Sentido de liberdade, jogo entre sagrado e profano e dimensão de farsa são pedras de toque da encenação de João Mota da tragédia shakespeariana “Romeu e Julieta”, a estrear dia 17, em Lisboa, com música original de José Mário Branco.

O “sentido de liberdade, de que mais vale morrer e ser livre, mesmo que sejamos vitimados por uma sociedade, do que renegarmos a liberdade e o amor” é “o grande problema” e “o lado maravilhoso” do clássico de Shakespeare que João Mota, em entrevista à agência Lusa, enfatiza no trabalho que subirá à cena no Teatro da Trindade, em Lisboa.

Coproduzida por aquele teatro ao Bairro Alto e a Comuna Teatro de Pesquisa, a peça resulta de um convite feito, “há mais de um ano”, pelo diretor artístico do Trindade, Diogo Infante, a João Mota, para encenar a peça que especialistas consideram uma das mais belas e trágicas do poeta e dramaturgo de Statford-upon-Avon, William Shakespeare (1564-1616), sugerindo-lhe ainda dois atores para protagonistas, disse João Mota à Lusa.

O “jogo entre o sagrado e o profano” patentes no texto do autor inglês, centrado no ódio entre as famílias Montéquio e Capuleto, e o “lado de farsa” são outros dos pontos aliciantes na peça que João Mota classifica de “fabulosa”. Há quem pegue na peça para “demonstrar o ódio de morte que aquelas duas famílias tinham uma pela outra”, disse João Mota, acrescentando não ser esse o caminho do trabalho que vai apresentar.

Romeu e Julieta, protagonizados por José Condessa e Bárbara Branco, “são livres”, por isso “preferem a morte a renegar o amor que sentem um pelo outro”. E “ser livre é a coisa mais importante que há na vida”, sublinha o encenador, sem deixar de acrescentar que os protagonistas da peça, cuja ação decorre em Verona, “são vítimas e vitimados por uma sociedade que se odeia entre si”.

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Sete dias. Só (ou ainda). Tudo isto começou há bem mais de um ano num convite que nos deixou de queixo caído e com macaquinhos na cabeça. Inconscientemente trouxemos connosco desde então a ideia do que seria fazer esta peça: Romeu e Julieta. As borboletas estão sempre presentes. Todos temos uma ideia do que é esta história de amor, todos temos uma opinião e não há coisa que deixe um actor mais nervoso. Saber que todos vão ter um olhar crítico sobre o que vamos fazer, transforma as borboletas em aves de rapina. Esta peça veio na altura certa, com as pessoas certas. Tenho a meu lado esta companheira de viagens incrível, que é uma Actriz se uma sensibilidade e de uma inteligência muito pouco comum. Que sorte tenho de poder trazer “para casa” esta companheira para outras viagens! Estamos à vossa espera a partir de 17 de Abril no @teatrodatrindade

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E porque Shakespeare é “um autor genial de todos os tempos”, e “essencial tanto ao nível do amor, como profundamente profano para a sua época, por causa do erotismo”, o diretor da Comuna optou por dar “ênfase” a esse “jogo subjacente” na peça a que não é alheio o facto de vir do princípio do Renascimento, sublinhou à Lusa.

“Estou no recreio, como eu digo”, afirmou João Mota a propósito do lado de farsa que a tragédia de O Bardo contém. “O lado da tragédia que vivemos ainda hoje; as famílias, o ódio, a inveja, o ciúme, o casamento por interesse… Esta peça tem isso tudo”, frisou.

“Romeu e Julieta” assinala também o regresso de José Mário Branco à composição musical para uma peça da Comuna. “O estrangeiro em casa”, do dramaturgo e encenador francês Richard Demarcy (1942-2018), que João Mota encenou na Comuna, em 1990, foi o último original do compositor para a companhia, onde também representou e para a qual compôs várias obras.

Um “retomar os tempos antigos, com a coragem de o dizer e fazer”, porque José Mário Branco “é um grande compositor e o teatro precisa de grandes compositores”, sustentou João Mota à Lusa, recordando peças como “A mãe” e “Homem morto, homem posto”, de Brecht, com composição original de José Mário Branco, estreadas em 1978 e 1979.

João Mota estabelece o paralelo com Manuela de Freitas: “Faz imensa falta ao teatro”, disse à Lusa. Por isso foi buscá-la para “assistente de encenação”. É “um cheirinho do teatro”, explica sobre a atriz que está também ligada à história da Comuna, e que o assiste em “Romeu e Julieta”, tal como Carlos Paulo e Manuela Couto, embora os três nomes não constem da ficha técnica do espetáculo.

Manuela de Freitas “é talvez a melhor das atrizes da sua geração”, frisou João Mota, lamentando que aquela com quem cofundou Os Bonecreiros e, em 1 de maio de 1972, a Comuna, não queira regressar ao palco.

Não perde, contudo, a esperança de voltar a vê-la “num papel de protagonista, do princípio ao fim de uma peça”. Sem ser necessariamente um monólogo – não por não os “apreciar”, mas porque “quando se tem uma atriz disponível tão boa como a Manuela [de Freitas] deve-se dar prazer aos outros também de contracenar com ela”, disse João Mota.

Para o encenador, esta versão de “Romeu e Julieta” é também “uma peça charneira entre o velho e o novo”, porque conta com atores da Comuna, com jovens atores formados ou recém-formados em escolas como a Profissional de Teatro de Cascais, do Teatro Experimental de Cascais, e da Escola Superior de Teatro e Cinema, onde João Mota deu aulas durante 35 anos.

Com tradução de Fernando Vilas-Boas e adaptação de João Maria André, são intérpretes de “Romeu e Julieta” Carlos Paulo, Diogo Tavares, Eduardo Breda, Francisco Sales, Gonçalo Botelho, Guilherme Filipe, Hugo Franco, Luís Garcia, Manuela Couto, Maria Ana Filipe, Miguel Sermão, Patrícia Resende e Rogério Vale.

Com cenografia de António Casimiro e desenho de luz de Paulo Graça, a peça vai estar em cena na sala Carmen Dolores do Teatro da Trindade até 9 de junho, com espetáculos de quarta-feira a sábado, às 21h00, e, aos domingos, às 16h30. Após a sessão de 12 de maio, haverá uma conversa com o público.

A receita de bilheteira do dia da estreia reverterá na íntegra a favor do Hospital Geral da Machava, na Beira (Moçambique), um dos intervenientes no apoio às vítimas do ciclone Idai, que atingiu o país, em 14 de março.