Normalmente, os clubes contratam jogadores e treinadores com um objetivo delineado, um projeto, um plano de ação. No caso da ida de Cristiano Ronaldo para a Juventus, por exemplo, a ideia dos italianos era a conquista da Liga dos Campeões na presente temporada, objetivo que caiu por terra esta terça-feira, com a derrota em Turim com o Ajax; no que toca ao regresso de Zidane ao Real Madrid, Florentino Pérez apontou ao restaurar de uma identidade que se perdeu entre Lopetegui e Solari; e na chegada de Pep Guardiola ao Manchester City, o plano era vencer a Premier League e as restantes competições internas e colocar os citizens ao lado de clubes históricos como o United, o Arsenal ou o Liverpool.

Talvez por isso, por conhecer o projeto desde o dia em que trocou Munique por Manchester, Guardiola desvalorizou uma eventual eliminação da Liga dos Campeões esta quarta-feira. Afinal, o City perdeu fora com o Tottenham na semana passada, não marcou qualquer golo no novíssimo Tottenham Hotspur Stadium e precisava de marcar pelo menos dois golos e não sofrer nenhum em casa para seguir em frente para as meias-finais. Mas se isso não acontecesse, não era o fim do mundo. Foi mais ou menos assim que Guardiola o descreveu. “Sei que as pessoas dizem que vim para aqui para ganhar a Liga dos Campeões mas, honestamente, não vim para aqui para vencer a Champions. Vim para fazer a equipa jogar da forma que tem jogado nos últimos 20 meses. Foi por isso”, explicou o treinador espanhol na antevisão da receção aos spurs.

Ainda assim, Guardiola não é bem o tipo de treinador que aceite muito bem uma derrota. E, talvez por isso, até espicaçou os adeptos e garantiu que estava “curioso” para ver a atitude dos apoiantes do Manchester City esta quarta-feira, para perceber “o quanto se importavam” com a Liga dos Campeões. Importando-se mais ou menos, a verdade é que Guardiola podia contar com Bernardo Silva para a segunda mão, algo que não aconteceu na semana passada devido a uma lesão do médio português, e tinha ainda do seu lado o facto de Harry Kane, uma das principais ameaças do Tottenham, se ter lesionado no primeiro jogo e estar de fora do embate decisivo.

Aquilo que aconteceu nos primeiros 20 minutos do jogo no Etihad, porém, não era racionalmente previsível. Em 20 minutos, marcaram-se cinco golos em Manchester. Sterling inaugurou o marcador aos quatro minutos; Son Heung-min voltou a marcar como havia feito na primeira mão aos 7 e bisou aos 10, obrigando nessa altura o City a marcar três golos para passar para a frente da eliminatória; Bernardo Silva bateu Lloris aos 11, reduzindo a desvantagem da equipa de Guardiola; e depois de uns raros minutos para respirar, Sterling depois de um lance genial de Bernardo e empatou as contas, deixando apenas um golo por marcar para evitar o prolongamento. Cinco golos em 20 minutos e mais demérito das defesas de ambas as equipas do que propriamente qualidade ofensiva, já que os dois golos do Tottenham nasceram de erros de Laporte e os três do City apareceram com o excessivo espaço dado pela defensiva londrina aos atacantes contrários.

Naquele que é o primeiro de dois jogos entre as duas equipas no Etihad no espaço de quatro dias, já que o Manchester City volta a receber o Tottenham já no sábado mas para a Premier League, o conjunto orientado por Guardiola manteve um claro ascendente durante o tempo restante da primeira parte mas não voltou a conseguir desequilibrar da maneira que o fez nos 20 minutos iniciais, altura em que o jogo esteve totalmente partido. Na ida para o intervalo, Pochettino correu para os balneários e Guardiola foi a passo. Um pormenor que, no final do jogo, talvez o espanhol quisesse alterar.

Na segunda parte, o jogo deixou de estar partido em todo o comprimento e ficou simplesmente tombado para a baliza de Lloris e do Tottenham. O City dominou por completo o primeiro quarto de hora do segundo tempo, passou a jogar com a defesa muito subida no relvado e podia ter chegado ao quarto golo por intermédio de Sterling ou de Bernardo Silva. Mas a verdade é que, e justiça seja feita, esses dois já tinham marcado. E se existe alguém no plantel de Guardiola que percebe de golos decisivos é Sergio Agüero — a começar por aquele em maio de 2012, no tempo extra da última jornada da Premier League frente ao Queens Park Rangers, que garantiu o primeiro título da história do clube. A passe de De Bruyne, Agüero fuzilou Lloris num golo em tudo à sua semelhança e colocou o Manchester City em vantagem na eliminatória.

Mas este era um jogo de loucos. E nunca, nem mesmo quando Guardiola tirou David Silva para colocar Fernandinho e fechar o meio-campo dos citizens, esteve este resultado decidido. Aos 73 minutos, quando os adeptos do Manchester City respondiam ao treinador e tornavam bem audível o quanto queriam que a equipa progredisse para as meias-finais da Champions, um herói totalmente improvável apareceu no Etihad. Fernando Llorente, espanhol de 34 anos que tinha entrado para substituir um lesionado Sissoko ainda na primeira parte, apareceu ao primeiro poste a responder a um canto e desviou — tem de ser esta a palavra, já que não cabeceou nem rematou, só existiu — para o terceiro do Tottenham, que colocava os spurs novamente em vantagem.

Até ao fim, o Manchester City balançou-se totalmente para o ataque e Sterling ainda fez o hat-trick no terceiro minuto de descontos, deitando por terra as esperanças do Tottenham, levando à loucura as bancadas e deixando Guardiola numa correria a la Klopp. O VAR, porém, roubou as meias-finais ao City — Agüero, que fez o passe para o avançado inglês, estava em posição de fora de jogo e o golo foi anulado. Golpe de teatro em Manchester e passaporte quase carimbado para o Tottenham.

O Manchester City de Bernardo Silva e Guardiola fica pelo caminho e concentra-se agora por completo na Premier League; o Tottenham segue em frente para as meias-finais da Liga dos Campeões, onde vai encontrar o Ajax, a equipa sensação da Champions que eliminou o Real Madrid e a Juventus. Para a história, fica esta épica segunda mão dos quartos de final no Etihad: os cinco golos mais rápidos da história da competição e o primeiro jogo com duas mudanças de vantagem ainda na primeira parte.