O historiador inglês Geoffrey Marsh diz ter determinado o local na cidade de Londres onde o poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare terá vivido quando escreveu Romeu e Julieta, nas imediações da atual estação de metro de Liverpool Street. A zona já tinha sido identificada depois de o nome do escritor ter sido encontrado num registo de pagamento de impostos referente ao biénio 1597/98 mas não tinha sido possível encontrar o local exato, na rua Great St. Helen, onde atualmente existem edifícios de escritórios.

A investigação conduzida pelo historiador Geoffrey Marsh, que passou dez anos a analisar e cruzar registos oficiais, permitiu identificar o local onde o dramaturgo habitou durante “pelo menos quatro a cinco anos”, entre finais da década de 1520 e inícios de 1530. Terá sido aí que terá escrito, além de Romeu e Julieta, peças como Sonho de uma Noite de Verão ou O Mercador de Veneza.

O historiador, que é o diretor do departamento de teatro e artes performativas do museu Victoria & Albert, em Londres, concluiu que Shakespeare terá sido inquilino da empresa Leathersellers, que detinha o comércio de peles na época isabelina, noticiou a BBC. A sua casa ficava provavelmente num aglomerado de propriedades em frente ao cemitério de St. Helen, a alguns quarteirões do famoso arranha-céus londrino conhecido como The Gherkin, numa zona habitada por mercadores ricos e influentes.

“Poucos anos depois de se mudar de Stratford para Londres, [Shakespeare] vivia num dos bairros mais ricos da cidade, junto de personalidades poderosas, comerciantes internacionais ricos, médicos da sociedade e peritos musicais”, afirmou Marsh. O historiador sustentou que “viver num dos lugares importantes de Londres terá elevado a posição de Shakespeare, ao mesmo tempo que desenvolvia a sua carreira, tentava obter um escudo de armas para a sua família e planeava comprar uma casa espetacular e cara em Stratfford”.

O centro da cidade de Londres foi devastado por um incêndio em 1666.

Peças de teatro podem ter sido inspiradas pelos vizinhos

O historiador acredita que o local onde Shakespeare viveu exerceu também influência nas suas obras, nomeadamente nas suas peças mais famosas, como as tragédias Macbeth, Rei Lear e a comédia As You Like It. Entre os seus vizinhos mais famosos contar-se-iam os médicos Edward Jorden e Peter Turner, que tinham vivido na Alemanha e em Itália.

“Este médico rico, Peter Turner, que tinha estudado na universidade de Heidelberg na Alemanha vivia literalmente na porta ao lado. Outro vizinho, Edward Jorden, também era médico. Estas pessoas eram pensadores muito progressistas que se tinham ido formar nos grandes centros intelectuais da Europa. De certeza que Shakespeare os via todas as semanas na igreja”, sugeriu o historiador, admitindo, no entanto, não poder provar que houve algum contacto direto entre eles. “Naquele tempo, quem vivia numa paróquia, tinha de ir à igreja todos os domingos. Era a lei”, explicou, citado pelo The Guardian.

Marsh acredita que foi este contacto com comerciantes e outras figuras importantes da sociedade isabelina que viviam na zona que explica o facto de muitas das peças de Shakespeare se passarem em países estrangeiros, nomeadamente Itália, como é o caso de Romeu e Julieta.

A investigação levada a cabo pelo diretor de teatro do Victoria & Albert também permitiu descobrir que Thomas Morley, o músico que se acredita ter colaborado com Shakespeare numa canção para As You Like It, morava na mesma zona. Na teoria de Marsh, é assim muito provável que os dois se conhecessem.