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Primeira Liga NOS

Bruno Fernandes e a vantagem de jogar futebol por dois (a crónica do Desp. Aves-Sporting)

Renan tornou-se a expulsão mais rápida de sempre do Sporting (4') mas leões conseguiram disfarçar inferioridade e igualaram melhor série de vitórias seguidas com triunfo frente ao Desp. Aves (3-1).

Mathieu marcou o 2-1 em cima do intervalo, Bruno Fernandes fez o 3-1 quase no fim e Sporting somou sétimo triunfo consecutivo

JOSÉ COELHO/LUSA

Era um dado estatístico, que vale o que vale, mas que neste caso tem um significado maior do que isso: em caso de vitória na Vila das Aves, frente a um adversário que tem vindo a subir e muito no Campeonato, o Sporting igualava a melhor série de triunfos consecutivos da temporada. Que, na verdade, até deve ser encarada como a melhor – a equipa está bem mais segura, consistente e personalizada do que aquele conjunto obcecado pelo ataque montado por Marcel Keizer quando chegou, que fazia golos de todas as formas e feitios mas tremia até ruir ao mínimo sopro na transição defensiva. No entanto, e para quem leu os jornais esta semana (para o caso, bastava dar uma vista de olhos nas capas), isso parecia ser o menos importante.

Primeiro, e de forma inevitável, o destaque foi para a meia Europa de olho em Bruno Fernandes, o médio que continua a desafiar a capacidade de carregar uma equipa às costas. Depois, as notícias de mercado, com enfoque num novo lateral direito que poderá sair entre Rosier, Rafael ou um sul-americano (e com a correspondente saída de Bruno Gaspar). Por fim, mas a deixar uma marca maior do que todas as outras, as informações sobre a auditoria forense (apresentada pela própria auditora como “uma auditoria que não é forense”…) que se pensava ser apenas à SAD mas que passou também pelo clube e tornou público, por exemplo, a folha salarial de todas as modalidades leoninas que não o futebol – e com todas as ondas de choque que isso provocou no plano interno. Pelo meio lá se ia falando do jogo. Só quando Keizer fez a antevisão do jogo se fixou no presente da equipa.

“Mathieu? Todos nós sabemos da idade dele mas espero que não termine carreira. Tem apresentado um grande nível e é só isso que importa”, destacou o holandês, ciente da importância que o central assume na equipa quando está fisicamente em condições. Esta noite, não foi exceção. Bruno Fernandes voltou a ser o melhor do Sporting, não só pelo golo mas sobretudo pela forma como conseguiu disfarçar a inferioridade numérica da equipa quase desde o início do encontro. Acuña, como lateral face à ausência de Borja, também esteve em destaque. Mas foi de novo o francês a assumir a batuta da equipa em termos defensivos para segurar a vantagem e logo num jogo onde começou mal na fotografia, no lance que valeu a expulsão para Renan Ribeiro. Naquele contexto, qualquer central acusava o lapso; Mathieu seguiu o caminho inverso. E até marcou um golo no triunfo por 3-1.

Ficha de jogo

Desp. Aves-Sporting, 1-3

29.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do CD Aves, na Vila das Aves

Árbitro: Artur Soares Dias (AF Porto)

Desp. Aves: Beunardeau; Ponck (Varela, 46′), Diego Galo, Jorge Fellipe; Rodrigo, Vítor Gomes (Diallo, 73′), Falcão, Fariña (Rúben Oliveira, 84′), Mato Milos; Luquinhas e Derley

Suplentes não utilizados: André Ferreira, Defendi, Braga e Faye

Treinador: Augusto Inácio

Sporting: Renan Ribeiro; Ristovski, Coates, Mathieu, Acuña; Gudelj (Doumbia, 71′), Wendel, Bruno Fernandes; Raphinha, Jovane Cabral (Salin, 6′) e Luiz Phellype (Diaby, 78′)

Suplentes não utilizados: Tiago Ilori, Bruno Gaspar, Francisco Geraldes e Pedro Marques

Treinador: Marcel Keizer

Golos: Luiz Phellype (24′), Falcão (33′, g.p.), Mathieu (44′) e Bruno Fernandes (84′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Fariña (22′), Diego Galo (44′), Gudelj (45+2′), Acuña (67′), Raphinha (82′) e Derley (90+1′); cartão vermelho direto a Renan Ribeiro (4′)

Com a final da Taça de Portugal alcançada, as próximas seis semanas da realidade do Sporting resumem-se a um único objetivo desportivo: a conquista do terceiro lugar do Campeonato que, prestígio à parte, desanuvia e muito o calendário na Liga Europa no arranque da próxima temporada. Por isso, e na cabeça de Marcel Keizer, não há necessidade de poupanças ou escolhas a pensar no encontro seguinte – jogam os melhores e ponto final. Mas ainda existe algum espaço para surpresas pontuais nas opções, até pelas ausências por lesão na equipa e as escolhas que daí advêm. Foi nesse contexto que Jovane Cabral voltou à titularidade dois meses depois, em detrimento do “apontado” Diaby. Cinco minutos depois, estava a ser substituído.

