidiu homenagear o atleta e juntar cinco pessoas cujas vidas foram de alguma forma influenciadas pelo jogador: um jovem cujo irmão morreu no tiroteio de Parkland, uma jovem que conseguiu entrar na universidade porque Wade lhe pagou as propinas, um homem de um bairro pobre de Miami que vê no atleta a sua maior inspiração, uma mulher a quem o jogador pagou várias idas ao supermercado depois de um incêndio lhe destruir a casa e ainda a própria mãe do norte-americano. Jolinda, que foi toxicodependente e esteve vários anos presa por tráfico de droga, agradeceu ao filho por nunca a ter abandonado. “Estou mais orgulhosa do homem que te tornaste do que do jogador de basquetebol que és. Tu és maior do que o basquetebol”, disse a mãe de Wade.

Dwyane Wade despediu-se da NBA mas garante que o seu legado será prolongado pelo filho, Zaire, que tem 17 anos e já impressiona nas ligas de basquetebol do ensino secundário. O legado de Wade fora dos courts, porém, vai perdurar durante tanto ou mais tempo quanto os triplos, os pontos, as assistências e os ressaltos. Depois de 16 anos no topo do basquetebol norte-americano, o jogador leva três títulos de campeão da NBA (2006, 2012 e 2013), um prémio de MVP das finals (2006), as 13 vezes que integrou a equipa de All Stars e ainda o facto de ter sido um dos Big Three, em conjunto com LeBron James e Chris Bosh, que levou os Miami Heat a quatro finals consecutivas entre 2011 e 2014.

Dwyane Wade (ao centro) formou com LeBron James (à esquerda) e Chris Bosh (à direita) um dos trios mais bem sucedidos da história da NBA

O último adeus do dia foi mesmo o mais inesperado. Magic Johnson, que enquanto jogador só representou os Lakers e levou a franquia da Califórnia a cinco títulos da NBA, demitiu-se do cargo de presidente da equipa, posição que ocupava desde fevereiro de 2017. O norte-americano de 59 anos anunciou a decisão através de um comunicado no Twitter e respondeu às perguntas dos jornalistas já após a derrota dos Lakers com os Portland Trail Blazers. A saída de Magic Johnson do cargo executivo surge no final de uma época desastrosa para a equipa de Los Angeles, que falhou o apuramento para os playoffs e não capitalizou a mediática transferência de LeBron James. Aos jornalistas, Johnson justificou a decisão com o facto de querer “voltar a divertir-se” e “ser livre”.

“Quero voltar a divertir-me. Quero voltar a ser quem era antes de aceitar este cargo. Eu gosto de ser livre. E eu tenho uma vida ótima fora disto. O que é que eu estou aqui a fazer? Tenho uma vida bonita por isso vou voltar a essa vida bonita e estou ansioso por isso”, garantiu Magic Johnson, que há dois anos, quando aceitou o convite para ser presidente dos Lakers, afirmou que era “um sonho tornado realidade”.