Arte Contemporânea

A intimidade apocalíptica de um smartphone na nova peça de Ana Borralho & João Galante

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16 pessoas em palco expõem tudo através de telemóveis. O público é convidado a participar e a refletir sobre a influência das redes sociais e da tecnologia. Esta semana na Culturgest.

Autor
  • Bruno Horta

No fim de um ensaio, segunda-feira à noite no Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa, João Galante falou ao Observador sobre o efeito dos smartphones e da internet no dia-a-dia das pessoas – precisamente o ponto de partida do novo trabalho. “Todas as relações humanas se transformaram, a ponto de, por vezes, já nem precisarmos de contacto físico entre nós, tal o grau de virtualidade a que chegámos”, analisou o artista. “O espetáculo é sobre este apocalipse do ser humano. Tornámo-nos outra coisa, nós e a máquina, e temos a sensação de que não precisamos de mais nada, porque nós e a máquina somos o mundo.”

Romance Familiar ou a Realidade Aumentada”, título da nova proposta da dupla Ana Borralho & João Galante, estreia-se esta semana na Culturgest – quinta e sexta, às 21h00, e sábado, às 19h00, com bilhetes entre seis e 12 euros. Está classificada para maiores de 18 anos, atendendo às imagens e aos textos explícitos que a compõem. Porque se a internet e os aparelhos eletrónicos invadem o quotidiano e facilitam comunicações e trocas, também tornam cada vez mais pública a intimidade das pessoas, a ponto de virtualizarem o sexo e os afetos e gerarem isolamento. A intimidade parece cada vez menos íntima, o obsceno tornou-se omnipresente e contamina comportamentos e discursos, os pornógrafos já não são só os outros. Eis algumas ideias que a peça suscita.

Mas será que João Galante aceita descrever “Romance Familiar ou a Realidade Aumentada” como um trabalho pornográfico? Será apenas erótico? No ensaio corrido de segunda-feira surgiram 16 intérpretes agarrados aos telemóveis durante uma hora e meia, a partilharem episódios de vida e sentimentos reais ou imaginários. Não falaram, disseram tudo através de mensagens de texto que eram projetadas num grande ecrã ao fundo do palco.

A música oscilava entre o piano delicado e a guitarra elétrica distorcida e repetida até à exaustão, até que os intérpretes, entretanto despidos, começaram a fotografar-se e a filmar-se e enviaram esses registos para o ecrã no palco: caras, bocas, dentes, barrigas, pernas, pés, genitais. Com insistência, os órgãos sexuais surgiam em escala aumentada, até ao momento em que se deu uma explosão de bebidas alcoólicas. Perto do fim, uma voz convidou o público a aceder à internet e a partilhar também a sua intimidade no ecrã gigante.

É um espetáculo pornográfico na medida em que vivemos numa sociedade pornográfica”, comentou mais tarde João Galante, sozinho à conversa com o Observador, enquanto Ana Borralho ficou a tratar de afinações técnicas com outro elemento da equipa.

Há aqui uma tentativa de falar desta vontade que hoje existe de vermos tudo, de querermos tudo e de mostrarmos tudo. Este rasgar do ser humano é muito pornográfico. Hoje, qualquer um tem nas mãos máquinas que os humanos nunca tiveram, com uma capacidade de nos fazer ver tudo, de fazer fotografias como nunca puderam ser feitas, com um detalhe pornográfico, com um flash que mostra tudo”, resumiu o criador.

Aparentemente, Ana Borralho & João Galante não procuram fidelidade à linguagem especializada das tecnologias de comunicação e optam pela utilização livre de termos técnicos – desde logo, a “realidade aumentada” do título –, para criarem um efeito imediato no espectador, sem rigor enciclopédico. O ponto de vista que apresentam é ambíguo, sem apoio ou rejeição total da realidade biónica que já hoje vivemos. “Disponibilizamos algo para ser falado e pensado, mas sem uma só direção definida da nossa parte”, explicou João Galante. “Até porque uma mesma imagem pode ser bela ou grotesca consoante a pessoa que a vê.” No entanto, acrescentou, “se pensarmos apenas no lado pornográfico da sociedade, aí há uma crítica da nossa parte”.

Por causa da tecnologia, estamos todos diferentes, o que não é necessariamente mau. Acredito que as redes sociais, ou as tecnologias em geral, têm o poder de transformar o mundo e não precisamos de as olhar como algo que nos cai em cima e destrói. Não será só isso. O espetáculo foca-se no fim de qualquer coisa e no início desta outra era em já estamos a viver”, completou o artista.

João Galante & Ana Borralho gostam de criar espetáculos em colaboração com intérpretes não-profissionais (©Bruno Simão)

Polémicos e abertos aos outros

Ana Borralho, nascida em Lagos em 1972, e João Galante, nascido em Luanda em 1968, são casal e dupla criativa, ambos com percurso inicial nas artes visuais. Conheceram-se em meados da década de 90, quando estudavam artes plásticas na AR.CO, escola de artes e comunicação visual, em Lisboa. O trabalho de ambos tem circulado em festivais e salas de inúmeros países e à criação em nome próprio acresce desde 2011 a direção artística do festival anual de artes performativas Verão Azul, em Lagos.

Tornaram-se conhecidos através de performances e espetáculos sem narrativa onde a sexualidade e a identidade de género são expostas, recriadas e questionadas, o que por vezes lhes tem valido críticas ou reações agressivas, incluindo nas redes sociais da internet, por parte de pessoas que se recusam a assistir aos espetáculos. Por norma, explicou João Galante, criam em torno de questões atuais que influenciam o quotidiano das pessoas. As “máquinas pensantes”, ou seja, os algoritmos e os sistemas informáticos com inteligência artificial deram-lhes o ponto de partida neste caso.

Outras das marcas da dupla, desde há mais de uma década, é o envolvimento de intérpretes não-profissionais (também descritos como “da comunidade local”). Mesmo que não esteja escrito na ficha técnica, as peças que fazem são quase sempre em colaboração com os intérpretes.

Eu e Ana tentamos criar uma estrutura, um conceito, que depois se altera ao ser aplicado a determinados corpos, àqueles que trabalham connosco. Durante muitos anos, dei-me muito com artistas, andei sempre à volta da arte, e mundo fecha-se numa espécie de artificialidade em torno do que é o artista e dos seus conceitos. Incluir nas nossas peças os que não são iguais a nós penso que nos ajuda a falar de outras coisas, sem ser apenas sobre as nossas ideias.”

Assim aconteceu em “Romance Familiar ou a Realidade Aumentada”. Além de pessoas que com eles costumam colaborar – Daniel Matos, Tiago Gandra, Cátia Leitão, Catarina Gonçalves, Ana Freitas e Cláudio da Silva – entram mais 10 atores, escolhidos por audição na Culturgest no início do ano: Alexandre Crespo, André de Campos, Barbara Bruno, Beatriz Garrucho, Eva Fornelos, João Meirinhos, Luara Learth, Maria Lalande, Mariana Santos e Ricardo Vaz Trindade.

O espetáculo é coproduzido pela Culturgest e pelas salas Le Phénix e Théâtre de Denain, no norte de França, e depois dos três dias de apresentação em Lisboa começará a circular pela Europa. No início de 2020, por exemplo, será exibido em Amiens.

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