Enquadrando o lance que explica esse momento que dói mais do que muitas entradas para qualquer jogador de futebol, mais um lance daqueles que entram no volumoso livro de coisas-que-só-acontecem-ao-Sporting, recuperamos os números de Mathieu na presente temporada: nos 26 jogos realizados, os leões ganharam 21 (81% de eficácia) e sofreram também 21 golos (média de 0.81 por partida); nos 21 encontros em que esteve ausente, o conjunto verde e branco venceu apenas nove (43%) e consentiu um total de 24 golos (1.2 de média). Atrás do omnipresente Bruno Fernandes que surge em todas as estatísticas (até aquelas que não lhe deveriam dizer respeito) existem outros segredos para essa melhoria. O regresso do francês era um. Mas foi de uma hesitação entre o antigo jogador do Barcelona e Renan Ribeiro que nasceu o lance que mudaria todo o encontro, com o guarda-redes a ser expulso logo no arranque e quando não tinha ainda sequer tocado na bola por falta sobre Luquinhas (4′).

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Desp. Aves-Sporting em vídeo]

Foi a primeira expulsão de Renan Ribeiro na carreira. Foi o vermelho mais rápido de sempre do clube em todas as provas. Ah, foi também a primeira vez em que houve uma saída prematura para o balneário… sem tocar na bola (algo que à partida estaria só circunscrito aos jogadores que recebem ordem de expulsão no banco de suplentes). Saiu Jovane Cabral, entrou Salin. Sem bola, a equipa de Keizer tinha algumas dificuldades em disfarçar a inferioridade numérica e via-se a obrigada a abdicar das zonas de pressão mais altas que tanto gosta; com bola, parecia que estava igual. O segredo, para não variar, era Bruno Fernandes: mais encostado à meia esquerda, tanto combinava com Acuña entre as “piscinas” que ia fazendo para cima e para baixo como ia procurando o corredor central para testar a meia distância. Foi do capitão que surgiu o primeiro remate de perigo, para defesa de Beunardeau (12′); foi do capitão que nasceu a jogada do primeiro golo, a combinar com o argentino até ao cruzamento para o desvio oportuno na pequena área de Luiz Phellype a fazer lembrar o Bas Dost dos bons velhos tempos (24′).

O jogo estava a ser tudo menos brilhante em termos qualitativos mas tornava-se mais interessante com as nuances táticas que cada treinador ia colocando em prática e, neste particular, Augusto Inácio não ficou em nada atrás: sem poder contar com Mama Baldé (jogador cedido pelos leões que tem sido o grande destaque ofensivo da equipa – logo ele que fez quase toda a formação como avançado, destacou-se sobretudo quando recuou para lateral direito e voltou agora às suas origens), o técnico avense não prescindiu dos três centrais mas colocou Luquinhas na frente pelo meio, onde conseguiu criar desequilíbrios aproveitando a atenção à referência Derley. E se logo no início tinha sido o brasileiro a “expulsar” Renan Ribeiro, à passagem da meia hora foi de novo o avançado que passou pela equipa B do Benfica a ser carregado pelo guarda-redes leonino, agora na área. Falcão, de penálti, não deu hipóteses a Salin e estava feito o empate pouco depois da meia hora inicial (33′).

Os visitados rematavam mais (mesmo que sem grande perigo), os visitantes iam conseguindo mais posse (mesmo que sem grande intenção no último terço) mas essa divisão de dados estatísticos que apontava para o empate ao intervalo acabou por ser desfeita em mais uma bola parada a favorecer os verde e brancos: Bruno Fernandes bateu um livre em zona central a combinar com Coates, Jorge Filipe colocou todos os jogadores do Sporting em jogo ao correr para a zona da linha de golo, Wendel teve um remate desajeitado mas Mathieu conseguiu desviar na pequena área de pé esquerdo para o 2-1, naquele que foi o terceiro golo do francês no Campeonato. Se começara com problemas, o experiente defesa conseguiu encontrar soluções (44′).

Em desvantagem, Inácio voltou a tentar surpreender com a saída de Ponck e a entrada de jovem Varela, abdicando da linha de cinco defesas/três centrais para colocar mais um desequilibrador no último terço. Fariña, o médio ofensivo que prometia muito quando chegou a Portugal mas continua ainda hoje a tentar convencer, teve mais bola e protagonismo mas o Desp. Aves, que subiu a pique na posse de bola (muito concedida pela formação verde e branca) só raras vezes conseguiu desconstruir a muralha verde e branca, mais recuada do que é normal mas sempre organizada e com espírito de sacrifício. Assim, e a meio do segundo tempo, o argentino tivera o único remate de algum perigo à figura de Salin (53′) contra duas grandes oportunidades do Sporting, sempre na sequência de saídas rápidas, por Acuña (48′) e Raphinha (60′).

Renan, expulso logo a abrir, já estava na bancada; Jovane Cabral, sacrificado nesse lance, continuava no banco. Ambos viam de diferentes perspetivas um Desp. Aves a tentar com Luquinhas em destaque (até sofrer uma entrada mais dura de Doumbia que lhe esvaziou de vez a pouca gasolina que ainda tinha no tanque) e um Sporting de quando em vez a tentar sair na frente aproveitando o balanceamento ofensivo dos visitados. Oportunidades no final, poucas. Quase nenhuma. E a que houve acabou por ser “inventada” e concluída por Bruno Fernandes, que foi à área vestir-se de ponta de lança (uma das poucas coisas que lhe faltava fazer nesta equipa) para sentenciar de cabeça o encontro após cruzamento de Ristovski (84′). Em cima do minuto 90, Derley ainda fez o 3-2 mas o golo foi invalidado pelo VAR por falta no início da jogada sobre Coates.

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