“É necessário repensar o diálogo entre a arte, a cultura e o negócio”, lê-se no texto de divulgação do RHI – Revolution, Hope, Imagination, um novo certame cultural criado por Ana Ventura Miranda, emigrante portuguesa em Nova Iorque. “Quando falo em negócio, refiro-me às empresas”, explicou esta responsável ao Observador. “Nos EUA, não há um Ministério da Cultura, o sistema de apoio às artes é muito diferente do europeu, implica ir ao encontro de doadores e mecenas, e o que estou a tentar fazer é seguir o modelo americano.”

A iniciativa assemelha-se a um festival multidisciplinar e é descrita como “aceleradora de um novo diálogo”. Com orçamento de apenas 30 mil euros, o RHI propõe-se levar a várias cidades portuguesas um programa “inovador e de enorme dimensão” que envolve artes, empresas, cultura e turismo.

Os contornos ainda estão a ser definidos, ou assim concluiu o Observador da conversa recente com a mentora. Em concreto, o RHI decorrerá entre 14 e 21 de setembro em Faro, Loulé, Vidigueira, Évora, Lisboa, Torres Vedras, Óbidos, Caldas da Rainha, Alcobaça, Leiria, Guimarães e Funchal. Consiste em espetáculos ao vivo e em conferências e workshops sobre música, design, arquitetura, ciência, teatro, cinema, dança, literatura e educação. Os curadores são Pedro Abreu, Ivo Canelas e Ana Ventura Miranda, ao passo que como programadores estarão Afonso Cruz, José Luís Peixoto, Marte de Menezes, Pedro Varela, Christophe Fonseca, Nuno Bernardo e John Gonçalves.

Por detrás do RHI está o Arte Institute, organização sem fins lucrativos fundada em 2011 nos EUA por Ana Ventura Miranda com o objetivo de “promover a cultura portuguesa contemporânea a partir de Nova Iorque para o mundo inteiro”. Uma “plataforma de internacionalização, mas também de criação”, esclareceu.

No ano passado, o Arte Institute fez 125 eventos em 82 cidades de 34 países. “Sou eu sozinha com dois freelancers a trabalhar aqui em Portugal e só temos um orçamento de 120 mil dólares por ano”, revelou a mesma responsável, acrescentando que esse orçamento tem origem em donativos de três patronos principais: EDP, Caixa Geral de Depósitos e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

O nome Arte Institute, reconheceu Ana Ventura Miranda, é pouco familiar para a maioria dos portugueses. “As pessoas ouvem falar dos eventos que fazemos, mas não os associam a nós”, disse. De entre esses eventos, contam-se desde 2011 a Semana José Saramago em Nova Iorque, um festival de curtas-metragens portuguesas, concertos SummerStage no Central Park e a exibição de filmes portugueses no MoMA, museu de arte moderna e contemporânea de Nova Iorque.

“Não conseguiremos mudamos as mentalidade nem por os artistas e as empresas a falar e a colaborar se não tivermos planos de negócios e se não pensarmos em sustentabilidade. As conferências do RHI são fundamentais para isso, para trazermos especialistas que vão partilhar métodos e ideias que usam nos seus países de origem. Não vamos saltar do modelo atual do subsídio para um modelo totalmente americano, mas temos de encontrar um ponto equilíbrio”, defende a mentora da iniciativa. “O RHI não financia projetos, dá um empurrão para que os artistas montem um espetáculo e tenham ferramentas para o vender. Não tenho nada contra subsídios às artes, mas podemos pensar para além disso. Acho que os subsídios são um apoio, mas precisam de ser a única fonte de financiamento. Quem também pensa assim, tem agora uma oportunidade.”

As conferências dirigem-se principalmente a profissionais. Em Lisboa, por exemplo, decorrerão na Culturgest, no MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), no Teatro Municipal São Luiz, no Centro Cultural de Belém e na Fundação Oriente. A programadora americana Jill Sternheimer, do Lincoln Center; Jason Fine, jornalista da revista “Rolling Stone”; o produtor de cinema Rene Bastian e Javier Rioyo, diretor do Instituto Cervantes, são exemplos de conferencistas convidados.

Já os workshops são pensados para crianças e grande público. Um deles é protagonizado pelo luso-descendente Pete Souza, conhecido como fotógrafo oficial do presidente americano Barack Obama. Os espetáculos também pretendem alcançar o público em geral, mas ainda não se sabem em que consistem.

Nesta sexta-feira, o RHI vai abrir uma chamada para artistas, portugueses e estrangeiros, para que estes apresentem até 12 de maio propostas que irão depois ser selecionadas para o programa do RHI, em setembro. Ana Ventura Miranda diz que todas as áreas de criação são elegíveis desde que multidisciplinares. “Não dá para ser só música ou só cinema, porque quando internacionalizo as criações tenho de conseguir, com um só investimento, alcançar públicos diversos que provavelmente nunca se cruzariam na vida e isso só acontece se as pessoas trabalharem em mais do que uma área artística”, explicou.

Depois do evento, as criações selecionadas integrarão uma plataforma online a que “qualquer produtor, de qualquer parte do mundo, passa a ter acesso, podendo assim conhecer o trabalho dos artistas nacionais”. Ou seja, para além do evento físico, o RHI terá continuidade virtual.

Ciente de que Portugal está na moda, com enorme projeção e visibilidade internacional, Ana Ventura Miranda quer que o festival seja também um pivot no turismo cultural e acredita que a plataforma online será, por exemplo, utilizada por agentes turísticos e programadores para recrutarem artistas, sobretudo na área da música, para performances ou miniconcertos privados para turistas que se deslocam a Portugal.

Ana Ventura Miranda nasceu em Torres Vedras há 41 anos e em 2006 mudou-se para Nova Iorque, onde começou por trabalhar como atriz. Foi depois produtora, jornalista e assessora na famosa Sonnabend Gallery, instalada em Nova Iorque no início da década de 70 e responsável pela disseminação da arte europeia junto de colecionadores americanos. Hoje dedica-se em exclusivo às diversas iniciativas do Arte Institute, de que é diretora. Vive no bairro do SoHo, em Manhattan, e passa algumas semanas por ano em Portugal.

Ao Observador, sublinhou que o nome RHI deve ser lido “rái”, à inglesa, por se tratar também da primeira sílaba da palavra “rhinoceros”. O logótipo utilizado é precisamente o de um rinoceronte, como aquele que veio de Goa há mais de 500 anos para ser oferecido ao rei D. Manuel I e que ficou representado numa famosa gravura do artista germânico Albrecht Dürer. A globalização da cultura portuguesa encontra-se com essa outra ideia histórica de que os Descobrimentos simbolizaram a globalização feita pelos portugueses, acredita esta responsável.