Quando somos pequeninos, ensinam-nos que a bondade compensa sempre. Depois, quando crescemos, a vida, e o cinema, mostram-nos que não é bem assim. Vejam o caso de Frances (Chloë Grace Moretz), a jovem protagonista de “Greta — Viúva Solitária”, de Neil Jordan. Frances tirou o curso em Boston e mudou-se para Nova Iorque, onde trabalha como empregada de mesa num restaurante de luxo e vive no apartamento de Erica (Maika Monroe), a sua melhor amiga, rica e estouvada. Frances é uma rapariga tão certinha, tão cumpridora e tão boazinha, que às vezes leva Erica à exasperação, porque prefere ficar em casa a ler do que ir a bares e festas e conhecer rapazes.

[Veja o “trailer” de “Greta-Viúva Solitária”]

Uma noite, Frances vem do trabalho de Metro e repara numa mala de senhora esquecida num banco. Como é muito certinha, cumpridora e boazinha, procura um documento de identificação na mala, e ao contrário da amiga, que a quer deitar fora e guardar o gordo rolo de notas que encontrou lá dentro, ruma a Brooklyn para a entregar à proprietária. Ela é Greta (Isabelle Huppert), uma francesa viúva que gosta de Liszt, tem uma casa cheia de fotografias do marido pianista que morreu e da filha que estuda música em Paris, e vive na solidão. Greta fica agradecidíssima a Frances por ela lhe ter devolvido a mala, serve-lhe café e conta-lhe a vida toda. Frances, que perdeu a mãe há um ano e é mesmo muito boazinha, condói-se dela.

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[Veja uma entrevista com Isabelle Hupert e Neil Jordan]

Frances, a órfã de mãe, e Greta, a solitária com a filha do outro lado do oceano, ficam, obviamente, amigas. Até aqui, parece tudo bem no melhor dos mundos. A bondade de Frances foi recompensada com uma figura maternal, e a tristonha Greta ganhou uma filha substituta. Só que um dia, Frances abre o armário errado e descobre que Greta tem uma coleção de malas iguais à que ela encontrou no Metro e lhe devolveu, e cada uma tem um papelinho amarelo colado com um nome feminino e um número de telefone. É o suficiente para Frances se afastar bruscamente de Greta, começar a investigá-la e descobrir que ela lhe mentiu sobre quase tudo. E o afeto que sentia transforma-se em medo.

[Veja uma entrevista com Chloë Grace Moretz]

Greta começa a bombardeá-la com mensagens de texto e de voz. Depois, a ir ao restaurante à procura dela e a aparecer-lhe à porta de casa e cuspir-lhe pastilha elástica nos cabelos. A seguir, a ficar especada horas a fio, de óculos escuros, no passeio oposto ao do restaurante. Daí a uma cena de faca e alguidar em público e à perseguição nas ruas a ela e a Erica, vai um passo. A bondade de Frances não lhe valeu uma nova amiga. Meteu-a num filme de terror. Em “Greta — Viúva Solitária”, Neil Jordan propõe-nos um conto de fadas sob a forma de um “thriller” de série B só com mulheres, onde Isabelle Huppert faz de bruxa má e Chloë Grace Moretz é a sua ingénua presa. E não há nenhum príncipe encantado nas redondezas para a salvar.

[Veja uma cena de “Greta — Viúva Solitária”]

O filme começa por ser absorvente e inquietante, depois torna-se forçado e a certa altura mergulha de cabeça na inverosimilhança. Mas ficamos presos até ao fim, porque Jordan, mesmo apesar da credibilidade do argumento de “Greta — Viúva Solitária”, acabar por lhe falhar, consegue que a fita tenha “suspense” e estilo (há um par de planos “hitchcockianos” e tudo); e é inteligente o suficiente para deixar Isabelle Huppert à solta. E esta, depois de ter interpretado mulheres tão emocional e psicologicamente complicadas e tão dramática e requintadamente perversas em filmes como “A Pianista” e “Ela”, faz maravilhas com a maldade tresloucada de Greta, desde fechar Frances numa arca cheia de brinquedos, até espetar uma seringa no pescoço de um detetive demasiado abelhudo, enquanto dança descalça. E tudo sem pinga de “overacting”.

[Veja uma cena de “Greta — Viúva Solitária”]

Onde qualquer outra atriz teria recorrido ao estereótipo da histeria demencial, Huppert mantém quase sempre imperturbável a imagem da senhora solitária, sofisticada, discreta e levemente neurótica, ao mesmo tempo que faz Frances passar por tratos de polé e acumula sacos com cadáveres cobertos de cal na cave de casa. Nem quando Frances a mutila com uma forma de bolo, na única cena “gore” do filme, Greta perde a compostura, nada que umas luvas de “griffe” não remedeiem. Basta um movimento dos olhos a Isabelle Huppert para sugerir a bruxa maléfica e demente que há sob a viúva respeitável que veste Chanel, toca Liszt ao piano e mora em Brooklyn. O filme pertence-lhe, e ela leva-o para casa com uma perna às costas e um sorriso nos lábios.